03/04/2019

Tao

                     omos gotas em um oceano
                                      sem causa inicial ou proposito final.
                                      Ondas na superfície de uma esfera
                                      expandindo rumo a um horizonte infinito.
                                      Eternamente, somos impermanente.
                                      Ontem, hoje sempre...
                                    
                                      Por isso não me procures onde não estou.
                                      Não me busque lá fora, ou no futuro
                                      mas onde estiveres, ali estarei.
                                      Somos um em muitos, movimento e repouso.
                                      Ouça a minha voz.
                                      Sou o silêncio.
   

07/01/2019

Devorador de Mentes


A taverna estava lotada até a tampa. A música estava boa, mas confinado naquele espaço comprimido junto a centenas de pessoas a noite fria e fresca tinha se tornado só suor e desconforto. O ar já pesado de tanto fumo represado. Então fui me espremendo pela multidão me dirigindo à saída, ainda sem me decidir se partiria ou se só tomaria um ar. Àquela altura já havia perdido a polidez de tentar me desculpar e não empurrar os mais lerdos ou cretinos que não me davam passagem. Fiz uma última parada no balcão pra conseguir uma cerveja, dessa vez sem muito pudor de passar na frente da gentalha que esperava.
— Ei Rita! Me vê mais uma… eu preciso ir lá fora correndo! — Ninguém nunca te pergunta por que você está com pressa, visto que você está com pressa!. Sempre alivia a situação.

Subi finalmente as escadas em direção a rua, Tim e um segurança ainda estavam na porta.
— Vou só fumar um cigarro e tomar um ar aqui fora, não esquenta que não vou roubar sua caneca não…
— ‘Cê nunca fez isso, né Laru?.. Mas acho que sua coleção tá completa já, faz meses que não some nenhuma.
— Quê  isso?.. haha. Calúnias apenas!
— Vê se não vai ficar dando bandeira lá fora —  disse apontando a porta com os olhos para que o segurança abrisse.
A taverna, que ficava no alto de uma serra, se chamava “Boca do Inferno”. Havia uma construção na superfície evidentemente, mas o salão funcionava no subterrâneo para abafar os sons madrugada adentro. Do lado de fora estava ligeiramente frio, uma noite de inverno tropical com ventos gelados. Eu fui até o habitual poste de lamparina a uns bons duzentos passos da entrada virando a esquina, enquanto puxava uma cigarrilha do bolso do casaco. As poucas ruas eram pavimentadas com seixos, ladeadas pela mata e suas trilhas escuras com algumas outras construções aqui e ali.
C’mon dixie light my fire — entoei a melodia e estalei os dedos da mão esquerda pairando o polegar apontado para cima, de onde surgiu a chama que acendeu a palha do cigarro.
Me escorei no poste e deixei-me perder em pensamentos, enquanto apreciava minha cerveja e minha erva na quietude da noite fria. Fiquei tão absorto e alheio, que mal me dei conta do mancebo que se achegava.
— Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
— Opa! Tu tava tocando aqui hoje, né?.. —  respondi puxando assunto e mais um cigarro do bolso que fui entregando a ele.
— Sim, gostou da melodia? — ele perguntou já se esticando, tentando alcançar a chama do poste para acendê-lo.
— Uhmm... Aprazível. Pena que sem um mecenas mal dá pra pagar o pão e o vinho nesses dias que correm.
— Você é também é músico?.. Deve estar de jejum então.. haha. —  disse erguendo o cigarro para mim, quase que como um brinde de agradecimento.
— Faço outros bicos, mas sim, sou trovador. A gente se vira como pode…
— Alguma canção que eu possa já ter ouvido?
Dei um longo trago e cheguei a cogitar rapidamente se deveria dizer algo. Não sei se estava carente de atenção, se queria me gabar ou se já tava alto demais pra segurar a língua.
Pirita
— Poxa! Tá me dizendo que você é Laru, o Bardo?.. haha
— Pois é…
— E ninguém aqui sabe disso?! Vamos voltar lá, contar pra todo mundo e quem sabe você não me dá a honra de tocar Pirita ao lado do próprio “Profeta do Apocalipse”.
— Vocês só vão entender o que eu falei mesmo, no esperado dia do eclipse… — Creio que ele nunca entendeu, mas isso deu um bom verso.
Eu já estava acostumado a ser carimbado de mentiroso, mas me chamar por essa alcunha ridícula de “Profeta do Apocalipse” foi demais, especialmente naquele tom de sarcasmo. É fato que nos tempos que correm a hipocrisia é tanta que já nem se sabe de que lado estão certos vagabundos, artistas e maroleiros. Mas o desgraçado era as três coisas.
— Não cara, é sério! Eu tenho uns conchavos aí. A gente fala com o Tim e…
— Perdoe minha pressa, mas tenho que ir andando — cortei a palhaçada, já atirando o cigarro no chão pra partir — Nós dois parados aqui fumando também já está meio arriscado. Já tá bandeira demais. Entregue essa caneca ao Tim, faz favor, e vê se não fica marcando mais bobeira aqui fora. Eu vou indo…
Saí rápida e silenciosamente me embrenhando nas trilhas, mas antes que pudesse me distanciar muito, ouvi o barulho dos cascos se aproximando. Parei para observar. Era um heráldico e seu provável capacho, estavam indo na direção do Boca. Fui até a borda novamente e subi num telhado me esgueirando furtivamente no encalço deles. Não foi surpresa ver que o animal ainda estava parado fumando no mesmo lugar enquanto os dois se aproximavam. Só houve tempo de jogar a bituca para longe, tentar correr dos cavalos era inútil.
— O quê que o elemento está fazendo sentado aqui sozinho a essa hora? — disse o “Nobre Cavaleiro”.
— Era você quem estava fumando essa porcaria? — completou o capacho, com a voz um tanto embriagada, apontando para a bituca que eu havia jogado ali. É, pois é… Fazer o que?
O Boca estava em completo silêncio agora. As parede grossas no subterrâneo e a vigilancia de Tim faziam bem seu trabalho. A atenção dos dois estava totalmente voltada para o mancebo, a marola de erva  e minha guimba no chão.
— Não, eu estava seguindo um sujeito que estava rondando minha residência — tentou ele — Dizem que abriram uma taverna ilegal na região, tenho visto muito desses vag…
— Cala essa boca e deita no chão com as mão na cabeça! — disse o sinhozinho, já descendo do cavalo
O mancebo obedeceu a segunda ordem e começou a se esticar no chão, porém ignorou a primeira e voltou a matraquear canalhices tentando se defender e barganhar.
— Eu estou dizendo a verdade m’lords. Há pouco eu ouvia músicas profanatórias vindo daquele prédio. Me disseram que o tal “Profeta do Apocalipse” vem frequentando esse lugar, vocês precisam acreditar em m…
— Você ouviu eu te mandar calar essa boca?! — grunhiu, enquanto metia-lhe um chute nas costelas.
— Esse bostinha é só mais um vagabundo chapado, vamos dar um fim nele logo e voltar — disse o escudeiro armando a besta que carregava consigo.
Ao ouvir tão displicente ameaça o boca-aberta, obviamente, tentou se levantar de uma vez e fugir. Mas antes que desse o primeiro passo ou mesmo que o bêbado houvesse mirado seu alvo, o cavaleiro lhe acertou um golpe de espada de cima para baixo destroçando seu ombro direito. O sangue esguichou numa explosão, de onde eu estava pude ouvir o despedaçar dos ossos da clavícula. Ele só teve tempo para um curto grunhido de dor. Antes que tocasse o solo, o capacho fizera seu trabalho e atingiu-o também com um virote nas costas, retirando o fôlego que ainda restava em seus pulmões. Ele girou no ar e caiu, ainda vivo, agonizante e agora de barriga pra cima.
— Será possível que você não pode passar um dia sem fazer uma merda pra me irritar? Agora eu estou todo sujo de sangue!
— Quê que eu fiz ué!?
— Imbecil! Desce logo daí e apanhe o cérebro! Você poderia tê-lo acertado na cabeça,  completaria a merda!
O capacho obedeceu a ordem, desceu do cavalo e pegou seu equipamento que estava preso à sela. Uma valise de couro com algumas serras, já sujas de sangue e um vaso de cerâmica do tamanho de uma cabeça cheio com o que parecia ser algum líquido e tampado com uma imensa rolha de cortiça. Não estava muito díficil de entender o que estava prestes a acontecer, todavia estava um pouco difícil de acreditar. Decidi perscrutar por mais alguns momentos, a despeito do “meu camarada” que ainda sangrava no chão, com os olhos arregalados e respirava com um chiado agudo de chaleira no fogo, mas incapaz de se mover ou preferir palavra.
— Este já é o quinto, acho que temos o suficiente para o festim — disse o pau mandado preparando-se para serrar um crânio com a tranquilidade de quem serra um toco.
O pobre diabo se desesperou de vez, arregalou ainda mais os olhos e começou a gemer e se debater fervorosamente em súplica. Mas a serra penetrou seu crânio, indiferente. Levou alguns muitos segundos para que ele desmaiasse e alguns poucos minutos para que o corte estivesse terminado e ele finalmente morto. Eu aguardei um pouco mais…
Deux vult! — pregou o heráldico erguendo a espada de cabeça para baixo, segurando-a pela base da lâmina, e tocando um estranho tomo ao coração.
Deux vult! - repetiu seu capacho.
Ele embainhou novamente sua espada, guardou o livro em suas vestes e apanhou o pote de cerâmica retirando a sua rolha, que pelo cheiro, continha algum tipo de aguardente misturada com vinagre. Seu capataz se ergueu com o cérebro nas mãos e preparava para depositá-lo no pote. Peguei minhas castanholas no bolso do casaco e saltei próximo a eles.
Quero vê-los sorrir! — Os dois se sobressaltaram e me olharam perplexos.
Quero vê-los cantar! — Apenas o susto já paralisou-os por alguns momentos,  já era tarde demais pra reagir — Quero ver os teus corpos dançar sem parar!
Ambos começaram a dançar uma espécie de flamenco torto. Um com o cérebro ensanguentado nas mãos e o outro com o vaso de aguardente aberto entornando algumas doses a cada passo mal diagramado. Levaram tempo para entender o que estava acontecendo. Como sua última vítima estavam completamente conscientes, porém o encantamento só lhes permitia e obrigava a dançar incessantemente.
Tomei-lhes o livro para averiguar: “Angustias Hortis", estava escrito em ouro na capa de couro marrom. Era a mesma língua da oração que entoaram, a língua antiga do “Deus único” que sempre fora tão despótico quanto fossem seus representantes da época. Certamente esse era um novo apêndice bizarro a seu culto, eu já vira outros antes. Uma canalhice lupina para pastorear ovelhas apalermadas. Já vinham percebendo os mais aguçados que esse tipo de sandices eram as novas diretrizes do Império contra a sanidade do povo. De fato um texto que induzia a metaforizar verdades, a ratificar mitos e ao duplipensamento. Um perigo nas mãos de idiotas, como pude constatar mais tarde.
Gostaria de tê-los visto morrer de exaustão, como a Dança Irresistível de Magal é capaz de fazer, mas não havia tempo hábil. Guardei o livro comigo, saquei minha adaga, cortei-lhes os pulsos e acenei-lhes com o chapéu em despedida. Creio que ainda puderam desfrutar dessa última dança por mais um quarto de hora antes de finalmente se encontrarem com o “Deus único” que tanto amavam.

Esse conto é inspirado na letra de Metrô Linha 743 e na própria figura de Raul Seixas. Uma singela homenagem a suas músicas que sempre refletiram na minha percepção de mundo.

Criança da Noite


Eles se acham tão espertos, e alguns até realmente aparentam ser. Faz lembrar aquela sensação de que você precisaria de um século para se tornar realmente bom em alguma coisa. Bem, alguns deles tiveram esse tempo. Mas a prepotência… a arrogância… Parecem fazer parte deles, e esse é o ponto. O ponto fraco. Talvez eu esteja sendo prepotente também em me ver em vantagem nutrido de uma informação tão simplória, mas afinal, querendo ou não, sou um deles agora.
“Querendo ou não”, hum!… é até engraçado. Não foi como se eu tivesse recebido um convite para fazer parte da Maçonaria. Em contrapartida o poder e as sensações que vêm junto… são realmente tentadores. Porém – sempre há um porém – me obrigaram a abdicar de todo o resto, de todo mundo que eu conhecia… enfim, de toda uma VIDA. Nem eu mesmo sei se ainda estou vivo, e eles sempre dizem que esses sentimentos mortais desaparecem com o tempo, mas em contrapartida  dizem que abdicar totalmente da humanidade te leva a um caminho inevitável para a Besta que existe dentro de nós.
A verdade é que eu não estou nem fodendo para nada disso. Foda-se se eu estiver sendo prepotente e foda-se eu “morrer” hoje. Que diferença faz hoje ou amanhã? Estar aqui já é um inferno. Um gigantesco mar de tédio. É fato que Victor até tenta me entreter: me mantém ocupado com seus negócios escusos de merda  e em dias bons vamos saciar a Fome em festas da alta sociedade, regadas a belas prostitutas drogadas. – o que será difícil de manter sem Victor, pelo menos no começo – Mas quanto ao conhecimento, a arte que leva ao poder e as suas intrigas mais pútridas, ele me deixa completamente inerte. Sempre que lanço uma questão que ele não quer responder, alguma história paralela flui de sua boca como melodia. Só depois de muito tempo percebi que tudo não passava de enrolação. Provavelmente esse é mais um de seus dons. O grande porém é que não está funcionando mais comigo. Continuo fingindo interesse, mas acho que ele vem percebendo.
Bom, nada disso importará mais depois de hoje. Vou matá-lo e beber cada gota de seu sangue. Sei que posso fazer, e melhor, sei que posso me divertir fazendo. Se o que aqueles bastardos estavam conversando na festa for realmente verdade eu vou absorver seus poderes depois de deixá-lo seco. Ainda não sei ao certo o que vou fazer depois, mas ter essa ajudinha extra não será nada mal. No mais, o idiota me deixou a par de boa parte de seus negócios e já sei como roubá-lo. Só não o fiz ainda para que ele não descubra antes do meu grand finale. A minivan também já está alugada e depois daqui vou buscar todos que ainda são importantes para mim; pensei que seria difícil fazer uma lista, já que pela falta de tempo alguns ficariam de fora, mas parece que minha nova condição facilitou isso também. Vou tranf… Abraça-los em seguida, entretanto só os que assim desejarem, pois conviver entre julgamentos morais será uma ameaça para mim… Para todos. Aos que não entenderem a situação, infelizmente só restará um caminho. Afinal, não posso deixá-los por aí sabendo do que vou lhes contar, e principalmente a mercê de meus novos inimigos. Ainda não sei se será difícil fazê-lo, acho que só descobrirei no momento.
Bom, é isso… já está quase na hora dele chegar e…
– Ora ora, sentado sozinho no escuro, minha criança. Se não o conhecesse tão bem, diria que está tramando algo…
Quê?!…
– Hahahah, mas eu sei muito bem que você seria… Incapaz de me fazer mal.
Presunçoso, filho da puta!
– Enfim, fico contente que esteja aqui. Você vai me acompanhar em um serviço
– Serviço?
Serviço!?
– Que serviço? E a  reunião?
Hoje é o dia da reunião do Círculo… será que eu me enganei? Ninguém nunca falta ao Círculo, seja por medo de ficar por fora de qualquer maquinação, ou ser visto como um traidor maquinando algo. Mas eu não me enganei, não é possiv…
– Não se importe com o que eu não mandei se importar. Quanto ao serviço, apenas um servo tolo com quem devo tratar pessoalmente. Há pessoas tão medíocres nesse mundo que não são capazes nem mesmo de recolherem-se à sua insignificância. Desça. Meus homens estão esperando no carro. Eu vou logo em seguida.
Maldito!!
– Sim, senhor.
Desgraçado! Não vou poder fazer nada do que planejei para hoje..
– Já estou descendo.
Estacionaram na frente do prédio, o cretino está com pressa. Esses dois parecem até agentes do Serviço Secreto esperando pelo presidente nesse SUV preto atrapalhando a porra do trânsito todo. Se não fosse por eles… se fosse só  um, eu daria um jeito… Mas apesar de toda prepotência, Victor é cauteloso o suficiente para não correr tais riscos. Os dois são de clãs diferentes tornando quase nulas as chances de uma conspiração. Victor vigia os dois, os dois vigiam Victor, e cada um vigia o outro. Sim, ele sabe bem jogar esse jogo de víboras. Mesmo eu que mal cheguei nesse mundo tenho noção do quão traiçoeiro ele é. Ele tem séculos de experiência. Quando penso nisso, consigo ver minha própria prepotência. Será um efeito natural dessa condição semi-imortal?
– Vamos!
Não faz sentido me torturar com isso agora, vou apenas observar por enquanto. Tenho no mínimo mais um mês até a próxima oportunidade… Merda! Aparentemente, aconteceu um imprevisto hoje. Algum idiota fez uma cagada tão grande que foi capaz de fazê-lo faltar à reunião do Círculo e ir pessoalmente resolver o assunto. Pensando nisso… o que será que foi? Quase tenho pena desse cara. Os dois cretinos devem saber do que se trata, afinal ele entrou no carro e só disse “vamos!”. Parece que estamos indo na direção do porto, mas ele não disse mais porra nenhuma . Por que será que tenho a sensação que também não vai me dizer se eu perguntar?
– Mergulhado em pensamentos, criança?
Porra! Que susto da desgra…
– Chegamos, vamos andando daqui.
O porto, de fato. Estamos seguindo para aquele galpão, será? O desgraçado vai continuar sem dizer nada até quando?… Mas que merda!
– Preste bastante atenção no que verá hoje, criança. Aprenda com a minha humildade.
Cínico como sempre, mas que sensação é essa? Eu senti como se se ele fosse me matar agora. Estou até ofegando sem motivo nenhum. Espera… que cheiro é esse?
– Não se deixe levar pelo poder, posição social, ou até pela sua rotina. Há assuntos que devem ser tratados pessoalmente.
O galpão está cheirando a carne, sangue… E não é qualquer carne. É humana!
– Eu espero que a partir de hoje você seja mais grato, criança mimada. Imortal ou não, meu tempo é precioso demais para me dedicar inteiramente à você.
Do que ele está falando?! Quem são essas pessoas atrás das cortinas?
– Então, preste bem atenção.
A sensação está piorando, eu mal consigo olhar pra ele… é pior que…
Não…
– Não parecem deliciosos para você?
Não…
– É isso que são. Ferramentas e alimento.  
Não…!
– Desgraçado!! Por que fez isso!?
– Ora, não se faça de tolo, criança. Não mais do que já é. Suas intenções são tão diretas e claras pra mim, quanto as notícias que leio no jornal. Eu sempre soube da possibilidade de traição. Faz parte do porque eu te tirei daquele cassino imundo, e lhe trouxe para o meu mundo. Você tem potencial, uma pedra que precisava ser lapidada para ganhar algum valor .
– Pare!!
– Lapidando. É isso que estou fazendo agora.
Pra quê essa arma… não aponta isso pra ela, filho da puta!
– Não.. não faz isso por favor
– Sua personalidade é boa, e você só precisa de experiência… e claro, saber reconhecer o seu lugar.
Não!! Se eles morrerem agora não poderei abraçá-los. Preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa…
– Por favor.. eu faço qualquer coisa
– Qualquer coisa? Que tal trocar sua imortalidade pela vida mundana deles então?
Quê?
– Uma bala na sua cabeça ou na dela? Você tem três segundos.
– Eu não poss...
– Dois.
– Para!
– Um… Hahaha!! Vai fugir?! Confesso que por essa eu não esperava!!! Vão atrás dele! Andem!
Um tiro! Foi em mim ou nela?! O que eu tô fazendo, largando eles lá assim? Eu não consigo parar de correr, nem olhar pra trás. Que merda de instinto é esse? Eu estou salivando de fome. Agora esse pânico frenético misturado a um nojo profundo de mim mesmo. No que esse desgraçado me transformou? Ou será que eu já era assim?… Ahhhhhhhhhhhhh!!! Preciso parar de pensar nisso, se não vou morrer!
...
Quantas horas?!… 4:19. Que porra de sangue é esse na minha camisa, eu levei um tiro? Não, eu não sinto nada, não é meu. Espera, eu estou no estacionamento, dentro da minivan! Como caralhos eu vim parar aqui?
Eu só me lembro nitidamente até a parte em que eu corria que nem um frouxo. Chega a parecer um sonho agora que eu acordei aqui. Quem eu quero enganar? Sonho o meu ovo! A imagem não sai da minha cabeça… Minha irmã, meu pai e a Carine presos em ganchos de açougue pelas costas, todos nus, o sangue escorrendo dos ferimentos até os dedos dos pés. Uma cena dessas e eu, mesmo que por uma fração de segundo, olhei-os realmente como pedaços de carne.
Que espécie de monstro eu virei? Um bem filho da puta eu diria, a cada minuto que passa eu me sinto menos culpado. Acho que era isso que aquele escroto queria, mas eu saí correndo como uma “criancinha” assustada. “Essa ele não previu”, hein? Pois devia! Filho de uma rapariga, desgraçado!! Não adorava me chamar de “criança”!? A culpa vai diminuir, mas o ódio que eu sinto dele… como eu fui inútil, puta que pariu!
Esquece essa merda um minuto, tenho que lembrar do resto. Minha cabeça tá a mil, como se eu tivesse acabado de… Ah, é isso. O sangue, a euforia, a sensação de poder…  eu me alimentei. Eu devo ter parado de pensar naquele instante e agi como um animal selvagem em perigo… Foco! preciso lembrar de alguma coisa… 
Eu continuei correndo em direção ao carro dele e pulei em cima do vidro da frente, para atrapalhar um pouco que eles me perseguissem . Depois acho que fugi para a área dos contêineres. E de lá? Só lembro de ouvir um  veículo grande e parei… sem pensar em absolutamente nada.. Me parece que essas memórias nem são minhas, mas essa intuição ou sei lá o quê, estava certa. Acho que só havia o motorista dentro do ônibus e somente eu no ponto. Essas memórias parecem cenas de um filme qualquer que eu só vi de relance … Entrei e vi meu reflexo nos vidros, na hora nada veio a minha mente, agora me veio na cabeça que eu parecia tão diferente quanto o Mr. Wheeler é do Mr. Walker. Me lembro de ter ficado na minha, sentado de cabeça baixa. O desgraçado do motorista deve ter me confundido com algum drogado. Veio falar alguma bosta comigo e tentou me puxar. Da sensação eu me lembro bem. Senti fome e vontade de matar. Cravei meus dentes no pescoço dele e sorvi seu sangue, de fato, com a euforia de um abstinente. A partir daí volta a ser tudo um filme desprovido de emoção em que eu pego o casaco do sujeito largado no banco do motorista, troco pelo meu empapado de sangue, desço do ônibus e sigo a pé até aqui.
4:25. Vai amanhecer já, já. Não tem como eu sair daqui. Talvez eu devesse ir pro terraço e ver o sol nascer, acabar com essa minha existência pútrida. Seria o correto a se fazer, mas não acho que tenho coragem. “Quase tenho pena desse cara” hahaha. Que imbecil que eu sou! Eu ainda tenho como me virar sozinho, mesmo com o Victor vivo, se eu tivesse salvado todo mundo não daria. Talvez a merda que eu fiz essa noite bata no ventilador e respingue na cara dele, afinal ele é responsável por mim … haha. Ou talvez alguém me encontre aqui antes que eu possa fugir. Foda-se, não tenho opção. Quem sabe um dia eu não deixo de ser um bosta e me vingo desse filho da puta?!




21/08/2016

Duro de Viver

            
           John Tyler abriu com cuidado uma pequena fresta na porta utilizando o cano da metralhadora. A porta ficava meio escondida no fundo do saguão, onde um enorme balcão ocupava mais da metade de sua visão do lugar. O clima entre os quatro homens fortemente armados estava tenso, enquanto discutiam entre si ao som do lamento de alguns dos reféns.
           — Cala a boca! Cala boca ou eu explodo ela! — berrava um dos assaltantes com uma mulher que chorava muito, forçando o cano da arma contra sua cabeça e aumentando ainda mais o volume do choro.
         — Não seja imbecil, Carl — interveio outro deles — A única coisa que impede aqueles malditos policiais lá fora de entrarem aqui e descarregarem sua munição na gente são esses reféns. O que acha que vai acontecer se atirar em cada um deles que abrir a porra da boca?
          — Que importa esses policiais, Jame? Hein? — o primeiro homem voltou-se furioso para o outro  — Mike, Fred, Pete. Todos mortos por causa de um desgraçado dentro desse prédio. Tem certeza que você ‘tá em condições de se preocupar com quem ‘tá lá fora, seu filho da puta!?
Jonh ouviu aquela discussão apreensivo. As vidas daqueles reféns dependiam de suas ações, e o tiro que levara no ombro não estava ajudando. Como um policial, situações de perigo para civis, e até mesmo para sua própria vida eram rotina. Mas aquilo era diferente...
— Escutem bem vocês três: Eu passei os últimos 8 anos enfurnado em uma maldita cela planejando esse assalto com o Mike, que gastou sua vida toda nessa desgraça de Banco. Ele agora ‘tá morto por causa de um cara qualquer! ‘Tava tudo planejado, todo esse tempo. E por causa de um cara… — o homem chamado Carl disse quase rosnando — Não existe a possibilidade de eu sair daqui sem essas joias…!
...Aqueles policiais não sabiam com o que estavam lidando. Não era um assalto qualquer. Não haveriam negociações. Ele estava sozinho.
Por alguns segundos, John viu-se cedendo à pressão, à dor e ao cansaço. Teria ele tentado deter aqueles homens se soubesse que se tratava apenas de joias? O que era aquilo se comparado à vida de todas aquelas pessoas? Cada vez mais sentia-se responsável pela situação em que se encontravam os reféns. Se não tivesse feito nada desde o começo… aqueles homens já teriam ido embora com os reféns ilesos…?
Não.
Não era hora de pensar naquilo. Pessoas corriam perigo, e ele precisava fazer alguma coisa. John despertou de seu pequeno devaneio junto com a dor latente no ombro. Flagrou-se olhando fixamente para a saída de ventilação que projetava-se no corredor escuro da saída de emergência onde se encontrava.
“É isso. Posso usar a passagem de ar para ter uma visão mais decente do salão e poder pensar num plano…”
Pôs-se rapidamente de pé, vestiu a bandoleira da arma, e apoiando os pés no corrimão da escada, alcançou a grade que fechava a saída de ar. Usando uma moeda que tinha no bolso, lentamente desparafusou a grade.
Ao tirar o terceiro parafuso, no susto pelo forma como a grade deslizou para baixo presa apenas pelo quarto parafuso, deixou escapulir um dos três que segurava. O sangue de John gelou ao ver o parafuso cair direto na escada. Cada degrau de metal em que o parafuso quicava, parecia um sino que badalava em sua cabeça, e provavelmente na de todos que estavam na tensão daquele local.
— Quem ‘tá aí? — John ouviu de dentro do salão, no que pareceu menos de um segundo de silêncio.
Mais rápido que isso foi suareação. Pulou do corrimão e preparava-se para saltar um lance inteiro de escadas quando um outro grito o paralisou.
— Para agora ou eu vou lavar esse carpete com os miolos dela! — alguém berrou detrás da porta.
Um momento um pouco mais longo de silêncio se seguiu dessa vez, até que lentamente John empurrou a porta, entrando vacilante no cômodo com o ombro ferido dificultando manter os braços erguidos. Dessa vez, pôde vislumbrar cada detalhe do local. Agora, porém, todas as atenções estavam voltadas para ele, principalmente a daquele homem que parecia ser Carl. Ele tinha um prazer sádico nos olhos fixos em John, e segurava uma refém com a arma forçada contra a cabeça da vítima. Enquanto isso, outros dois homens vinham em sua direção, provavelmente para desarmá-lo e rendê-lo.
— Prazer em conhecê-lo, defunto! — disse Carl entredentes, mudando a mira da arma da mulher, para John.
Tudo aconteceu muito rápido. Dois homens vinham com as armas descuidadosamente empunhadas em sua direção. Outro apontava a arma para ele, mas soltara a refém. Não ousaria tocar na metralhadora pendurada no pescoço, mas sua pistola estava na parte de trás da cintura.
“É isso” — pensou John — “Preciso agir já.”
Os dois homens se aproximaram, pouco mais de um metro. Mais uma vez John sentiu o sangue gelado correr-lhe a veia. Os homens o alcançaram.
“Agora!”
— Corta!! — uma voz ecoou no ar.
O mundo de John lentamente começou a se dissipar. Sentiu-se atordoado. De repente aquele lugar parecia completamente diferente. De uma cadeira posta ali perto, um homem do qual ele se esquecera gritou:
— Onde está aquele dublê? Ah, aí está você. Ande logo com isso, não temos tempo para perder com essa cena rasa. — e virando-se para John, prosseguiu — Marty, minha estrela!
Ainda meio zonzo, ele observou aquele homem que vinha em sua direção.
— Marty, você você foi ótimo!
— Eu… — tentou formar as palavras, mas logo foi interrompido
— Excelente! Eu sinto nos seus olhos como se fosse fosse John Tyler. Eu sabia que tinha feito a escolha certa assim que te vi atuando. — o homem virou-se rindo consigo mesmo — “Você não pode fazer um filme de ação” eles disseram. Há! Aqueles malditos críticos não perdem por esperar!
O homem foi deixado estático no meio do cenário enquanto todos se preocupavam com um detalhe figurino do dublê, que vestia alguns números de músculo a mais que o ator. Uma frustração o consumiu. Sentiu os olhos arderem marejados. O destemido policial Jonh Tyler não existia mais naquele momento, apenas o reles ator Marty Mayers.

02/12/2014

Estrela Viva

A noite estava fria, e o vento cortante não dava trégua. A chama da fogueira lutava para manter-se viva, e já quase não emitia calor, mas Malik apenas puxou as peles de forma que cobrisse melhor seu corpo. Recusava-se a ir para sua tenda dormir. Não se lembrava de um céu noturno tão bonito como aquele desde quando seu pai, ainda vivo na época, passava horas deitado com ele, olhando para o céu e lhe ensinando os segredos das estrelas. E lá estavam elas. A Lança, com sua ponta formada pelas estrelas mais brilhantes da noite. A Víbora e sua forma macabra. E até mesmo a Insígnia, que de tão rara de se ver, se tornara um sinal de bom agouro. Malik sempre se perguntava o que significaria aqueles formatos. O que haveria no céu? Que tipo coisa misteriosa seriam as estrelas? Não podia voar, então é provável que nunca descobrisse. Seria sempre assim, as estrelas no céu, e ele no chão. Para sempre separados.
Perdido em devaneios, Malik se espantou quando notou que a maior parte das estrelas já havia desaparecido. Um tom azulado começava a tomar o céu, e um brilho intenso já podia ser visto desbotando por cima dos picos das montanhas à leste. Frustrado porém contente por ter tido a oportunidade de contemplar uma noite tão bela mais uma vez, Malik resolveu recolher-se antes que a tribo toda despertasse e ele não pudesse mais descansar. Ao se levantar, num último relance ao céu, Malik viu uma “estrela viva”. Nada poderia ser melhor que aquilo para encerrar sua noite. Fazia muito tempo que não via uma estrela viva. Um sinal de muito bom agouro pare ele. Koan, o chefe da tribo sempre dizia “As estrelas devem sempre ser a nossa fonte de inspiração. Elas andam vagarosas, mas estão sempre em movimento, e sempre juntas. Nunca se separam. E acima disso, a estrela viva é a estrela que se destaca, está sempre mais veloz e à frente das outras, checando o caminho para suas companheiras. Essa é a função dela, assim como sua função de batedor, Malik.” Malik não pôde conter um sorriso, e seguiu seu caminho até a tenda.
Subitamente, um barulho ensurdecedor cortou o céu. Um puro reflexo levou o olhar de Malik mais uma vez para o céu, e ele a viu. Uma espécie de bola brilhante acabara de passar sobre sua cabeça. O barulho se dissipou tão rápido quanto surgiu, visto a velocidade do objeto. Ele viajou imponente e brilhante, coberto de chamas, até desaparecer por trás das montanhas que cercavam parte do vale. Por alguns segundos, naquele pequeno ponto do céu, algo pareceu brilhar mais que o sol. Malik estava pasmo. Com o barulho, várias pessoas acordaram. Uma delas era Koan, que veio em sua direção.
            — Malik, você sabe o que foi esse barulho? O que é aquela fumaça? — Perguntou Koan. Malik estava tão atônito que nem reparara na fumaça negra que subia daquele ponto onde a coisa caíra.
              — Uma estrela viva… Uma estrela viva caiu do céu, senhor — disse Malik ainda espantado. As pessoas que se reuniam à sua volta tiveram um momento de choque, seguido de vários tipos de interjeições. “Uma estrela viva!”, “Que absurdo”, “É um milagre?”, “É melhor sairmos logo daqui”
               — Uma estrela viva!? — indagou Koan. — O que você está dizendo?
             — Era brilhante, e tão rápida… — a expressão de Malik mudou de espanto para excitação — Senhor, eu vou na frente. Verificarei o local enquanto o resto pode vir atrás em segurança…
             — Nós não vamos. Você não vai. Hoje temos que recolher o acampamento e seguir nosso caminho, rapaz. — Koan tinha uma expressão impassível.

04/08/2014

Faculdade de Escrita?

       
     
        Não sei se dá pra notar pelo blog, mas um sonho meu é ter a escrita como profissão. Claro que eu ficarei contente se um dia puder trabalhar em alguma editora/jornal escrevendo artigos de opinião, análises ou algo do tipo. Isso, no entanto, não é o que eu almejo. Embora não seja tão dedicado quanto gostaria/necessito, meu objetivo maior é trabalhar com escrita criativa, mais especificamente com romances ficcionais. Isso, claro, me fez me interessar pelo curso de Letras, e o que eu fiz foi exatamente ingressar em uma faculdade. Uma surpresa que eu tive(e talvez outras pessoas também tenham), no entanto foi o fato de a faculdade de letras onde estudo simplesmente não ter 'nada' relacionado à escrita, afora a escrita diretamente vinculada com o meio acadêmico.
        Eu não sei exatamente o porque disso, mas tenho algumas teorias. Uma delas é o constante romantismo impregnado na nossa sociedade que até hoje nos faz esquecer os valores trabalhados há tanto tempo pelo classicismo, que valorizava a técnica e o aprendizado, e nos faz acreditar que um pintor, um músico, um dançarino, um 'escritor' apenas existem naqueles que já nasceram com esse "sopro divino" que chamam de 'dom'. Outra que me faz refletir a respeito, é o fato de, independente do romantismo qual citei, existirem dezenas de faculdades voltadas para o ensino desses outros tipo de arte. O que não acontece com a escrita criativa, e esse fato poderia ser consequência da fraquíssima cultura de leitura e escrita que temos em nosso país.
        Não tenho conhecimento a respeito desse aspectos com relação as outras formas de arte, mas na escrita, onde tenho mais contato, é claro a falta de interesse de todas as partes envolvidas nesse processo. Não se pode querer ser um escritor, "porque vai passar fome"(talvez aqui isso até seja verdade), "precisa ter um emprego de verdade", e etc. Leitura? O primeiro livro que li na vida foi um Harry Potter aos 16 anos. Sabe aquelas histórias de quando você está no ensino fundamental/médio e os professores te passam clássicos (no momento) chatíssimos de se ler? Não deixa de ser ridículo passar um Dom Casmurro para uma criança de 12 anos ler, mas nem mesmo isso eu tive. Não houve sequer uma indicação de leitura durante toda minha formação básica, é sério. Eu era uma criança muito ligada a desenhos e jogos com história, mas nunca tinha lido um livro, pelo simples fato de não parecer interessante. Me considero ainda uma criança no quesito "carga literária", mas se não tivesse eu mesmo procurado o interesse pela leitura, estaria até hoje sem ter lido sequer um livro, provavelmente.
        E nesse processo de conhecimento da literatura, e de tomar um gosto tão profundo a ponto de querer viver de produzi-la, eu me deparo com um empecilho que é a falta de direcionamento. Não vou dizer que não existem faculdades com esse curso no Brasil, mas com certeza são pouquíssimas. E Existem sim técnicas para se escrever um romance, é uma área enorme. Eu tenho noção, também, que diversos escritores famosíssimos nunca sequer estudaram, e as vezes são considerados até "gênios". Mas isso me faz ter de ser um gênio se quiser ser escritor? Será que as faculdades de escrita criativa que existem nos EUA desde a década de 40 estão fazendo algo de errado/desnecessário? Ou nós é que não sabemos/queremos incentivar o hábito, não só de leitura, mas literário, em nosso país? Por aqui, você pode até encontrar bastantes oficinas de escrita, oferecidas por gente especialista no assunto, mas além de caras, dificilmente será profunda o suficiente para realmente te ensinar a prática.
        Isso aqui foi no máximo um desabafo, e na melhor das hipóteses vai apenas fazer alguém refletir a respeito. Mas quem sabe isso um dia não dê frutos?

      Se você estiver interessado em saber mais sobre o ensino de escrita criativa, tem o site da PUCRS (que tem o curso), e você pode ver clicando aqui

        E pra quem se vê na mesma situação que eu, há algumas alternativas, como por exemplo pessoas com boa vontade, como a do Newton Rocha, professor e escritor aqui de BH que tem noção dessa falha na nossa cultura, e se dispõe a aprender e passar pra frente seus conhecimentos de escrita criativa.Vou deixar aqui o vídeo onde ele dá introdução à suas vídeo aulas com base no livro "Writing Fiction for Dummies". O resto dos vídeos você encontra no canal.