— ‘Cê nunca fez isso, né Laru?.. Mas acho que sua coleção tá completa já, faz meses que não some nenhuma.
— Quê isso?.. haha. Calúnias apenas!
— Vê se não vai ficar dando bandeira lá fora — disse apontando a porta com os olhos para que o segurança abrisse.
A taverna, que ficava no alto de uma serra, se chamava “Boca do Inferno”. Havia uma construção na superfície evidentemente, mas o salão funcionava no subterrâneo para abafar os sons madrugada adentro. Do lado de fora estava ligeiramente frio, uma noite de inverno tropical com ventos gelados. Eu fui até o habitual poste de lamparina a uns bons duzentos passos da entrada virando a esquina, enquanto puxava uma cigarrilha do bolso do casaco. As poucas ruas eram pavimentadas com seixos, ladeadas pela mata e suas trilhas escuras com algumas outras construções aqui e ali.
— C’mon dixie light my fire — entoei a melodia e estalei os dedos da mão esquerda pairando o polegar apontado para cima, de onde surgiu a chama que acendeu a palha do cigarro.
Me escorei no poste e deixei-me perder em pensamentos, enquanto apreciava minha cerveja e minha erva na quietude da noite fria. Fiquei tão absorto e alheio, que mal me dei conta do mancebo que se achegava.
— Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
— Opa! Tu tava tocando aqui hoje, né?.. — respondi puxando assunto e mais um cigarro do bolso que fui entregando a ele.
— Sim, gostou da melodia? — ele perguntou já se esticando, tentando alcançar a chama do poste para acendê-lo.
— Uhmm... Aprazível. Pena que sem um mecenas mal dá pra pagar o pão e o vinho nesses dias que correm.
— Você é também é músico?.. Deve estar de jejum então.. haha. — disse erguendo o cigarro para mim, quase que como um brinde de agradecimento.
— Faço outros bicos, mas sim, sou trovador. A gente se vira como pode…
— Alguma canção que eu possa já ter ouvido?
Dei um longo trago e cheguei a cogitar rapidamente se deveria dizer algo. Não sei se estava carente de atenção, se queria me gabar ou se já tava alto demais pra segurar a língua.
— Pirita…
— Poxa! Tá me dizendo que você é Laru, o Bardo?.. haha
— Pois é…
— E ninguém aqui sabe disso?! Vamos voltar lá, contar pra todo mundo e quem sabe você não me dá a honra de tocar Pirita ao lado do próprio “Profeta do Apocalipse”.
— Vocês só vão entender o que eu falei mesmo, no esperado dia do eclipse… — Creio que ele nunca entendeu, mas isso deu um bom verso.
Eu já estava acostumado a ser carimbado de mentiroso, mas me chamar por essa alcunha ridícula de “Profeta do Apocalipse” foi demais, especialmente naquele tom de sarcasmo. É fato que nos tempos que correm a hipocrisia é tanta que já nem se sabe de que lado estão certos vagabundos, artistas e maroleiros. Mas o desgraçado era as três coisas.
— Não cara, é sério! Eu tenho uns conchavos aí. A gente fala com o Tim e…
— Perdoe minha pressa, mas tenho que ir andando — cortei a palhaçada, já atirando o cigarro no chão pra partir — Nós dois parados aqui fumando também já está meio arriscado. Já tá bandeira demais. Entregue essa caneca ao Tim, faz favor, e vê se não fica marcando mais bobeira aqui fora. Eu vou indo…
Saí rápida e silenciosamente me embrenhando nas trilhas, mas antes que pudesse me distanciar muito, ouvi o barulho dos cascos se aproximando. Parei para observar. Era um heráldico e seu provável capacho, estavam indo na direção do Boca. Fui até a borda novamente e subi num telhado me esgueirando furtivamente no encalço deles. Não foi surpresa ver que o animal ainda estava parado fumando no mesmo lugar enquanto os dois se aproximavam. Só houve tempo de jogar a bituca para longe, tentar correr dos cavalos era inútil.
— O quê que o elemento está fazendo sentado aqui sozinho a essa hora? — disse o “Nobre Cavaleiro”.
— Era você quem estava fumando essa porcaria? — completou o capacho, com a voz um tanto embriagada, apontando para a bituca que eu havia jogado ali. É, pois é… Fazer o que?
O Boca estava em completo silêncio agora. As parede grossas no subterrâneo e a vigilancia de Tim faziam bem seu trabalho. A atenção dos dois estava totalmente voltada para o mancebo, a marola de erva e minha guimba no chão.
— Não, eu estava seguindo um sujeito que estava rondando minha residência — tentou ele — Dizem que abriram uma taverna ilegal na região, tenho visto muito desses vag…
— Cala essa boca e deita no chão com as mão na cabeça! — disse o sinhozinho, já descendo do cavalo
O mancebo obedeceu a segunda ordem e começou a se esticar no chão, porém ignorou a primeira e voltou a matraquear canalhices tentando se defender e barganhar.
— Eu estou dizendo a verdade m’lords. Há pouco eu ouvia músicas profanatórias vindo daquele prédio. Me disseram que o tal “Profeta do Apocalipse” vem frequentando esse lugar, vocês precisam acreditar em m…
— Você ouviu eu te mandar calar essa boca?! — grunhiu, enquanto metia-lhe um chute nas costelas.
— Esse bostinha é só mais um vagabundo chapado, vamos dar um fim nele logo e voltar — disse o escudeiro armando a besta que carregava consigo.
Ao ouvir tão displicente ameaça o boca-aberta, obviamente, tentou se levantar de uma vez e fugir. Mas antes que desse o primeiro passo ou mesmo que o bêbado houvesse mirado seu alvo, o cavaleiro lhe acertou um golpe de espada de cima para baixo destroçando seu ombro direito. O sangue esguichou numa explosão, de onde eu estava pude ouvir o despedaçar dos ossos da clavícula. Ele só teve tempo para um curto grunhido de dor. Antes que tocasse o solo, o capacho fizera seu trabalho e atingiu-o também com um virote nas costas, retirando o fôlego que ainda restava em seus pulmões. Ele girou no ar e caiu, ainda vivo, agonizante e agora de barriga pra cima.
— Será possível que você não pode passar um dia sem fazer uma merda pra me irritar? Agora eu estou todo sujo de sangue!
— Quê que eu fiz ué!?
— Imbecil! Desce logo daí e apanhe o cérebro! Você poderia tê-lo acertado na cabeça, completaria a merda!
O capacho obedeceu a ordem, desceu do cavalo e pegou seu equipamento que estava preso à sela. Uma valise de couro com algumas serras, já sujas de sangue e um vaso de cerâmica do tamanho de uma cabeça cheio com o que parecia ser algum líquido e tampado com uma imensa rolha de cortiça. Não estava muito díficil de entender o que estava prestes a acontecer, todavia estava um pouco difícil de acreditar. Decidi perscrutar por mais alguns momentos, a despeito do “meu camarada” que ainda sangrava no chão, com os olhos arregalados e respirava com um chiado agudo de chaleira no fogo, mas incapaz de se mover ou preferir palavra.
— Este já é o quinto, acho que temos o suficiente para o festim — disse o pau mandado preparando-se para serrar um crânio com a tranquilidade de quem serra um toco.
O pobre diabo se desesperou de vez, arregalou ainda mais os olhos e começou a gemer e se debater fervorosamente em súplica. Mas a serra penetrou seu crânio, indiferente. Levou alguns muitos segundos para que ele desmaiasse e alguns poucos minutos para que o corte estivesse terminado e ele finalmente morto. Eu aguardei um pouco mais…
— Deux vult! — pregou o heráldico erguendo a espada de cabeça para baixo, segurando-a pela base da lâmina, e tocando um estranho tomo ao coração.
— Deux vult! - repetiu seu capacho.
Ele embainhou novamente sua espada, guardou o livro em suas vestes e apanhou o pote de cerâmica retirando a sua rolha, que pelo cheiro, continha algum tipo de aguardente misturada com vinagre. Seu capataz se ergueu com o cérebro nas mãos e preparava para depositá-lo no pote. Peguei minhas castanholas no bolso do casaco e saltei próximo a eles.
— Quero vê-los sorrir! — Os dois se sobressaltaram e me olharam perplexos.
— Quero vê-los cantar! — Apenas o susto já paralisou-os por alguns momentos, já era tarde demais pra reagir — Quero ver os teus corpos dançar sem parar!
Ambos começaram a dançar uma espécie de flamenco torto. Um com o cérebro ensanguentado nas mãos e o outro com o vaso de aguardente aberto entornando algumas doses a cada passo mal diagramado. Levaram tempo para entender o que estava acontecendo. Como sua última vítima estavam completamente conscientes, porém o encantamento só lhes permitia e obrigava a dançar incessantemente.
Tomei-lhes o livro para averiguar: “Angustias Hortis", estava escrito em ouro na capa de couro marrom. Era a mesma língua da oração que entoaram, a língua antiga do “Deus único” que sempre fora tão despótico quanto fossem seus representantes da época. Certamente esse era um novo apêndice bizarro a seu culto, eu já vira outros antes. Uma canalhice lupina para pastorear ovelhas apalermadas. Já vinham percebendo os mais aguçados que esse tipo de sandices eram as novas diretrizes do Império contra a sanidade do povo. De fato um texto que induzia a metaforizar verdades, a ratificar mitos e ao duplipensamento. Um perigo nas mãos de idiotas, como pude constatar mais tarde.
Gostaria de tê-los visto morrer de exaustão, como a Dança Irresistível de Magal é capaz de fazer, mas não havia tempo hábil. Guardei o livro comigo, saquei minha adaga, cortei-lhes os pulsos e acenei-lhes com o chapéu em despedida. Creio que ainda puderam desfrutar dessa última dança por mais um quarto de hora antes de finalmente se encontrarem com o “Deus único” que tanto amavam.
Esse conto é inspirado na letra de Metrô Linha 743 e na própria figura de Raul Seixas. Uma singela homenagem a suas músicas que sempre refletiram na minha percepção de mundo.