13/01/2012

Licantropia

                            
  
                                     Lembrança


 
Preciso viajar para fazer pesquisas novamente – disse ele à sua esposa tomando um gole de café para parecer despreocupado – Partirei hoje à tarde. Seu casamento já estava por um fio. Não bastasse o trabalho árduo no laboratório, ele fazia aquelas curtas viagens para o interior todo mês. Não havia mais diálogo; Aquele namorado misterioso que ela conheceu, agora era só um marido cheio de segredos escondidos de sua esposa. Da parte dele, contar a verdade era tudo que mais queria. Ainda a amava como sempre amou. Mas as pesquisas ainda não apontavam nenhum rumo. Curar-se seria possível? Entretanto, era inútil pensar nisso agora. 24 de Dezembro de 1996, a noite do dia de amanhã, seria o momento mais terrível daquele mês.
– Tudo bem – respondeu ela. Um “tudo bem”  feminino preocupante, ele pensou. – Você volta para o natal? – E então, com sua cabeça já latejando de preocupação, repentinamente ele lembrou-se do natal de 1977, quando todo noticiário local falava da noite em que dois monstros atacaram sua pacata cidade natal. Naquele tempo todos falavam da notícia de que ao chegar o xerife da cidade vizinha para atender aos chamados, já ao alvorecer, o que encontrou foi uma carnificina. E o único sobrevivente, o garoto Denzel Botan de oito anos, fora encontrado na sacristia nu e cheio de arranhões profundos no corpo.
– Denzel! Você está me ouvindo!? – subitamente Denzel despertou de seus devaneios. – Você vem para o natal ou não?
- Ah, desculpe, não vai dar. Eu ligo pra você. – e levantando-se foi para o quarto fazer as malas. As recentes lembranças o fizeram ter mais pressa que o normal.


                    Trauma

 
Quase batera na traseira de um caminhão de carga no caminho para o campo. Denzel não tinha espaço para mais lembranças ruins na cabeça, e apesar de toda a indesejada experiência, ainda suava de medo do que estava por vir. Se ao menos tivesse um horizonte a seguir, sua vida teria mais sentido do que simplesmente pesquisas sem fundamento e noites lutando contra uma corrente.
                Dessa vez Denzel deu um pulo que bateu a cabeça no teto do carro. Um motorista buzinava o carro furiosamente logo atrás e ele notou que estava parado na estrada. Logo ele já estava de volta ao seu caminho.
Passar por aquilo desde os oito anos tornou Denzel uma pessoa naturalmente cansada e fria. Por mais que os intervalos entre as desgraçadas transmutações fossem de todo longos, nada o fazia tirar aqueles terríveis momentos da cabeça. Momentos em que ele ainda era Denzel Botan, mas não mais um humano meramente rabugento, mas uma fera. E não é como se ele perdesse o controle. Isso era o mais perturbador para Denzel, ele estava consciente. Consciente e sedento. Tudo que queria era sentir o cheiro ferroso do sangue quente em suas narinas aguçadas. Sentir a textura da carne humana saboreada em sua boca, e o mais doentio de tudo isso, ouvir o desespero de suas vítimas na forma de grunhidos horríveis. Sua vida normal era atormentada por essas lembranças, tanto quanto sua forma bestial era atormentada pela frustração de não poder cumprir seu destino, realizar seus instintos mais profundos. Assim, o mundo já não era agradável para Denzel e cura alguma poderia apagar esse trauma forjado por tanto tempo no seu frágil consciente humano. 

                   Imprevisto 1

 
Já são 15:00, preciso me apressar – disse Denzel para si, após a tortuosa viagem de pouco mais de um dia de carro chegando em seu destino; A velha casa isolada. Mas  ele também sabia que a tortura mal havia começado. Rapidamente se dirigiu para os seus aposentos, o velho celeiro, onde começou os preparativos.
                – Não é aqui! Por que sempre tem que achar que está tão certo!? – Denzel ouviu vozes distantes.
– É aí que você peca caro amigo. Eu imprimi o mapa e, pasme, eu estou sempre certo. Veja só! – Por alguns segundos, Denzel sentiu como se tivesse uma vida comum, como se pessoas conversando perto de sua residência, a meras 4 horas para a lua cheia cobrir o céu fosse, como deveria ser, uma coisa normal. Subitamente ele despertou, e saiu de furioso ímpeto do celeiro para dar de cara com 2 rapazes muito bem equipados com materiais de acampamento.
– O que estão fazendo aqui!? – Perguntou Denzel veemente.
– Oh, olá senhor – respondeu um dos rapazes – Desculpe o incômodo, eu e meu amigo estamos investigando lendas urbanas e soubemos que uma fera vive por aqui, sabe de alg...
– Aqui é propriedade particular, saiam imediatamente! – Interrompeu Denzel cada vez mais descontente com a surpresa.
– Ah, desculpe mesmo termos aparecido assim de repente mas é que...
– Saiam agora! – praguejou Denzel.
Num misto de espanto e desprezo os garotos deram meia-volta e se foram. Denzel os observou até sumirem de vista. Sabia que não adiantava se sentir mal pelo que fez, não podia correr riscos.
                                                                                                                                            
                  Imprevisto 11

 
Denzel já estava com as rústicas correntes prendendo seus pés e pulsos. Ele suava frio e tremia, sabendo o que esperava e sabendo que não havia para onde fugir. O sol já se punha no oeste, de frente para ele, a medida que escurecia, como um relógio apocalíptico.
E assim, a noite finalmente chegou. O mundo silenciou-se no momento em que Denzel sentiu uma batida forte no coração. Uma fisgada dolorosa em cada molécula de sua composição o fez se comprimir de dor. Uma segunda batida forte, e então ele explodiu em um grito, agora de uma dor constante, a mutação começara. Toda sua estrutura corpórea se transformava, física ou não. Seus pelos cresciam, tanto quanto nasciam outros nas partes peladas. Suas pernas e braços começavam a mudar de uma forma bípede para sua nova forma semi-quadrúpede. Dedos e unhas se tornavam patas e garras. Seu rosto alongava-se para dar espaço à toda nova arcada dentária destrutiva; Seu nariz e orelhas, substituído por armas de rastreamento ávidas por começar a trabalhar;  Seus olhos agora eram devidamente capazes de enxergar na escuridão da noite do campo isolado, e o mais assombroso; Sua mente, agora era a de um assassino.
Denzel sentiu seu corpo quente e latejando, como que aliviado pela dor que passara. Tentou levantar-se mas foi impedido pelas correntes. Passou algumas horas lutando contra as correntes, mas como já estava acostumado com essa situação, ele se deu por satisfeito apenas por ficar praguejando-se. No entanto, essa noite não terminaria aqui. Pouco tempo depois Denzel teve uma nova surpresa. Cheiro de Carne humana. Fazia muito tempo desde que sentira esse cheiro, além da distância de qualquer povoado, a casa fica próxima de várias plantações, o que atrapalhava seu olfato. Mas ali estava; Um delicioso cheiro no meio de todas aquelas malditas plantas. Aos poucos, Denzel conseguia ouvir o barulho de um carro, um carro grande. Um jeep talvez. E então... Uma torrente de emoções tomou Denzel; Alegria, excitação, raiva, frustração, e ansiedade.
– Vamos ensinar praquele velho maldito um pouco de educação – ele ouviu de longe – Vai se borrar todo o desgraçado. E no instante em que o automóvel estacionou no quintal de sua residência, Denzel pôde ouvir duas pessoas desembarcarem, e andarem sorrateiramente pelos arredores. Tentou inutilmente se livrar das correntes enquanto ouvia toda a armação do lado de fora.
Um barulho ensurdecedor cortou o céu. Ele pôde então identificar o cheiro de pólvora queimada, e ainda supor o plano de estourar fogos de artifício ao redor da casa. O barulho foi seguido de muitos outros, uma dor constante em seu ouvido o tomou, e ele urrou de raiva.
– Você ouviu isso? – Perguntou um dos garotos parando de rir da cena.
– O quê? Eu não consigo te ouvir! – Respondeu o outro ainda entre risos.
Outro grito furioso e os dois garotos instintivamente olharam juntos para o celeiro.
– O que foi isso!?
– Eu não te disse?
– Vamos lá olhar.
– Ta maluco? Se minhas suspeitas estiverem certas, o que eu mais quero é sair daqui!
– Cara, preciso te lembrar de qual foi o motivo que nos trouxe para esse fim de mundo? Vem.
Desde então, o celeiro estava em silêncio. Os dois rapazes se aproximaram com cautela, o da frente se aproximou mais, e já puxava a porta quando notou a corrente que a trancava.
- Mas que droga de corrente, vou no carro pegar a...
E foi interrompido por um vulto negro que destroçou a porta e pulou em cima de si, derrubando-o no chão.
Denzel ainda tinha pedaços de corrente em seus dentes, mas sua raiva era tanta que mal conseguia desgrudá-los com sua mandíbula travada em um rosnado feroz. O garoto desesperado tentou se livrar, arrastando-se para trás, mas então Denzel mordeu seu braço com tanto gosto, que partiu os ossos, e bastou um arranque para toda a carne se desprender do resto do corpo. O garotou berrou de dor, e o outro, em pânico, saiu correndo para o carro. Vendo aquilo, Denzel não pode se contentar somente com uma vítima, em um instante moveu-se até o carro e antes que o garoto conseguisse dar partida, atravessou o vidro com suas garras e agarrou o pescoço da presa. O Arrancou para fora do carro e jogou-o contra o corpo do outro. E então os gritos não cessaram até que toda a vida já tivesse escapado de seus corpos, que ao final de tudo demonstravam em forma material, toda a raiva contida em Denzel por anos.


                                                                     Lenda

  
Ansioso pela noite que o esperava, Denzel saiu em disparada pela estrada, e em poucas horas encontrou um pequeno vilarejo. Se lembrou da primeira vez quando o carro quebrou na estrada, e antes que pudesse alcançar sua casa, a lua cheia veio lhe atormentar. Nesse dia, esse foi o primeiro vilarejo que encontrou mas como estava isolado quando a transformação ocorreu, demorou a encontrar qualquer sinal de vida. Assim, quando encontrou o vilarejo já passava de 5:30 e tudo por azar, chegou atacando um experiente caçador que quase o matou, mas terminou com um braço arrancado, e antes que pudesse terminar o serviço o sol começou a raiar e ele teve que fugir para manter sua existência, afinal, o Denzel fraco estava por vir. Esse fracasso em seu primeiro momento de glória por aquelas bandas sempre o atormentou também, e agora era o momento de terminar o que um dia havia começado. Ao se aproximar, ele percebeu que embora já fosse tarde, todos permaneciam acordados e festejando em volta de uma fogueira e um presépio. "Claro - pensou ele - noite de Natal" nada de especial, pessoas acordadas não fariam diferença.
Aproximou-se sorrateiro. Quanto maior a surpresa maior o horror, logo, maior sua satisfação. Pronto para atacar, Denzel saltou do arbusto mais próximo dos cidadãos, que por alguns segundos ficaram paralisados sem reação. Efeito cortado imediatamente quando Denzel atacou a mulher mais próxima, mordendo-lhe o pescoço e fazendo chover sangue em todos. Os gritos tomaram conta do som ambiente, para a satisfação de Denzel. Ele então começou a caçar pessoas que não tinha muito para onde correr. Algumas fugiam para dentro de suas casas. Nada esperto da parte delas, mas por sorte ( ou não ) Denzel resolveu caçar quem fugia pelas plantações primeiro, Afinal, o restante estaria apenas aguardando encaixotados no vilarejo, como porcos  esperando pelo abate inevitável. Finalmente alí estava ele, pondo em prática todo seu armamento de caça, todo seu instinto, e toda sua vontade. O estúpido instinto das pessoas de ficarem juntas e de se entregarem a clemência visto a morte iminente só facilitou o trabalho, e em poucos minutos Denzel já estava regressando às casas. Nada demais, 7 casas no total, alguns sobrados, e nem todas habitadas. No primeiro ataque, ele encontrou uma mulher junta de duas crianças a rezarem e ignorando sua presença, o que o irritou, como não achou que pudesse acontecer um dia. Matou-os rapidamente, evitando aquela cena deplorável. Glorioso, ele avançou para a próxima residência e ao derrubar a porta, deparou-se com uma garota sozinha, de mais ou menos uns treze anos. Segurava uma bela adaga de prata cravejada de safiras, tão azuis quanto seus olhos. Olhos que chamaram a atenção de Denzel, pois não eram temerosos nem derrubavam lágrimas. Ao contrário disso, flamejavam de coragem e ousadia. "Não importa, uma garota desse tamanho não será capaz de fazer nada" pensou Denzel se aproximando. Foi quando ouviu um assobio alto e virou-se instintivamente. Neste momento, o disparo dos dois canos da escopeta de um homem sem um braço o cegaram. Denzel caiu, debatendo-se, não de dor ou medo, mas pelo ódio que aquele homem, um serviço mal-feito agora lhe causara. No desespero onde se debatia, Denzel sentiu suas garras rasgarem macia carne humana, enquanto a garota gritava de dor, e então sentiu a prata fria furar seu coração. Tão fria que gelou todo seu corpo quente, além de levar toda sua transformação embora.
E assim, o Denzel humano surgiu, morto e com o rosto desfigurado. Mas, acima de tudo, liberto.Os sobreviventes, ao ouvirem o tiro, saíram para espiar e se deram conta da nova situação. Um caçador vingado, uma garota ferida e um corpo jazia ali. Rapidamente saíram de seus abrigos para ajudar a garota que perdia muito sangue pelos profundos cortes nas coxas.
25 de Dezembro de 1996. Hoje, acaba a lenda do Licantropo Denzel Botan ...Assim como começa a lenda da Peeira¹ Belatris Kristen.



(1) Peeira - Uma espécie de fêmea de lobisomem.

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