07/01/2019

Criança da Noite


Eles se acham tão espertos, e alguns até realmente aparentam ser. Faz lembrar aquela sensação de que você precisaria de um século para se tornar realmente bom em alguma coisa. Bem, alguns deles tiveram esse tempo. Mas a prepotência… a arrogância… Parecem fazer parte deles, e esse é o ponto. O ponto fraco. Talvez eu esteja sendo prepotente também em me ver em vantagem nutrido de uma informação tão simplória, mas afinal, querendo ou não, sou um deles agora.
“Querendo ou não”, hum!… é até engraçado. Não foi como se eu tivesse recebido um convite para fazer parte da Maçonaria. Em contrapartida o poder e as sensações que vêm junto… são realmente tentadores. Porém – sempre há um porém – me obrigaram a abdicar de todo o resto, de todo mundo que eu conhecia… enfim, de toda uma VIDA. Nem eu mesmo sei se ainda estou vivo, e eles sempre dizem que esses sentimentos mortais desaparecem com o tempo, mas em contrapartida  dizem que abdicar totalmente da humanidade te leva a um caminho inevitável para a Besta que existe dentro de nós.
A verdade é que eu não estou nem fodendo para nada disso. Foda-se se eu estiver sendo prepotente e foda-se eu “morrer” hoje. Que diferença faz hoje ou amanhã? Estar aqui já é um inferno. Um gigantesco mar de tédio. É fato que Victor até tenta me entreter: me mantém ocupado com seus negócios escusos de merda  e em dias bons vamos saciar a Fome em festas da alta sociedade, regadas a belas prostitutas drogadas. – o que será difícil de manter sem Victor, pelo menos no começo – Mas quanto ao conhecimento, a arte que leva ao poder e as suas intrigas mais pútridas, ele me deixa completamente inerte. Sempre que lanço uma questão que ele não quer responder, alguma história paralela flui de sua boca como melodia. Só depois de muito tempo percebi que tudo não passava de enrolação. Provavelmente esse é mais um de seus dons. O grande porém é que não está funcionando mais comigo. Continuo fingindo interesse, mas acho que ele vem percebendo.
Bom, nada disso importará mais depois de hoje. Vou matá-lo e beber cada gota de seu sangue. Sei que posso fazer, e melhor, sei que posso me divertir fazendo. Se o que aqueles bastardos estavam conversando na festa for realmente verdade eu vou absorver seus poderes depois de deixá-lo seco. Ainda não sei ao certo o que vou fazer depois, mas ter essa ajudinha extra não será nada mal. No mais, o idiota me deixou a par de boa parte de seus negócios e já sei como roubá-lo. Só não o fiz ainda para que ele não descubra antes do meu grand finale. A minivan também já está alugada e depois daqui vou buscar todos que ainda são importantes para mim; pensei que seria difícil fazer uma lista, já que pela falta de tempo alguns ficariam de fora, mas parece que minha nova condição facilitou isso também. Vou tranf… Abraça-los em seguida, entretanto só os que assim desejarem, pois conviver entre julgamentos morais será uma ameaça para mim… Para todos. Aos que não entenderem a situação, infelizmente só restará um caminho. Afinal, não posso deixá-los por aí sabendo do que vou lhes contar, e principalmente a mercê de meus novos inimigos. Ainda não sei se será difícil fazê-lo, acho que só descobrirei no momento.
Bom, é isso… já está quase na hora dele chegar e…
– Ora ora, sentado sozinho no escuro, minha criança. Se não o conhecesse tão bem, diria que está tramando algo…
Quê?!…
– Hahahah, mas eu sei muito bem que você seria… Incapaz de me fazer mal.
Presunçoso, filho da puta!
– Enfim, fico contente que esteja aqui. Você vai me acompanhar em um serviço
– Serviço?
Serviço!?
– Que serviço? E a  reunião?
Hoje é o dia da reunião do Círculo… será que eu me enganei? Ninguém nunca falta ao Círculo, seja por medo de ficar por fora de qualquer maquinação, ou ser visto como um traidor maquinando algo. Mas eu não me enganei, não é possiv…
– Não se importe com o que eu não mandei se importar. Quanto ao serviço, apenas um servo tolo com quem devo tratar pessoalmente. Há pessoas tão medíocres nesse mundo que não são capazes nem mesmo de recolherem-se à sua insignificância. Desça. Meus homens estão esperando no carro. Eu vou logo em seguida.
Maldito!!
– Sim, senhor.
Desgraçado! Não vou poder fazer nada do que planejei para hoje..
– Já estou descendo.
Estacionaram na frente do prédio, o cretino está com pressa. Esses dois parecem até agentes do Serviço Secreto esperando pelo presidente nesse SUV preto atrapalhando a porra do trânsito todo. Se não fosse por eles… se fosse só  um, eu daria um jeito… Mas apesar de toda prepotência, Victor é cauteloso o suficiente para não correr tais riscos. Os dois são de clãs diferentes tornando quase nulas as chances de uma conspiração. Victor vigia os dois, os dois vigiam Victor, e cada um vigia o outro. Sim, ele sabe bem jogar esse jogo de víboras. Mesmo eu que mal cheguei nesse mundo tenho noção do quão traiçoeiro ele é. Ele tem séculos de experiência. Quando penso nisso, consigo ver minha própria prepotência. Será um efeito natural dessa condição semi-imortal?
– Vamos!
Não faz sentido me torturar com isso agora, vou apenas observar por enquanto. Tenho no mínimo mais um mês até a próxima oportunidade… Merda! Aparentemente, aconteceu um imprevisto hoje. Algum idiota fez uma cagada tão grande que foi capaz de fazê-lo faltar à reunião do Círculo e ir pessoalmente resolver o assunto. Pensando nisso… o que será que foi? Quase tenho pena desse cara. Os dois cretinos devem saber do que se trata, afinal ele entrou no carro e só disse “vamos!”. Parece que estamos indo na direção do porto, mas ele não disse mais porra nenhuma . Por que será que tenho a sensação que também não vai me dizer se eu perguntar?
– Mergulhado em pensamentos, criança?
Porra! Que susto da desgra…
– Chegamos, vamos andando daqui.
O porto, de fato. Estamos seguindo para aquele galpão, será? O desgraçado vai continuar sem dizer nada até quando?… Mas que merda!
– Preste bastante atenção no que verá hoje, criança. Aprenda com a minha humildade.
Cínico como sempre, mas que sensação é essa? Eu senti como se se ele fosse me matar agora. Estou até ofegando sem motivo nenhum. Espera… que cheiro é esse?
– Não se deixe levar pelo poder, posição social, ou até pela sua rotina. Há assuntos que devem ser tratados pessoalmente.
O galpão está cheirando a carne, sangue… E não é qualquer carne. É humana!
– Eu espero que a partir de hoje você seja mais grato, criança mimada. Imortal ou não, meu tempo é precioso demais para me dedicar inteiramente à você.
Do que ele está falando?! Quem são essas pessoas atrás das cortinas?
– Então, preste bem atenção.
A sensação está piorando, eu mal consigo olhar pra ele… é pior que…
Não…
– Não parecem deliciosos para você?
Não…
– É isso que são. Ferramentas e alimento.  
Não…!
– Desgraçado!! Por que fez isso!?
– Ora, não se faça de tolo, criança. Não mais do que já é. Suas intenções são tão diretas e claras pra mim, quanto as notícias que leio no jornal. Eu sempre soube da possibilidade de traição. Faz parte do porque eu te tirei daquele cassino imundo, e lhe trouxe para o meu mundo. Você tem potencial, uma pedra que precisava ser lapidada para ganhar algum valor .
– Pare!!
– Lapidando. É isso que estou fazendo agora.
Pra quê essa arma… não aponta isso pra ela, filho da puta!
– Não.. não faz isso por favor
– Sua personalidade é boa, e você só precisa de experiência… e claro, saber reconhecer o seu lugar.
Não!! Se eles morrerem agora não poderei abraçá-los. Preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa…
– Por favor.. eu faço qualquer coisa
– Qualquer coisa? Que tal trocar sua imortalidade pela vida mundana deles então?
Quê?
– Uma bala na sua cabeça ou na dela? Você tem três segundos.
– Eu não poss...
– Dois.
– Para!
– Um… Hahaha!! Vai fugir?! Confesso que por essa eu não esperava!!! Vão atrás dele! Andem!
Um tiro! Foi em mim ou nela?! O que eu tô fazendo, largando eles lá assim? Eu não consigo parar de correr, nem olhar pra trás. Que merda de instinto é esse? Eu estou salivando de fome. Agora esse pânico frenético misturado a um nojo profundo de mim mesmo. No que esse desgraçado me transformou? Ou será que eu já era assim?… Ahhhhhhhhhhhhh!!! Preciso parar de pensar nisso, se não vou morrer!
...
Quantas horas?!… 4:19. Que porra de sangue é esse na minha camisa, eu levei um tiro? Não, eu não sinto nada, não é meu. Espera, eu estou no estacionamento, dentro da minivan! Como caralhos eu vim parar aqui?
Eu só me lembro nitidamente até a parte em que eu corria que nem um frouxo. Chega a parecer um sonho agora que eu acordei aqui. Quem eu quero enganar? Sonho o meu ovo! A imagem não sai da minha cabeça… Minha irmã, meu pai e a Carine presos em ganchos de açougue pelas costas, todos nus, o sangue escorrendo dos ferimentos até os dedos dos pés. Uma cena dessas e eu, mesmo que por uma fração de segundo, olhei-os realmente como pedaços de carne.
Que espécie de monstro eu virei? Um bem filho da puta eu diria, a cada minuto que passa eu me sinto menos culpado. Acho que era isso que aquele escroto queria, mas eu saí correndo como uma “criancinha” assustada. “Essa ele não previu”, hein? Pois devia! Filho de uma rapariga, desgraçado!! Não adorava me chamar de “criança”!? A culpa vai diminuir, mas o ódio que eu sinto dele… como eu fui inútil, puta que pariu!
Esquece essa merda um minuto, tenho que lembrar do resto. Minha cabeça tá a mil, como se eu tivesse acabado de… Ah, é isso. O sangue, a euforia, a sensação de poder…  eu me alimentei. Eu devo ter parado de pensar naquele instante e agi como um animal selvagem em perigo… Foco! preciso lembrar de alguma coisa… 
Eu continuei correndo em direção ao carro dele e pulei em cima do vidro da frente, para atrapalhar um pouco que eles me perseguissem . Depois acho que fugi para a área dos contêineres. E de lá? Só lembro de ouvir um  veículo grande e parei… sem pensar em absolutamente nada.. Me parece que essas memórias nem são minhas, mas essa intuição ou sei lá o quê, estava certa. Acho que só havia o motorista dentro do ônibus e somente eu no ponto. Essas memórias parecem cenas de um filme qualquer que eu só vi de relance … Entrei e vi meu reflexo nos vidros, na hora nada veio a minha mente, agora me veio na cabeça que eu parecia tão diferente quanto o Mr. Wheeler é do Mr. Walker. Me lembro de ter ficado na minha, sentado de cabeça baixa. O desgraçado do motorista deve ter me confundido com algum drogado. Veio falar alguma bosta comigo e tentou me puxar. Da sensação eu me lembro bem. Senti fome e vontade de matar. Cravei meus dentes no pescoço dele e sorvi seu sangue, de fato, com a euforia de um abstinente. A partir daí volta a ser tudo um filme desprovido de emoção em que eu pego o casaco do sujeito largado no banco do motorista, troco pelo meu empapado de sangue, desço do ônibus e sigo a pé até aqui.
4:25. Vai amanhecer já, já. Não tem como eu sair daqui. Talvez eu devesse ir pro terraço e ver o sol nascer, acabar com essa minha existência pútrida. Seria o correto a se fazer, mas não acho que tenho coragem. “Quase tenho pena desse cara” hahaha. Que imbecil que eu sou! Eu ainda tenho como me virar sozinho, mesmo com o Victor vivo, se eu tivesse salvado todo mundo não daria. Talvez a merda que eu fiz essa noite bata no ventilador e respingue na cara dele, afinal ele é responsável por mim … haha. Ou talvez alguém me encontre aqui antes que eu possa fugir. Foda-se, não tenho opção. Quem sabe um dia eu não deixo de ser um bosta e me vingo desse filho da puta?!




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