John Tyler abriu com cuidado uma pequena fresta na porta utilizando o cano da metralhadora. A porta ficava meio escondida no fundo do saguão, onde um enorme balcão ocupava mais da metade de sua visão do lugar. O clima entre os quatro homens fortemente armados estava tenso, enquanto discutiam entre si ao som do lamento de alguns dos reféns.
— Cala a boca! Cala boca ou eu explodo ela! — berrava um dos assaltantes com uma mulher que chorava muito, forçando o cano da arma contra sua cabeça e aumentando ainda mais o volume do choro.
— Não seja imbecil, Carl — interveio outro deles — A única coisa que impede aqueles malditos policiais lá fora de entrarem aqui e descarregarem sua munição na gente são esses reféns. O que acha que vai acontecer se atirar em cada um deles que abrir a porra da boca?
— Que importa esses policiais, Jame? Hein? — o primeiro homem voltou-se furioso para o outro — Mike, Fred, Pete. Todos mortos por causa de um desgraçado dentro desse prédio. Tem certeza que você ‘tá em condições de se preocupar com quem ‘tá lá fora, seu filho da puta!?
Jonh ouviu aquela discussão apreensivo. As vidas daqueles reféns dependiam de suas ações, e o tiro que levara no ombro não estava ajudando. Como um policial, situações de perigo para civis, e até mesmo para sua própria vida eram rotina. Mas aquilo era diferente...
— Escutem bem vocês três: Eu passei os últimos 8 anos enfurnado em uma maldita cela planejando esse assalto com o Mike, que gastou sua vida toda nessa desgraça de Banco. Ele agora ‘tá morto por causa de um cara qualquer! ‘Tava tudo planejado, todo esse tempo. E por causa de um cara… — o homem chamado Carl disse quase rosnando — Não existe a possibilidade de eu sair daqui sem essas joias…!
...Aqueles policiais não sabiam com o que estavam lidando. Não era um assalto qualquer. Não haveriam negociações. Ele estava sozinho.
Por alguns segundos, John viu-se cedendo à pressão, à dor e ao cansaço. Teria ele tentado deter aqueles homens se soubesse que se tratava apenas de joias? O que era aquilo se comparado à vida de todas aquelas pessoas? Cada vez mais sentia-se responsável pela situação em que se encontravam os reféns. Se não tivesse feito nada desde o começo… aqueles homens já teriam ido embora com os reféns ilesos…?
Não.
Não era hora de pensar naquilo. Pessoas corriam perigo, e ele precisava fazer alguma coisa. John despertou de seu pequeno devaneio junto com a dor latente no ombro. Flagrou-se olhando fixamente para a saída de ventilação que projetava-se no corredor escuro da saída de emergência onde se encontrava.
“É isso. Posso usar a passagem de ar para ter uma visão mais decente do salão e poder pensar num plano…”
Pôs-se rapidamente de pé, vestiu a bandoleira da arma, e apoiando os pés no corrimão da escada, alcançou a grade que fechava a saída de ar. Usando uma moeda que tinha no bolso, lentamente desparafusou a grade.
Ao tirar o terceiro parafuso, no susto pelo forma como a grade deslizou para baixo presa apenas pelo quarto parafuso, deixou escapulir um dos três que segurava. O sangue de John gelou ao ver o parafuso cair direto na escada. Cada degrau de metal em que o parafuso quicava, parecia um sino que badalava em sua cabeça, e provavelmente na de todos que estavam na tensão daquele local.
— Quem ‘tá aí? — John ouviu de dentro do salão, no que pareceu menos de um segundo de silêncio.
Mais rápido que isso foi suareação. Pulou do corrimão e preparava-se para saltar um lance inteiro de escadas quando um outro grito o paralisou.
— Para agora ou eu vou lavar esse carpete com os miolos dela! — alguém berrou detrás da porta.
Um momento um pouco mais longo de silêncio se seguiu dessa vez, até que lentamente John empurrou a porta, entrando vacilante no cômodo com o ombro ferido dificultando manter os braços erguidos. Dessa vez, pôde vislumbrar cada detalhe do local. Agora, porém, todas as atenções estavam voltadas para ele, principalmente a daquele homem que parecia ser Carl. Ele tinha um prazer sádico nos olhos fixos em John, e segurava uma refém com a arma forçada contra a cabeça da vítima. Enquanto isso, outros dois homens vinham em sua direção, provavelmente para desarmá-lo e rendê-lo.
— Prazer em conhecê-lo, defunto! — disse Carl entredentes, mudando a mira da arma da mulher, para John.
Tudo aconteceu muito rápido. Dois homens vinham com as armas descuidadosamente empunhadas em sua direção. Outro apontava a arma para ele, mas soltara a refém. Não ousaria tocar na metralhadora pendurada no pescoço, mas sua pistola estava na parte de trás da cintura.
“É isso” — pensou John — “Preciso agir já.”
Os dois homens se aproximaram, pouco mais de um metro. Mais uma vez John sentiu o sangue gelado correr-lhe a veia. Os homens o alcançaram.
“Agora!”
— Corta!! — uma voz ecoou no ar.
O mundo de John lentamente começou a se dissipar. Sentiu-se atordoado. De repente aquele lugar parecia completamente diferente. De uma cadeira posta ali perto, um homem do qual ele se esquecera gritou:
— Onde está aquele dublê? Ah, aí está você. Ande logo com isso, não temos tempo para perder com essa cena rasa. — e virando-se para John, prosseguiu — Marty, minha estrela!
Ainda meio zonzo, ele observou aquele homem que vinha em sua direção.
— Marty, você você foi ótimo!
— Eu… — tentou formar as palavras, mas logo foi interrompido
— Excelente! Eu sinto nos seus olhos como se fosse fosse John Tyler. Eu sabia que tinha feito a escolha certa assim que te vi atuando. — o homem virou-se rindo consigo mesmo — “Você não pode fazer um filme de ação” eles disseram. Há! Aqueles malditos críticos não perdem por esperar!
O homem foi deixado estático no meio do cenário enquanto todos se preocupavam com um detalhe figurino do dublê, que vestia alguns números de músculo a mais que o ator. Uma frustração o consumiu. Sentiu os olhos arderem marejados. O destemido policial Jonh Tyler não existia mais naquele momento, apenas o reles ator Marty Mayers.

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