– Preciso
viajar para fazer pesquisas novamente – disse ele à sua esposa tomando um gole
de café para parecer despreocupado – Partirei hoje à tarde. Seu casamento já
estava por um fio. Não bastasse o trabalho árduo no laboratório, ele fazia
aquelas curtas viagens para o interior todo mês. Não havia mais diálogo; Aquele
namorado misterioso que ela conheceu, agora era só um marido cheio de segredos
escondidos de sua esposa. Da parte dele, contar a verdade era tudo que mais
queria. Ainda a amava como sempre amou. Mas as pesquisas ainda não apontavam
nenhum rumo. Curar-se seria possível? Entretanto, era inútil pensar nisso
agora. 24 de Dezembro de 1996, a noite do dia de amanhã, seria o momento mais
terrível daquele mês.
– Tudo bem
– respondeu ela. Um “tudo bem” feminino
preocupante, ele pensou. – Você volta para o natal? – E então, com sua cabeça
já latejando de preocupação, repentinamente ele lembrou-se do natal de 1977,
quando todo noticiário local falava da noite em que dois monstros atacaram sua
pacata cidade natal. Naquele tempo todos falavam da notícia de que ao chegar o
xerife da cidade vizinha para atender aos chamados, já ao alvorecer, o que
encontrou foi uma carnificina. E o único sobrevivente, o garoto Denzel Botan de
oito anos, fora encontrado na sacristia nu e cheio de arranhões profundos no
corpo.
– Denzel!
Você está me ouvindo!? – subitamente Denzel despertou de seus devaneios. – Você
vem para o natal ou não?
- Ah,
desculpe, não vai dar. Eu ligo pra você. – e levantando-se foi para o quarto
fazer as malas. As recentes lembranças o fizeram ter mais pressa que o normal.
Trauma
Quase
batera na traseira de um caminhão de carga no caminho para o campo. Denzel não
tinha espaço para mais lembranças ruins na cabeça, e apesar de toda a
indesejada experiência, ainda suava de medo do que estava por vir. Se ao menos
tivesse um horizonte a seguir, sua vida teria mais sentido do que simplesmente
pesquisas sem fundamento e noites lutando contra uma corrente.
Dessa vez Denzel deu um pulo que bateu a cabeça no
teto do carro. Um motorista buzinava o carro furiosamente logo atrás e ele
notou que estava parado na estrada. Logo ele já estava de volta ao seu caminho.
Passar por
aquilo desde os oito anos tornou Denzel uma pessoa naturalmente cansada e fria.
Por mais que os intervalos entre as desgraçadas transmutações fossem de todo
longos, nada o fazia tirar aqueles terríveis momentos da cabeça. Momentos em
que ele ainda era Denzel Botan, mas não mais um humano meramente rabugento, mas
uma fera. E não é como se ele perdesse o controle. Isso era o mais perturbador
para Denzel, ele estava consciente. Consciente e sedento. Tudo que queria era
sentir o cheiro ferroso do sangue quente em suas narinas aguçadas. Sentir a
textura da carne humana saboreada em sua boca, e o mais doentio de tudo isso,
ouvir o desespero de suas vítimas na forma de grunhidos horríveis. Sua vida
normal era atormentada por essas lembranças, tanto quanto sua forma bestial era
atormentada pela frustração de não poder cumprir seu destino, realizar seus
instintos mais profundos. Assim, o mundo já não era agradável para Denzel e
cura alguma poderia apagar esse trauma forjado por tanto tempo no seu frágil
consciente humano.
Imprevisto
1
– Já são 15:00, preciso me apressar –
disse Denzel para si, após a tortuosa viagem de pouco mais de um dia de carro
chegando em seu destino; A velha casa isolada. Mas ele também sabia que a
tortura mal havia começado. Rapidamente se dirigiu para os seus aposentos, o
velho celeiro, onde começou os preparativos.
–
Não é aqui! Por que sempre tem que achar que está tão certo!? – Denzel ouviu
vozes distantes.
– É aí que você peca caro
amigo. Eu imprimi o mapa e, pasme, eu estou sempre certo. Veja só! – Por alguns
segundos, Denzel sentiu como se tivesse uma vida comum, como se pessoas
conversando perto de sua residência, a meras 4 horas para a lua cheia cobrir o
céu fosse, como deveria ser, uma coisa normal. Subitamente ele despertou, e
saiu de furioso ímpeto do celeiro para dar de cara com 2 rapazes muito bem
equipados com materiais de acampamento.
– O que estão fazendo aqui!? –
Perguntou Denzel veemente.
– Oh, olá senhor – respondeu
um dos rapazes – Desculpe o incômodo, eu e meu amigo estamos investigando
lendas urbanas e soubemos que uma fera vive por aqui, sabe de alg...
– Aqui é propriedade
particular, saiam imediatamente! – Interrompeu Denzel cada vez mais descontente
com a surpresa.
– Ah, desculpe mesmo termos
aparecido assim de repente mas é que...
– Saiam agora! – praguejou
Denzel.
Num misto de espanto e desprezo os garotos deram
meia-volta e se foram. Denzel os observou até sumirem de vista. Sabia que não
adiantava se sentir mal pelo que fez, não podia correr riscos.
Imprevisto
11
Denzel já estava com as
rústicas correntes prendendo seus pés e pulsos. Ele suava frio e tremia,
sabendo o que esperava e sabendo que não havia para onde fugir. O sol já se
punha no oeste, de frente para ele, a medida que escurecia, como um relógio
apocalíptico.
E assim, a noite finalmente
chegou. O mundo silenciou-se no momento em que Denzel sentiu uma batida forte
no coração. Uma fisgada dolorosa em cada molécula de sua composição o fez se
comprimir de dor. Uma segunda batida forte, e então ele explodiu em um grito,
agora de uma dor constante, a mutação começara. Toda sua estrutura corpórea se
transformava, física ou não. Seus pelos cresciam, tanto quanto nasciam outros
nas partes peladas. Suas pernas e braços começavam a mudar de uma forma bípede
para sua nova forma semi-quadrúpede. Dedos e unhas se tornavam patas e garras.
Seu rosto alongava-se para dar espaço à toda nova arcada dentária destrutiva;
Seu nariz e orelhas, substituído por armas de rastreamento ávidas por começar a
trabalhar; Seus olhos agora eram devidamente capazes de enxergar na
escuridão da noite do campo isolado, e o mais assombroso; Sua mente, agora era
a de um assassino.
Denzel sentiu seu corpo quente
e latejando, como que aliviado pela dor que passara. Tentou levantar-se mas foi
impedido pelas correntes. Passou algumas horas lutando contra as correntes, mas
como já estava acostumado com essa situação, ele se deu por satisfeito apenas
por ficar praguejando-se. No entanto, essa noite não terminaria aqui. Pouco
tempo depois Denzel teve uma nova surpresa. Cheiro de Carne humana. Fazia muito
tempo desde que sentira esse cheiro, além da distância de qualquer povoado, a
casa fica próxima de várias plantações, o que atrapalhava seu olfato. Mas ali
estava; Um delicioso cheiro no meio de todas aquelas malditas plantas. Aos
poucos, Denzel conseguia ouvir o barulho de um carro, um carro grande. Um jeep
talvez. E então... Uma torrente de emoções tomou Denzel; Alegria, excitação,
raiva, frustração, e ansiedade.
– Vamos ensinar praquele velho
maldito um pouco de educação – ele ouviu de longe – Vai se borrar todo o
desgraçado. E no instante em que o automóvel estacionou no quintal de sua
residência, Denzel pôde ouvir duas pessoas desembarcarem, e andarem
sorrateiramente pelos arredores. Tentou inutilmente se livrar das correntes
enquanto ouvia toda a armação do lado de fora.
Um barulho ensurdecedor cortou
o céu. Ele pôde então identificar o cheiro de pólvora queimada, e ainda supor o
plano de estourar fogos de artifício ao redor da casa. O barulho foi seguido de
muitos outros, uma dor constante em seu ouvido o tomou, e ele urrou de raiva.
– Você ouviu isso? – Perguntou
um dos garotos parando de rir da cena.
– O quê? Eu não consigo te
ouvir! – Respondeu o outro ainda entre risos.
Outro grito furioso e os dois garotos instintivamente
olharam juntos para o celeiro.
– O que foi isso!?
– Eu não te disse?
– Vamos lá olhar.
– Ta maluco? Se minhas
suspeitas estiverem certas, o que eu mais quero é sair daqui!
– Cara, preciso te lembrar de
qual foi o motivo que nos trouxe para esse fim de mundo? Vem.
Desde então, o celeiro estava em silêncio. Os dois
rapazes se aproximaram com cautela, o da frente se aproximou mais, e já puxava
a porta quando notou a corrente que a trancava.
- Mas que droga de corrente,
vou no carro pegar a...
E foi interrompido por um vulto negro que destroçou a
porta e pulou em cima de si, derrubando-o no chão.
Denzel ainda tinha pedaços de
corrente em seus dentes, mas sua raiva era tanta que mal conseguia desgrudá-los
com sua mandíbula travada em um rosnado feroz. O garoto desesperado tentou se
livrar, arrastando-se para trás, mas então Denzel mordeu seu braço com tanto
gosto, que partiu os ossos, e bastou um arranque para toda a carne se
desprender do resto do corpo. O garotou berrou de dor, e o outro, em pânico,
saiu correndo para o carro. Vendo aquilo, Denzel não pode se contentar somente
com uma vítima, em um instante moveu-se até o carro e antes que o garoto
conseguisse dar partida, atravessou o vidro com suas garras e agarrou o pescoço
da presa. O Arrancou para fora do carro e jogou-o contra o corpo do outro. E
então os gritos não cessaram até que toda a vida já tivesse escapado de seus
corpos, que ao final de tudo demonstravam em forma material, toda a raiva
contida em Denzel por anos.
Ansioso pela noite que o
esperava, Denzel saiu em disparada pela estrada, e em poucas horas encontrou um
pequeno vilarejo. Se lembrou da primeira vez quando o carro quebrou na estrada,
e antes que pudesse alcançar sua casa, a lua cheia veio lhe atormentar. Nesse
dia, esse foi o primeiro vilarejo que encontrou mas como estava isolado quando
a transformação ocorreu, demorou a encontrar qualquer sinal de vida. Assim,
quando encontrou o vilarejo já passava de 5:30 e tudo por azar, chegou atacando
um experiente caçador que quase o matou, mas terminou com um braço arrancado, e
antes que pudesse terminar o serviço o sol começou a raiar e ele teve que fugir
para manter sua existência, afinal, o Denzel fraco estava por vir. Esse
fracasso em seu primeiro momento de glória por aquelas bandas sempre o atormentou
também, e agora era o momento de terminar o que um dia havia começado. Ao se
aproximar, ele percebeu que embora já fosse tarde, todos permaneciam acordados
e festejando em volta de uma fogueira e um presépio. "Claro -
pensou ele - noite de Natal" nada de especial, pessoas acordadas
não fariam diferença.
Aproximou-se sorrateiro.
Quanto maior a surpresa maior o horror, logo, maior sua satisfação. Pronto para
atacar, Denzel saltou do arbusto mais próximo dos cidadãos, que por alguns
segundos ficaram paralisados sem reação. Efeito cortado imediatamente quando
Denzel atacou a mulher mais próxima, mordendo-lhe o pescoço e fazendo chover
sangue em todos. Os gritos tomaram conta do som ambiente, para a satisfação de
Denzel. Ele então começou a caçar pessoas que não tinha muito para onde correr.
Algumas fugiam para dentro de suas casas. Nada esperto da parte delas, mas por
sorte ( ou não ) Denzel resolveu caçar quem fugia pelas plantações primeiro,
Afinal, o restante estaria apenas aguardando encaixotados no vilarejo, como
porcos esperando pelo abate inevitável. Finalmente alí estava ele, pondo
em prática todo seu armamento de caça, todo seu instinto, e toda sua vontade. O
estúpido instinto das pessoas de ficarem juntas e de se entregarem a clemência
visto a morte iminente só facilitou o trabalho, e em poucos minutos Denzel já
estava regressando às casas. Nada demais, 7 casas no total, alguns sobrados, e
nem todas habitadas. No primeiro ataque, ele encontrou uma mulher junta de duas
crianças a rezarem e ignorando sua presença, o que o irritou, como não achou
que pudesse acontecer um dia. Matou-os rapidamente, evitando aquela cena
deplorável. Glorioso, ele avançou para a próxima residência e ao derrubar a
porta, deparou-se com uma garota sozinha, de mais ou menos uns treze anos.
Segurava uma bela adaga de prata cravejada de safiras, tão azuis quanto seus
olhos. Olhos que chamaram a atenção de Denzel, pois não eram temerosos nem
derrubavam lágrimas. Ao contrário disso, flamejavam de coragem e ousadia. "Não
importa, uma garota desse tamanho não será capaz de fazer nada" pensou
Denzel se aproximando. Foi quando ouviu um assobio alto e virou-se
instintivamente. Neste momento, o disparo dos dois canos da escopeta de um
homem sem um braço o cegaram. Denzel caiu, debatendo-se, não de dor ou medo,
mas pelo ódio que aquele homem, um serviço mal-feito agora lhe causara. No
desespero onde se debatia, Denzel sentiu suas garras rasgarem macia carne
humana, enquanto a garota gritava de dor, e então sentiu a prata fria furar seu
coração. Tão fria que gelou todo seu corpo quente, além de levar toda sua
transformação embora.
E assim, o Denzel humano
surgiu, morto e com o rosto desfigurado. Mas, acima de tudo, liberto.Os
sobreviventes, ao ouvirem o tiro, saíram para espiar e se deram conta da nova
situação. Um caçador vingado, uma garota ferida e um corpo jazia ali.
Rapidamente saíram de seus abrigos para ajudar a garota que perdia muito sangue
pelos profundos cortes nas coxas.
25 de Dezembro de 1996. Hoje,
acaba a lenda do Licantropo Denzel Botan ...Assim como começa a lenda da Peeira¹
Belatris Kristen.
(1) Peeira - Uma espécie de fêmea de lobisomem.

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