Já passava da meia-noite quando alguém sorrateiramente se esgueirava pelos corredores do castelo. Pulou o muro que separava a parte interna dos campos de treinamento e lá se foi agachado, enquanto acima de sua cabeça, guardas se preocupavam demais com o que estava além da muralha do castelo, esquecendo-se dos perigos que poderiam haver ali dentro. Então a assombrosa silhueta se aproximou da maior das portas diante do campo, junto a seu objetivo: A sala de armas. Destrancou e abriu a porta com cuidado, levantando-a o máximo que conseguia para que ela não rangesse. Acendeu um pequeno e fraco archote, suficiente para não trombar em nada, e andou em linha reta, como quem já sabe o que quer. Parou logo à frente de uma vitrine e levantou o archote para iluminar melhor. Lá estava ela; Toda trabalhada em ouro branco e diamantes com o formato de um pegasus no punho e os dizeres “Solene é o homem que cumpre seus deveres a serviço do bem” junto à lâmina. Sim, sua tão desejada espada, Alada, estava diante de seus olhos, bem ao seu alcance. Foi quando estendeu suas mãos para agarrá-la que a porta, até então encostada, foi empurrada com tamanha brutalidade que bateu contra a parede causando um terrível estrondo, enquanto uma forte luz agora iluminava toda a sala.
- Argus,
seu maldito desnaturado! – irrompeu uma voz com superioridade, ecoando de uma
silhueta quase do tamanho da porta – Você está tentando roubar a Alada de
novo?
- Não se
chama roubar quando é uma espada forjada especialmente para mim – retrucou
Argus – Não tenho tempo para perder com você Ham, com licença – disse ele
enquanto agarrava a espada e esgueirava-se por debaixo dos braços do homem.
- Como se
atreve? Pirralho insolente. – falou Ham enquanto o segurava pelo colarinho.
- Não sou
pirralho! Já tenho 14 anos e por
lei sou homem o suficiente para portar minha própria
arma!
- Pois para
mim ainda é um pirralho. Além disso, a lei da cidade é o vosso
padrinho, Lorde Thoros II, o mesmo
que determinou que seu treinamento
com uma arma cortante começará semana que vem, logo
após o aniversário de 14 anos de Reymno.
- Ora, não
me venha falar novamente daquele roliç...
- Meça
suas palavras Argus, Reymon
pode vir a ser seu senhor um dia.
E eu espero nunca mais ter que dizer para você não usar dessa
maldita arte ladina para invadir os aposentos
do castelo. Vamos embora. – concluiu Ham
com um tom de quem diz que a conversa terminou e o levando de volta
para seus aposentos.
A semana
demorara passar, mas finalmente era o dia do aniversário do filho de Lorde Thoros. Na mesa
principal da festa estava um garoto sentado com uma cara de emburrado, quase
deitado na cadeira e com os longos cabelos negros caindo sobre o rosto.
- Tenha
modos Argus! – advertiu seu pai com um sorriso amarelo enquanto Lorde Thoros não
olhava. Argus era filho de Philos Solemn, o chefe da guarda da cidade, guarda pessoal e braço
direito de Lorde Thoros. Dez dentre os mais prestigiosos homens da Guarda da cidade eram escolhifdos para serem a Guarda pessoal do Lorde. Já faziam muitas gerações que os Solemn eram vassalos
dos Lavíneos, senhores de Luna, em geral, sempre comandando sua Guarda Pessoal. E assim permanecia. Argus nunca gostou de
nenhum Lavíneo, mas detestava principalmente Reymon, um garoto gordo
e muito mimado por todos, o que tornava sua personalidade azeda muito mais
desagradável. Certa vez Argus ganhara uma semana preso no castelo porque fugiu
de seus afazeres para brincar com os plebeus e foi visto e incriminado por
Reymon. Desde então, os dois que já não se davam, passaram a nutrir uma
rivalidade não muito saudável.
Situações
como essa festa faziam com que Argus se recordasse de seu triste e já traçado
futuro como guarda pessoal de sua senhoria, assim como seus dois irmãos Evos e Seris, da maneira que
desejava de seu pai. Nunca se sentiu realmente parte daquilo... Amava a
esgrima, mas não tinha a mínima intenção de viver servindo de guardião (ainda
pior sendo guardião “deles”), seu sonho era sair para se aventurar na vastidão
do mundo e, por que não, conhecer pessoas decentes as quais quisesse realmente
proteger. ___________________________________________________________________________________________________
- Não me
faça repetir Argus! – ameaçou Philos agora entre os dentes.
- Não quero
ficar aqui pai, eu poderia já estar treinando com a Alada faz uma semana e não
posso por causa dele! – interpôs Argus se ajeitando na cadeira.
- Vê como
você é imaturo? São ordens do seu senhor, Argus. Um dia saberá a importância disso.
Limitou-se então
a apenas a ouvir o pai. Já passara por aquilo vezes o suficiente para saber que
se discutisse um pouco mais, só teria a perder, levando em conta que estava horas
do momento que esperara por anos.
- Veja, a
cerimônia de condecoração irá começar. Levante-se. – continuou Philos.
Thoros então
usou de todo esforço e boa vontade que tinha para levantar de sua cadeira, pois já se
encontrava um pouco tonto e caminhou com certa dificuldade até o palanque, seguido
por Reymon e Argus. Argus até aquele momento pouco se importava com cerimônia,
mas naquele exato momento em que caminhava em direção ao palanque se deu conta
do que estava prestes a acontecer. Esqueceu até mesmo da desagradável presença
de Reymon quando viu a sua frente, repousada sobre uma almofada somente
esperando sua chegada, sua bela espada Alada. Após assumirem seus devidos
lugares, o Lorde Thoros se pôs entre ele e Reymon e por alguns minutos declarou suas
palavras ao povo. Argus mal ouvira o que foi dito, ou mesmo se importou de
estar sendo assistido por metade do reino, naquele momento sua excitação era
tanta que só conseguia pensar em Alada e como sua vida teria muito mais sabor
a partir dali.
- Eis então
que minha vida chega a um momento único meu povo, não só como Senhor dessa cidade, mas como
pai. Meu filho caçula agora completa quatorze anos de idade, e nada pode dar
mais prazer a um pai do que ter seus filhos crescidos como homens descentes e honrados...
– Argus acabou por ouvir algumas bobagens que saíam da boca do lorde gordo. Olhou para
o lado e se deparou com Reymon o encarando com desdém. Tentou ignorar o máximo
que podia, prometera a si mesmo que se acostumaria a ignorar as suas
provocações, pois a partir daquele dia teria que lidar com ele diariamente se
quisesse manter seu treinamento. Não só como a cerimônia de condecoração, Lorde Thoros organizara para que Ham prosseguisse o novo treinamento dos garotos em
conjunto, o que fazia Argus suspeitar de tudo fazer parte de um mero capricho
de Reymon atendido pelo pai, para que ele não tivesse nenhuma vantagem, nem que
fosse de uma semana.
Pego de
surpresa em seus devaneios, Argus assustou-se com repentina ovação da multidão.
Quando deu por si, Reymon já tinha uma pequena coroa na cabeça e uma capa
lateral era pregada no ombro direito de suas vestes enquanto recebia sua espada
das mãos de Thoros. Novamente apodrecido pelo momento, Argus se sentiu tão
enjoado daquele ar falsamente solene que quase se esqueceu que em seguida seria
justamente sua vez. Viu então seu pai se aproximar do palanque, curvar-se ao seu senhor, e lhe entregar sua espada. Thoros a tomou, apreciando-a, e dirigiu-se
a Argus, que se ajoelhou de má vontade.
- Eu,
Thoros II, Filho de Thoros, o derradeiro, senhor de Luna e defensor dos povos
menores nomeio tu Argus, Filho de Philos, o capitão de minha guarda pessoal, e chefe da Guarda da Cidade de
agora em diante homem feito, para que possa treinar as artes da
espada como um homem, e um dia seguir os passos de seu pai e seus irmãos para
servir a Guarda de Luna. – pronunciou, tocando com a espada de Argus
em seus ombros. Então uma ama prendeu-lhe a capa nas vestes e o Thoros entregou-lhe a espada.
E assim o
dia demorou cada vez mais a passar, mas Argus conseguiu até mesmo se divertir. Logo
que a cerimônia já havia acabado e a festa prosseguia, pôde se afastar daquilo
tudo despistadamente para passar um momento sozinho finalmente apreciando sua
espada.
O sol ainda
não havia nascido quando Argus despertou. Caía uma fina e leve chuva pela
janela, mas nada que pudesse atrapalhar seu dia. Vestiu suas roupas mais
adequadas, pegou Branca em sua bainha e saiu com pressa passando pela cozinha e
roubando qualquer coisa para comer da ama que preparava o café da manhã. Ao
chegar aos campos se deparou com o local vazio, exceto por vigilantes ainda em
turno. Mesmo que fosse tão cedo, Argus estranhou que Ham não se encontrasse
ali, mas decidiu que faria qualquer aquecimento enquanto esperava. ___________________________________________________________________________________________________
Pouco tempo
depois Ham apareceu, juntamente com o motivo de seu atraso. Ele chegava com o Reymon estranhamente pomposo. Argus teve dores no abdômen para segurar
o riso na frente de Ham, enquanto via o ódio através dos olhos do garoto quanto a
provável história cômica por trás do atraso e de toda a ostentação daquela
vestimenta.
-
Desculpe-me o atraso Argus, - disse Ham – a rainha insistiu que Raymon deveria
estar vestido à altura do filho de um senhor, mesmo para a esgrima. Bem, Reymon, você
sabe que teremos que por algo mais leve e menos justo para treinarmos não é?
- É claro
que eu sei! – resmungou Reymon com amargura – Vou me trocar. – e saiu para a
sala de armaduras.
- E você –
disse Ham para Argus -, espere aqui enquanto busco as armas.
- Como
assim, Ham? Veja, eu já estou com a Alada.
- O que?
Você acha mesmo que vocês moleques vão usar armas com fio no primeiro dia sem
nem ter noção do peso do metal? Criança tola. – riu-se enquanto se
dirigia a sala de armas.
Decepcionado mas já esperando
algo parecido, Argus esperou a volta do mestre. Quando Reymon retornou com uma
cota de malha espremendo seu grande corpo, ainda afetado pela cena anterior,
Argus teve de se segurar novamente para não
cair na gargalhada. Rapidamente ele se virou levantando a espada em sua mão,
fingindo analisá-la. No entanto ele não foi rápido o suficiente.
- Você se
acha o máximo não é? – indagou Reymon, mas Argus ignorou. – Alguém precisa
ensiná-lo alguns modos – continuou. Quando Argus se virava para responder a
afronta, foi imediatamente surpreendido pelo som do metal da espada negra de
Reymon investindo contra a sua, que por sorte estava desembainhada em sua mão.
Incrédulo, Argus investiu de volta, empurrando com esforço todo o peso do
garoto.
- O que
pensa que está fazendo, maldito? – perguntou Argus exaltado.
- Ensinando
modos a um servozinho malcriado – retrucou Reymon desferindo um golpe no lado
esquerdo desprotegido de Argus. Percebendo que o garoto não estava “só
ladrando”, Argus deu um salto para trás e assumiu uma postura de combate.
- Não me
provoque “majestade”. Terei o prazer de pagar o preço para acabar contigo. Acha que tudo que fizer ficará impune? Ainda sou Argus Solemn, filho do
chefe da Guarda da Cidade!
- Ha ha
há... – Reymon soltou uma gargalhada irônica – Seu pai não passa de um
serviçal, acha que o filho de um vassalo teria mais valor que o filho de um Lorde?
- Como é!?
- É isso
mesmo “filho do chefe da guarda da cidade”. Seu amado pai não passa de um serviçal.
Pensa que eu não sei de todas as atrocidades que ele já fez?
Perplexo, Argus não pode
deixar de levar alguns segundos para digerir a informação. Diante daquela cena,
Reymon notou uma coisa que o fez gargalhar ainda mais alto.
- Não abra
essa boca porca para falar de meu pai!
- Então
você não sabe!? Há há há há... que coisa deplorável! – deliciou-se Reymon –
Mas não se preocupe demais, ouvi que tudo que seu pai fez foi em nome de meu
pai. Afinal, ele é o nosso cão mais obediente.
Argus
então, tomado por repentina fúria contra-atacou com um fervor muito superior
que pegou Reymon de surpresa, fazendo com que ao se defender do golpe na altura
do peito perdesse o equilíbrio, e caísse de costas. Rapidamente tentou se
levantar com uma mão, enquanto a outra trêmula segurava a espada a sua frente,
mas com um forte golpe lateral, Argus arremessou para longe a espada de sua mão
já vacilante.
- Quem te
disse isso? – questionou Argus encostando-lhe a ponta da espada no rosto.
- P-por que
você ficou tão furioso!? Sabe que se me ferir...
- Eu te
perguntei quem inventou essas calúnias!!? – Berrou Argus enquanto um fio de
sangue agora escorria do rosto de Reymon.
- Ham! – ele
gritou desesperado.
- Ham!? Esse truque não vai fun...
- ...Tire
esse bastardo de cima de mim imediatamente! – continuou Reymon. Argus então
olhou pra trás e viu Ham, parado à porta do salão com uma feição que nunca vira
antes.
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Ham vinha
arrastando Argus pelos corredores do castelo sem dizer nada, até que tomaram
certa distância e assim que viraram uma esquina, Ham o jogou contra a parede
com brutalidade.
- Como
ousa!? – gritou Ham com veemência
- Ele
ofendeu minha famíl...
- Como
ousa!!? – Ham agora o segurava pelo colarinho – Quantas vezes eu te avisei,
Argus? Quantas!?
- Mas ele
inventou calúnias a respeito do meu pai!
-
Calúnias!? Sua imaturidade me espanta garoto; você acaba de por em risco sua
vida, a de seus irmãos e a de seu pai, quem você diz que estava tentando
proteger. Eu pensei que depois de tanto tempo como o seu mestre eu tivesse
conseguido lhe ensinar o mínimo de discernimento! Enganei-me, percebo. – Ele
então seguiu em silêncio o corredor onde Argus percebeu, terminava na porta do
comitê da Guarda da Cidade.
Argus ficou
parado onde foi deixado por Ham, refletindo no que ouvira. Mas aquilo não era o
suficiente, precisava falar com seu pai, ele o entenderia.
Algum momento depois, seu irmão mais velho, Seris, saiu da sala e veio em sua direção.
Algum momento depois, seu irmão mais velho, Seris, saiu da sala e veio em sua direção.
- Argus... – disse num tom melancólico – Nosso pai
determinou que ficará limitado a seus aposentos por um mês, e que será tomada a
posse de sua espada por tempo indeterminado.
- E ele
decidiu isso tudo sem ouvir o que tenho a dizer? Sem nem ao menos dizê-lo
diretamente?
- Entenda
irmão, nosso pai sempre foi um homem atarefado. Agora com essa confusão ele mal
terá tempo para os próprios afazeres. Em situações normais você já estaria
sendo encaminhado para a forca. Mas não se preocupe, o pai vai cuidar de tudo.
– explicou-lhe Seris. Mas Argus mal ouvira as palavras do irmão. Não conseguia
acreditar na indiferença de seu pai em nem mesmo ouvi-lo antes de tomar
qualquer decisão, por mais que isso pudesse nem interferir nos fatos.
- E quanto
à “ele”? – perguntou Argus odioso.
- Lorde Thoros é quem decide o que irá acontecer com o seu filho. Quanto a isso não temos o que fazer.
Argus passou aquele dia trancado em seu quarto e sem nada que o pudesse distrair. Aqueles
pensamentos do infortuno dia não saiam de sua cabeça. Mas sua maior decepção
ainda era com seu pai. Fizera o que fizera para defender sua honra, e assim que
era tratado? Sem nem mesmo uma palavra de consolação?
- Como
está, irmãozinho? Já se acalmou? – Argus ouviu a voz de Seris mais uma vez naquele dia despertando-o de seus devaneios e trazendo-o de volta para o tedioso quarto.
- Já disse
para parar de me chamar assim – resmungou Argus.
- Vejo que
ainda está chateado – riu Seris enquanto se sentava na cama ao lado do irmão.
- Não tem
graça. Quantas pessoas mais o pai enviará até mim ao invés dele mesmo vir falar
comigo?
- Não diga
isso irmãozinho, só vim aqui porque estou preocupado. Além disso o pai não
retornou até agora. Parece que está em reunião com o conselho.
- Até
agora? Mas meu castigo já foi decidido.
- Bom... Eu
ouvi que... – Seris hesitou.
- Ouviu
que..? Não faça drama Evos.
- Bem, eles
querem lhe impedir de portar uma espada...
- O que?
Não podem fazer isso!
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- Eles
disseram que mesmo que não pague com sua vida, o fato de atacar Reymon mostra que você é perigoso para qualquer cidadão, sendo assim, impróprio para
ser um cavaleiro e principalmente Guarda Pessoal de Lorde Thoros e família.
- Mas a
esgrima é minha vida! – alegou Argus começando a ficar desesperado.
- Não se
preocupe Argus, o pai está no conselho agora justamente para te defender.
- E quando
é que alguém nesta maldita cidade vai ME ouvir!? – Argus se levantara da cama
após já perder a paciência com toda aquela situação.
Seris ficou em silêncio por um
momento.
- Onde está
minha espada? – indagou Argus.
-
Provavelmente com o conselho, mas... – Seris foi interrompido com a investida de Argus contra a porta que, destrancada, foi
empurrada com facilidade. Ele disparou pelo corredor enquanto ouvia os gritos
abafados do irmão ficando para trás. Trombou com uma criada, provavelmente a
que trazia sua refeição enquanto virava a esquina dos corredores, mas
rapidamente se levantou e voltou a correr sem olhar para trás. Argus só
conseguia pensar agora em fazer sua própria justiça, mesmo que pra isso tivesse
que invadir o conselho e gritar para que todos aqueles malditos velhos surdos
pudessem ouvi-lo. Evitou um atalho quando viu que no jardim aberto caía uma
pesada chuva do céu sem estrelas daquela noite. Quando se afastou da área dos
aposentos e já não podia evitar facilmente os guardas (que a partir dali se
encontravam em muito mais abundância), Argus parou de correr e começou a se
esgueirar para não ser notado; Afinal, naquele momento não passava de um
assassino em potencial fugitivo, para eles. Parou contra uma parede num
cruzamento em forma de “T” e esperou até que os vigilantes passassem e ele
pudesse prosseguir sem ser visto. O forte barulho da chuva foi um ótimo aliado
naquele momento. Então Argus finalmente chegou ao corredor que terminava numa
escada, que por sua vez dava acesso à assembleia onde o conselho se reunia.
Enquanto se dirigia pelo corredor, Argus notou que diminuía o passo à medida
que avançava. Foi pego de surpresa por certo desânimo enquanto refletia coisas
como: “Eu estava tão furioso que nem pensei no que vou dizer”, “Certamente
quando eu acusar o filho do Lorde, serei apenas o assassino em potencial fugitivo e
caluniador”. Então já parado Argus pensou: “Já cheguei até aqui, não posso
voltar atrás. Preciso ao menos conseguir falar com meu pai”. E assim ele voltou
a andar com passos largos. Foi nesse momento que Argus ouviu uma certa confusão
de vozes que o fizera parar novamente e, para sua maior surpresa, o som abafado
das vozes se tornara nítido com o abrir de uma porta e além disso, passos agora
eram ouvidos descendo a escada, fazendo com que ele imediatamente corresse na
direção contrária com o coração na boca. Argus virou a primeira curva que
encontrou e entrou na porta onde o corredor terminava sem pensar duas vezes.
Tentou se acalmar do susto enquanto segurava a porta por dentro e analisava o
quarto quase completamente escuro. Após ouvir o barulho passar pelo corredor e
desaparecer distante dali, um suspiro foi inevitável. Ele então se afastou da
porta com alguns passos para trás pensando no que faria agora para sair sem ser visto. Passado o susto, uma estranha corrente de ar, alem de
barulho de água corrente roubaram-lhe a atenção. Ao se virar para ver do que se
tratava, um passo em falso o fez cair, não a nível do chão, mas em uma rampa
para baixo. Argus mal tivera tempo de pensar no que acontecia enquanto
deslizava e se viu saindo de um buraco no meio da muralha do castelo e
caindo por cerca de 4 metros direto no rio que corria recostado à muralha
norte.
Um pouco atordoado, nadou
até a borda lamacenta do rio quase se afogando com a correnteza muito mais
forte que o normal, devido à chuva daquela noite. Todo encharcado, inclusive de
lama, a primeira coisa que Argus pensou instintivamente foi voltar para o
castelo, enquanto olhava para a saída de lixo pela qual caíra, e praguejava
aquele maldito dia que inocentemente esperara por tanto tempo.
___________________________________________________________________________________________________
- Ei você,
o que faz rodeando o castelo? – gritou um guarda do alto da torre –
Identifique-se! – disse armando o arco. Por um momento Argus ficou paralisado.
A noite não tinha luar e a forte chuva atrapalhava a visão. Além disso, a tocha
acesa bem ao lado do soldado provavelmente fazia de Argus não mais que uma
silhueta para ele; caso se aproximasse, certamente levaria um tiro antes que
pudesse ser identificado. E pior, agora que parara pra pensar, mesmo que fosse
reconhecido, o que aconteceria consigo? Poderiam usar esta
“fuga” para piorar sua situação.
- Vou
contar até três para você... – o guarda foi interrompido por um outro que
chegava ofegante.
- Argus?
– interrogou o homem. Perante a situação, só restou a Argus realmente fugir em
direção à cidade a cerca de 200 metros. Ele ainda pôde ouvir ordens distantes
para que o capturassem, sendo assim, pôs toda sua audácia em prática para
cortar caminho saltando do enorme barranco que fazia um desvio na estrada, onde
terminou rolando por cerca de oito metros abaixo. Mas não foi o suficiente para
pará-lo. Rapidamente se levantou e alcançou os portões da cidade, onde se
escondeu no primeiro beco que encontrou. Algum tempo recuperando o fôlego e
deixando-se lavar pela chuva foram suficientes para que Argus ouvisse a
cavalaria chegando em disparada na cidade. Escondeu-se atrás de algumas
lixeiras esperando até que se dispersassem. Após alguns instantes então, saiu
com cautela pelo outro lado.
- Ora, ora,
é só uma criança – soou uma voz atrás de Argus fazendo todos seus pelos se
eriçarem. Quando se virou, se deparou com um homem extremamente magro e alto,
de feições pouco reconhecíveis dada a escuridão.
- Eles
estão perseguido um pirralho? Não deve nem ter preço pela sua cabeça – advertiu
um homem gordo que apareceu junto de um terceiro, cercando Argus por todos os
lados.
- Valendo
ou não devemos matá-lo logo antes que apareçam, ou não conseguiremos uma moeda
de cobre sequer de qualquer forma. – disse o ultimo homem; um sujeito alto e
robusto. Ao ouvir aquilo, o medo de Argus se converteu em perigosa raiva de
quem não tem nada a perder. Desarmado, cerrou os punhos e avançou contra o
homem magrelo à sua frente. Deu-lhe um soco na altura do abdômen que o homem
defendeu com uma mão, segurando o pulso de Argus e o erguendo, quase o tirando
do chão a gargalhadas. Argus então usou sua perna esquerda para desferir um
golpe no rim do homem que soltou um guincho de dor. Argus nem teve tempo de se
vangloriar, com o ódio estampado na face, o homem revidou, ainda segurando-o,
com uma joelhada na barriga que fez Argus vomitar qualquer coisa que tinha no
estômago.
- Tsc! Já
chega, matem-no. – ordenou aos outros dois enquanto averiguava o local onde
fora atingido. Os dois homens deram chutes por todo o corpo caído de Argus enquanto
ele gemia de dor, lutando para não fechar os olhos e entregar-se a calmaria
indolor da inconsciência. Então o homem alto e magro o pegou impaciente pelas
vestes com uma mão enquanto com a outra retirava da cintura uma adaga tão
imunda que mal era reconhecível naquela escuridão, se não fosse pelo gélido
metal que fora encostado na garganta de Argus, enquanto saboreava aquele
momento. Foi neste instante que uma quarta silhueta surgiu caindo sobre o homem com os dois pés em seu peito, de forma que Argus foi imediatamente
solto e a forma escura que o libertara caíra agachado sobre o infeliz portador da adaga. Antes
que o restante pudesse ter qualquer reação, ele fez esguichar sangue da
garganta do sujeito e saltou para o lado, sacando uma espécie de espada.
Enquanto isso os outros dois pareciam que gritavam coisas, mas Argus
estranhamente não podia ouvi-los. Logo após o alívio que sentira ao ver seu
carrasco jazendo no chão, ele gradativamente foi perdendo os sentidos, e por
fim, sua mente apagou.
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Argus abriu
os olhos incomodado com os raios de sol e um calor escaldante. Tentou se
esquivar da luz, mas quando virou-se na cama sentiu uma imensa dor como um
choque por todo o seu corpo. De repente sua cabeça foi inundada por lembranças
da noite passada e ele de ímpeto se levantou, sentindo dessa vez uma dor ainda
maior que o fez gritar.
- O que foi
isso? – perguntou um homem exasperado. Tinha seus trinta e poucos anos, um
homem esguio, de cabelos grisalhos e curtos e com um tenaz¹ na mão, e vestindo um avental de couro cozido. Deu uma boa olhada em
volta e terminou nos olhos espantados de Argus – Ora, não me assuste à-toa
garoto!
- Quem é
você? – perguntou Argus confuso – Onde está o cara que me salvou ontem... foi você?
- Cara...? Não!...
Digo... Sou Airo, o Ferreiro, e não fui eu quem o salvou dos mercenários. Eu
apenas o resgatei quando tudo já tinha acabado. – explicou Airo.
- Então
eram mercenários? Como sabe?
- Ah...
Eu... Vi... Digo... Depois... - Argos encarou incrédulo a reação atrapalhada do homem, que terminou percebendo a situação - ...Maldição! Devo estar muito velho pra ser tratado assim por uma criança. –
murmurou Airo para si e Argus o fitou por um momento.
- Eu vi suas técnicas. A ladinagem não é condenada na cidade, não é? – refletiu Argus – Não se
preocupe, você me salvou afinal... Não revelarei seu segredo para ninguém...-
- Ao menos sobrou um pouco de juízo em você para não se meter nos...
- Ao menos sobrou um pouco de juízo em você para não se meter nos...
-...contanto
que me ensine o que sabe e me deixe ficar aqui – continuou Argus, interrompendo
Airo.
- O quê!?
Então você ousa mesmo me chantagear... – Airo foi interrompido novamente, dessa
vez por alguém que batia à porta. Ele não se deu ao trabalho de continuar, deu mais uma olhada em Agus, foi
até a porta e a abriu. Argus viu dois subordinados de seu pai entrarem e
fazerem uma reverência.
- Recebemos
seu sua notícia hoje pela manhã senhor – disse um deles. Mais uma vez, como em tantas
vezes recentemente, o coração de Argus se encheu de ódio.
- Então era
isso, desgraçado? Também só queria vender minha cabeça por um bocado de
ouro!? – vociferou para Airo. Rapidamente Philos entrou na casa passando entre
seus subordinados.
- Argus!
O que está dizendo? Você está entendendo tudo errado! - disse agachando-se frente ao filho. – Seris me explicou o que aconteceu, mas nunca imaginei que fugiria do castelo.
- Não fugi.
Mas não importa, não voltarei pr'aquele ninho de víboras! – afirmou Argus.
- Eu já
disse que você entendeu tudo errado. Seris lhe passou uma informação
desatualizada. Não por maldade, já que ele mesmo não sabia, mas naquele momento
na assembleia estavam eu, o conselho, o Lorde Thoros, e o próprio Reymon. Vossa senhoria o fez assumir que o atacou primeiro e o ofendeu em seguida. A critério do
próprio Lorde, você não será julgado por nada, viu só? Tudo voltará a ser como
antes. – Argus ouviu as palavras do pai com desgosto. Uma pequena parcela de sí gostava da ideia de não ter que voltar mais, e no fim, passou por aquilo
tudo por nada. E mesmo que fosse verdade que ele não seria julgado, ainda não
engolia todo aquele ocorrido do dia anterior. Além disso, dizer que tudo
voltaria a ser como era antes certamente era insensatez. Enquanto Argus se
perdia em pensamentos, Philos se deu conta da situação.
- O que
aconteceu... O que são todos esses hematomas? – questionou.
- Eu...
- Ah, se me permite, Sir – interrompeu Airo – eu encontrei seu filho ferido na rua, por
bandidos eu suponho, e o trouxe para cuidar de seus ferimentos. – explicou-lhe.
Philos olhou para Argus que consentiu com a cabeça. Levantou-se e dirigiu-se ao
ferreiro.
- Você tem
minha eterna gratidão senhor. Providenciar-lhe-ei uma recompensa à altura assim
que retornar ao castelo. – garantiu-lhe Philos.
- Muito
agradecido e honrado Sir, mas sua gratidão é o suficiente para mim, e
certamente aceitá-la-ei se um dia me for preciso. – disse Airo gentilmente.
Philos anuiu e voltou-se para
Argus, que encarava Airo com curiosidade.
- Consegue
se levantar? – perguntou Philos a Argus – Estamos de partida.
Argus considerou
muito se recusar a ir embora. Olhou mais uma vez para Airo, e depois para seu
pai com cara de desentendido. Então o garoto se levantou da cama com
dificuldade, vestindo apenas uma calça e ataduras. Aproximou-se e agachou em
uma reverência à Airo.
- Considere
minhas as palavras de meu pai. Devo-lhe a vida e minha eterna gratidão –
anunciou Argus solenemente. Philos então retirou sua capa e
cobriu o filho enquanto o dirigia para fora.
Argus ainda
não tinha vontade de retornar, mas decidiu que era o melhor a se fazer,
desistindo da ideia de realmente fugir. Em contrapartida, entendera que o dia
anterior não fora-lhe um sofrimento em vão. Ao contrário, cada pequeno fato o
engrandecera, além de despertar-lhe um desejo que, disso ele não abriria mão;
Agora tinha de aprender a arte de Airo de qualquer forma.
(1) Tenaz é uma pinça gigante usada por ferreiros para retirar peças do forno.
(1) Tenaz é uma pinça gigante usada por ferreiros para retirar peças do forno.

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