A noite estava fria, e o vento cortante não dava trégua. A chama da fogueira lutava para manter-se viva, e já quase não emitia calor, mas Malik apenas puxou as peles de forma que cobrisse melhor seu corpo. Recusava-se a ir para sua tenda dormir. Não se lembrava de um céu noturno tão bonito como aquele desde quando seu pai, ainda vivo na época, passava horas deitado com ele, olhando para o céu e lhe ensinando os segredos das estrelas. E lá estavam elas. A Lança, com sua ponta formada pelas estrelas mais brilhantes da noite. A Víbora e sua forma macabra. E até mesmo a Insígnia, que de tão rara de se ver, se tornara um sinal de bom agouro. Malik sempre se perguntava o que significaria aqueles formatos. O que haveria no céu? Que tipo coisa misteriosa seriam as estrelas? Não podia voar, então é provável que nunca descobrisse. Seria sempre assim, as estrelas no céu, e ele no chão. Para sempre separados.
Perdido em devaneios, Malik se espantou quando notou que a maior parte das estrelas já havia desaparecido. Um tom azulado começava a tomar o céu, e um brilho intenso já podia ser visto desbotando por cima dos picos das montanhas à leste. Frustrado porém contente por ter tido a oportunidade de contemplar uma noite tão bela mais uma vez, Malik resolveu recolher-se antes que a tribo toda despertasse e ele não pudesse mais descansar. Ao se levantar, num último relance ao céu, Malik viu uma “estrela viva”. Nada poderia ser melhor que aquilo para encerrar sua noite. Fazia muito tempo que não via uma estrela viva. Um sinal de muito bom agouro pare ele. Koan, o chefe da tribo sempre dizia “As estrelas devem sempre ser a nossa fonte de inspiração. Elas andam vagarosas, mas estão sempre em movimento, e sempre juntas. Nunca se separam. E acima disso, a estrela viva é a estrela que se destaca, está sempre mais veloz e à frente das outras, checando o caminho para suas companheiras. Essa é a função dela, assim como sua função de batedor, Malik.” Malik não pôde conter um sorriso, e seguiu seu caminho até a tenda.
Subitamente, um barulho ensurdecedor cortou o céu. Um puro reflexo levou o olhar de Malik mais uma vez para o céu, e ele a viu. Uma espécie de bola brilhante acabara de passar sobre sua cabeça. O barulho se dissipou tão rápido quanto surgiu, visto a velocidade do objeto. Ele viajou imponente e brilhante, coberto de chamas, até desaparecer por trás das montanhas que cercavam parte do vale. Por alguns segundos, naquele pequeno ponto do céu, algo pareceu brilhar mais que o sol. Malik estava pasmo. Com o barulho, várias pessoas acordaram. Uma delas era Koan, que veio em sua direção.
— Malik, você sabe o que foi esse barulho? O que é aquela fumaça? — Perguntou Koan. Malik estava tão atônito que nem reparara na fumaça negra que subia daquele ponto onde a coisa caíra.
— Uma estrela viva… Uma estrela viva caiu do céu, senhor — disse Malik ainda espantado. As pessoas que se reuniam à sua volta tiveram um momento de choque, seguido de vários tipos de interjeições. “Uma estrela viva!”, “Que absurdo”, “É um milagre?”, “É melhor sairmos logo daqui”
— Uma estrela viva!? — indagou Koan. — O que você está dizendo?
— Era brilhante, e tão rápida… — a expressão de Malik mudou de espanto para excitação — Senhor, eu vou na frente. Verificarei o local enquanto o resto pode vir atrás em segurança…
— Nós não vamos. Você não vai. Hoje temos que recolher o acampamento e seguir nosso caminho, rapaz. — Koan tinha uma expressão impassível.
— Nós não vamos. Você não vai. Hoje temos que recolher o acampamento e seguir nosso caminho, rapaz. — Koan tinha uma expressão impassível.
— Não cabe a você decidir o rumo do grupo, jovem Malik. Mesmo que isso seja realmente uma estrela viva. — Disse Koan, e virou-se para os outros — Não sejamos irresponsáveis. Não podemos nos prender a fantasias. Não podemos simplesmente abandonar nosso caminho para investigar um local tão perigoso, para encontrar sabe-se lá o quê. Precisamos pensar em nossas reservas, antes que o inverno caia sobre nós. — e virou-se novamente para Malik colocando a mão em seu ombro. — Você é o nosso batedor. Precisamos de você. Eu conheço seus sonhos. Eu criei você desde que seu pai se foi. Mas seu próprio pai não colocaria a segurança da tribo acima de seus caprichos, colocaria? Descance, Malik, e parta enquanto terminamos com o acampamento. — e se retirou, deixando Malik sem argumentos.
Malik entrou em sua tenda, ainda não acreditando naquilo tudo. Como Koan podia estar tão preso àquele modo de vida a ponto de ignorar o que poderia ser o maior acontecimento de suas vidas? Aquilo não podia terminar assim. E Malik não deixaria que terminasse. Não questionaria mais os motivos do Chefe, mas não ignoraria os próprios instintos. “Não vou demorar mais de dois dias. E além disso, já passamos outros invernos nesses campos. Mesmo que aconteça alguma coisa eles vão ficar bem sem mim. Quando descobrir o que caiu nas montanhas e trazer as notícias eles irão entender.”
Poucas horas depois, Malik estava pronto para partir à frente do grupo, que ainda estava com acampamento montado. No entanto, aproveitou a mata alta que cercava a clareira onde se encontravam para desviar o caminho e ir em direção às montanhas. Malik não podia entender o descaso do líder com aquilo. Algo tão extraordinário, talvez uma oportunidade não só sua, mas de todos de descobrir os mistérios que escondiam os céus e as estrelas. Caminhou depressa pela mata até chegar na campina, tomando cuidado parar que não fosse visto. As montanhas não estavam tão longe, e ele ainda podia ver a fumaça que subia lentamente até se dissipar no céu da manhã. O deslumbre daquela parte da montanha e o mistério que o aguardava fizeram com que Malik esquecesse suas preocupações.
• • •
O sol já havia dado meia volta sobre a cabeça de Malik Quando alcançou a base da montanha. Precisava escalar e adentrar alguns metros até que chegasse ao local da queda.
Aproximando-se do local, Malik pode ter o vislumbre de algo que jamais poderia ter imaginado. Embora parcialmente despedaçado, o objeto era enorme e lembrava a Malik uma gigantesca ave de pedra. Pedra, porque era o mais próximo do que Malik podia descrever aquele material cinza estranho. Aproximou-se mais, numa mistura de cautela e imprudência ao mesmo tempo. Chegou próximo o suficiente tocou o objeto misterioso. Era muito liso, e frio ao toque, apesar das marcas de incêndio. Em sua cabeça, Malik estava viajando longe dali. Num lugar muito distante, de onde aquele misterioso objeto viera. Tantas possibilidades, tantas teorias. Mal podia esperar para descobrir o que era aquilo, contar à tribo, mostrar a eles a importância daquela descoberta. Não tinha certeza se aquilo era uma estrela viva, mas o que quer que fosse certamente merecia sua atenção. Sentia-se contente por ter ido até ali. Deu alguns passos para trás, admirando de longe a descoberta. Notou que havia uma parte interior, com coisas ainda mais estranhas. Tornou-se a aproximar do objeto, a fim de investigar. Foi quando uma forte pancada o jogou no chão, e tirou-lhe a consciência.
• • •
Malik abriu os olhos. Sua visão estava turva, mas lentamente recuperava a nitidez. Percebeu que estava sentado no chão, e tentou levantar a cabeça, mas uma dor alucinante na nuca o atingiu como um choque. Recuperando-se lentamente, Malik pôde ver que a claridade do local não mais vinha do sol, mas de uma fogueira posta próximo à ave de pedra, onde ele próprio estava encostado. Supos que já fosse noite. Tentou mexer os braços, mas se deu conta que eles estavam amarrados a suas costas.
Foi quando se esforçou para se libertar que viu uma forma se mexer a sua frente. Tinha uma forma parecida à sua própria, e a de seus semelhantes da tribo, mas usava vestes muito estranhas que cobriam todo o seu corpo e toda ela de um cinza profundo, bastante parecido com a ave de pedra. Neste momento, o estranho notou que Malik estava consciente. Deixou de lado algo que parecia estar comendo,tirou um objeto escuro da cintura, e aproximou-se a passos lentos enquanto ajeitava o objeto na mão. Falava enquanto se aproximava, e embora pensasse não conhecer aquelas palavras, Malik compreendia um claro tom de ameaça em cada uma delas. Não conseguia ver a fisionomia do outro, tanto porque sua visão ainda estava ruim, quanto porque a dor o impedia de erguer o pescoço por muito tempo. Tentou se explicar, dizer que não pretendia roubar nada, que apenas foi ali investigar o que acontecera, mas tudo que saiu de sua boca foram balbucios.
O falatório parou, e no instante seguinte a base do objeto batia com violência em sua cabeça, jogando-o no chão, mas dessa vez sem desacordá-lo. Sentiu o mundo apagar e voltar aos poucos, girando. Sangue escorria-lhe pelo rosto. O outro agora berrava, mas Malik se limitou a fazer um leve esforço nas mãos amarradas, como que para se certificar que realmente estava sem saída. Mesmo que falasse, duvidava que seria entendido. Lembrou do Chefe. Não havia como ele saber que aquilo iria acontecer, mas era um homem sábio. Sabia coisas que ninguém mais sabia. Seria melhor então ter seguido seus conselhos? Mas tudo que fizera foi seguir o céu. O mesmo céu que o guiava todas as noites em busca de abrigo e comida para a tribo, e nunca falhava. Morrer ali era provavelmente o seu destino.
Pela terceira vez naquela dia, aquele objeto tocou sua cabeça, mas pela primeira vez, com delicadeza. A ponta de um cano que projetava-se da base do objeto foi encostada em sua testa. Malik pôde sentir o quanto aquilo era frio. Como a ave de pedra. Como tudo que encontrara desde que chegara ali. O estranho estava calado enquanto apontava o objeto, e Malik sentiu o ar macabro daquela situação. Juntou toda sua coragem, fechou os olhos, e se preparou para o que pudesse vir.
Um assobio alto chamou sua atenção. Ao abrir os olhos, viu que o mesmo aconteceu com o outro, que virara-se de costas pra ele. Ouviu um súbito barulho de engasto. O corpo a sua frente tremeu. Um jorro de sangue lavou o chão de pedra, enquanto o estranho caia aos pés de Koan, banhado de sangue, com sua pequena faca de pedra nas mãos.
• • •
Mesmo desamarrado, Malik continuou no chão, olhando para o mar de sangue que se formara sob o corpo que jazia ali sem vida. Virou-se para o Chefe e se abaixou com a testa tocando o chão.
— Me predoe, senhor. Eu devia te-lo ouvido. Pus não só minha vida, mas a de todos em perigo. Eu não devia…
— Já chega, Malik. — disse Koan — Todos estão bem. Estamos no mesmo acampamento. Temos reservas de água e comida. Você tem feito um bom trabalho. — Virou-se para o objeto que caíra do céu — Eu nunca imaginei realmente que viveria para ter que ver um desses. A verdade, Malik, é que eu também não fui verdadeiro com você.
Malik ergueu a cabeça, confuso. Os olhos lacrimosos
— O que quer dizer? Você sabe o que é isso?
—Há certas lendas sombrias entre nosso povo. — explicou Koan — Tão sombrias que costumam ser divididas apenas entre duas pessoas de gerações diferentes, apenas para não se perderem para sempre. Pra se ter felicidade, meu jovem, é preciso que algumas coisas sejam ignoradas. Porém nunca esquecidas. É por isso que apenas eu conheço essas histórias que irei lhe contar, e que um dia você contará para alguém de sua confiança.
— Nosso povo nem sempre viveu isolado. Dizem as histórias que já fomos milhões. Pode imaginar isso? Essa coisa que você viu cair do céu chama-se “avião”, e foi uma das armas usadas no que foi conhecido como a Terceira Grande Guerra, que foi um dos motivos da separação das pessoas.
Malik estava perplexo. Nada daquilo fazia sentido pra ele. Por outro lado, sentiu seus membros formigarem, e uma ansiedade crescia dentro de sí, uma vontade incontrolável de saber mais sobre aquela história.
Koan viu a expressão de Malik e deu um sorriso infeliz.
— Venha, vamos voltar. Teremos muito tempo para conversar no caminho de volta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário