Acordou com o leve ruído do arrastar da porta de seu quarto e, por um mísero instante, chegou até a acreditar que fosse seu marido retornando para casa. Mas sabia que isso não era possível, já que a guerra perdurava e com ela a ausência de seu amado também perduraria. Levantou levemente o rosto simulando ainda estar adormecida. Averiguou a silhueta de alguém que adentrava seu aposento, aguardando sua aproximação até o último instante: o vulto sacou a espada com velocidade e pericia artísticas, um mestre do Iaijutsu, que torna o simples ato de desembainhar sua arma em um ataque quase mortal. Tomoe saltou para trás em um movimento acrobático escapando por um triz do golpe. A ponta da lamina ainda conseguiu lamber seu abdome, que fora protegido do corte por suas vestes de seda pura que de nada adiantariam se o golpe tivesse passado um centímetro mais próximo.
– Me disseram que você era boa – disse o assassino com uma voz abafada enquanto sacava um isqueiro e acendia a vela que se postava próxima a cama – Confesso que não foram muitos os que escaparam do meu Iaijutsu e você foi a primeira a fazer isto dormindo.
A figura que surgiu da escuridão era a de um homem
alto e esguio, vestido de negro da cabeça aos pés, uma Hoate¹ cobria-lhe apenas
a parte inferior do rosto deixando à mostra
seus olhos tenebrosos e longos cabelos negros que se escorriam da testa à
altura do peito. Tomoe o avaliou por um segundo enquanto ele embainhava sua
longa katana e sacava sua wakizashi, uma lamina mais curta e apropriada para
lutar no interior da casa. “Um ronin” pensou ela já se aproveitando do momento
para arremessar-se para trás transpondo a fina parede de papel que separava seu
quarto da sala de armas no cômodo ao lado. O homem partiu em seu encalço, mas
Tomoe foi mais rápida, sacou de um suporte na parede sua velha naginata²
bem em tempo de bloquear um golpe vertical que certamente racharia seu crânio.
– Cometeu um grave erro ao me subestimar ronin – afirmou
se afastando alguns passos do homem enquanto analisava um certo ar de
superioridade nos olhos do adversário – Pois sou uma Onna Bugeisha³, e o
fato de ser mulher não muda a verdade de que sou melhor do que você.
A fúria tomou o semblante do homem, que ao ouvir tais palavras arremeteu-se em um ataque fulminante acompanhado de um brado gutural abafado pela mascara. Antes do fim Tomoe ainda pode vislumbrar em sua mente aqueles por quem lutava: seu amado esposo em guerra pelo nome de seu clã, o filho ainda de colo que repousava no quarto ao lado, e por sua mãe e honorável mestra da tradição Bushido.
Ademais, a wakizashi do ronin foi muito curta para sua naginata.
Tomoe ainda nem estava ao seu alcance quando decepou seu pé direito e com um
giro completo de corpo com a arma hasteada culminou o golpe em sua nuca,
decapitando-o antes mesmo que seu corpo tocasse o chão.
hoate¹ = mascara tradicional das armaduras samurai.
naginata² = um tipo de lança japonesa usada principalmente pelas mulheres.
Onna Bugeisha³ = mulher adepta do Bushido (artes marciais e filosofias samurai).
Contos Inacabados
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