– Para que lado vamos agora? – Indagou Alceu quando a trilha que seguiam abriu-se em duas logo a sua frente – Eu disse para você imprimir o mapa.
– Fica
tranqüilo, quando foi que a gente deixou de achar uma cachoeira por causa de
mapa? – perguntou Vinícius em tom debochado – É claro que é para esquerda, ou
nordeste se preferir.
Vinicius era
um jovem de 19 anos, um tanto magrelo e de cabelos castanhos claros, enquanto
seu colega Alceu era um pouco mais velho, 22 anos, de maior constituição e cabelos
negros. Os dois amigos que moravam em Belo-Horizonte eram “caçadores” de
cachoeiras e faziam agora sua primeira expedição a Serra da Mantiqueira, nas
proximidades da cidade de Joanópolis – SP.
– Vamos
rápido antes que a gente dê de cara com o Ermitão Judeu ou com o lobisomem –
Brincou Vinícius enquanto tomava o caminho da esquerda.
– Cidadezinha
de povo mentiroso essa, capital mundial do lobisomem – retrucou Alceu parecendo
ligeiramente indignado - E como se não bastasse isso, ainda tem esse tal de
Judeu Errante.
– É Ermitão
Judeu, não? – perguntou Vinicius.
– Não, mas tanto faz, é a mesma porcaria.
– Veja meu
caro amigo, Cachoeira dos Pretos a noroeste – Falou Vinicius apontando para a
primeira visão do filete de água escorrendo pela encosta e mostrando a exata
direção em sua bussola. – A noroeste, eu te disse que mapa é para fracos.
– Espero
nunca ter que te dizer “eu avisei”.
– Não terá!
Continuaram
a trilha que adentrava uma mata ao pé da encosta e seguia em frente por cerca
de 2 km fazendo-se obrigatória a passagem por ela. Chegaram a Cachoeira dos
Pretos bem no inicio da tarde, o sol estava escaldante, mas a copa das arvores
havia protegido-os no trajeto final. Foram seis horas de caminhada sendo duas
delas sob a proteção da mata fazendo da cachoeira um lugar de difícil acesso e
pouco visitada.
– Você
percebeu que a trilha dentro da mata ia ficando cada vez mais fácil à medida
que nos aproximávamos da cachoeira? – perguntou Vinicius parecendo um tanto
quanto preocupado.
– Percebi,
e daí? – disse Alceu com desprezo – Não me diga que...
– Parece
que vive alguém aqui – interrompeu-o – E que só usa a trilha até certo ponto,
sem nunca sair da floresta.
– Por
favor, animais também fazem trilhas naturais por passarem sempre no mesmo lugar
durante os anos – explicou Alceu, incrédulo – não vai me dizer que está
realmente com medo de lobisomens ou desse tal Judeu Errante?
– Toda
história tem seu fundo de verdade, mal acabou um período de veterinária e já está
querendo dar aula?
– Aprendi isso
com Bear Grylls¹, não na faculdade – contou rindo da situação enquanto se
lembrava das tardes assistindo ao Discovery Channel – Tudo tem uma explicação
plausível, o único modo de essa explicação chegar ao ponto de “lobisomens” é
por meio de provas concretas e não por relatos de um bando de analfabetos
pastoreados por um bando de mentirosos.
– Ok, tá
certo – Vinicius agora ria também por causa da explicação do amigo – Só espero
que quanto a isso eu que não tenha que te dizer “eu avisei”.
– Não terá.
A Cachoeira está logo ali, vamos montar a barraca.
– Esse
lugar está realmente ótimo, uma boa clareira com espaço suficiente pra barraca,
uma fogueira e longe suficiente do curso.
– Eu
percebi – respondeu Alceu com seu jeito seco de sempre.
Os dois
montaram a barraca e juntaram uma boa quantidade de lenha para noite em apenas
poucos minutos, uma habilidade adquirida já há algum tempo devido as várias
empreitadas em lugares praticamente isolados de qualquer conforto da vida
moderna.
(1) Bear Grylls é um aventureiro mundialmente conhecido por apresentar o programa "À prova de tudo" pela Discovery Channel. ___________________________________________________________________________________________________
Após deixar
tudo devidamente preparado os dois amigos aproveitaram tudo o que a natureza do
local tinha a oferecer, principalmente a Cachoeira dos Pretos com seu poço
relativamente raso, mas que deslumbrava qualquer um pela gigantesca queda de
água caudalosa rodeada pela vegetação de mata atlântica, predominante na
região.
– Muito
linda a cocheira! – Exclamou Vinicius após se banhar um pouco – É pena não dar
para mergulhar.
– Estou
ficando com frio. – Disse Alceu saindo da água logo atrás do amigo – Vamos
acender a fogueira, já estou morrendo de fome também.
– Boa
ideia, uma sopa cai bem hoje.
Alceu
acendeu o fogo usando um dos seus muitos isqueiros que levara por garantia,
pois já lhes ocorrera em outro acampamento de ficarem sem fogo quando o único
isqueiro que levara quebrou-se no seu bolso por conta de um esbarrão em uma
pedra próxima a Cachoeira da Capivara, na Serra do Cipó em Minas Gerais.
Enquanto isso Vinicius cortava algumas batatas e cenouras que trouxeram para
encorpar um pouco as sopas desidratadas que sempre os acompanhava nos
acampamentos.
– O fogo
está aceso sir. – Brincou Alceu, em
tom altivo – Vou nos servir um trago de rum enquanto preparo um magnífico traçado¹
de manga para degustarmos esta noite.
– Sapeca
aí! – Riu Vinicius estendendo a mão para pegar uma das canecas de plástico onde
o amigo serviu o rum.
Após a leve
refeição voltaram a beber o então preparado traçado de manga e fumaram o
cachimbo de Alceu que como fã de Sherlock Holmes sempre o acendia para apreciar
uma boa conversa, principalmente no campo a luz das estrelas onde não se
restava muito mais o que fazer.
– Ainda com
medo de lobisomens? – Perguntou Alceu apontando para lua que estava cheia esta
noite.
– Sempre,
essa lua está sinistra.
– Aqui no
meio do nada o medo sempre aumenta, admito que essa lua cheia me deixou tenso
também – Confessou esboçando um sorriso encavacado pronto para se transformar
em uma gargalhada.
– Viu?! Eu
sabia que você tava pagando de machão.
– A essa altura os dois já estavam completamente bêbados e choravam de rir da
situação em que se viam.
– É só um
medo inconsciente. É claro que eu continuo não acreditando nesta besteira – explicou
Alceu enquanto começava a se recompor – É como quando você se levanta de
madrugada para ir ao banheiro e acende todas as luzes da casa para se
certificar que não tem nenhum monstro lá, mesmo sabendo que é uma total
idiotice.
– Na
verdade eu procuro são ladrões quando vou ao banheiro, não existem monstros na
cidade – Disse Vinicius enquanto se debruçavam de tanto rir novamente.
– Acho
melhor irmos dormir, antes que essa estória de lobisomens tire o nosso sono –
Falou Alceu bebendo o ultimo gole da garrafa.
– Concordo.
Ainda mais agora que acabou a bebida, não há mais porque ficar acordado.
Ambos se
acomodaram na barraca debaixo de seus respectivos cobertores, pois as noites na
Serra eram muito frias, mesmo estando no final do verão e ambos extremamente
bêbados os dois amigos ainda podiam sentir calafrios que acreditaram ser
causados pela umidade devido a estarem bem próximos ao curso d’água. Poucos
minutos depois, Vinicius que era de menor constituição e por isso mais fraco
para bebida já se encontrava adormecido, enquanto Alceu ainda se perdia em
pensamentos triviais como sempre fizera antes de dormir. A noite estava
silenciosa quando de repente foi interrompida por um bramido que parecia vir de
não muito longe do acampamento. O som que parecia ser produzido por um animal
de grande porte aterrorizou-o profundamente, seus batimentos aceleraram e cada
pêlo de seu corpo se eriçava como os de um animal amedrontado.
(1) Mistura de suco com qualquer bebida alcoólica. ___________________________________________________________________________________________________
–Acorda,
você ouviu isso? – Cochichou ele por medo de ser ouvido – Acorda desgraça!
Seus
esforços para acordar o amigo foram totalmente em vão, mas após algumas
tentativas acabou dando por si pensando na idiotice que era aquilo tudo – Só pode ser um engraçadinho zuando com a
minha cara – Pensou ele.
Tomado
agora pela raiva de ser feito de idiota e a coragem imprudente proporcionada
pelo álcool ele abriu a barraca, pegou sua faca, uma pedra do tamanho de um
punho que encontrou ao chão e partiu correndo em direção ao som que antes o
aterrorizara. O bramido disforme agora parecia se transformar em uivos quase
perfeitos, mas Alceu não raciocinava mais, tomado pela adrenalina não se deu
conta de que estava agora numa trilha íngreme em meio à vegetação e nem sequer trazia
consigo uma lanterna, mas apesar disso, suas pupilas dilatadas (devido ao
susto) captavam melhor a luz do luar de uma noite praticamente sem nuvens no
céu. Correu sem parar até chegar ao fim da trilha que dava na parte superior da
cachoeira e novamente se viu paralisado pelo pânico, a poucos metros de si se
encontrava alguém, ou alguma coisa de aparência suja e esganiçada levemente
encurvado e que não mais produzia nenhum som, mas lhe encarava de maneira
ameaçadora olhando-lhe direto nos olhos e perfurando-lhe a alma. A criatura tinha
o corpo coberto de pelos acastanhados, focinho e orelhas alongados como as de
um cão, seus olhos quase dourados inspiravam medo e ódio e não passaram mais do
que um segundo fitando Alceu, como se o analisasse antes de investir contra ele.
Ainda
imóvel Alceu viu a fera investindo contra si, sentiu um arrepio dos pés a
cabeça e um imenso vazio na boca do estomago causado pelo pavor. Tudo que
pensava é que iria morrer naquele momento. Pensou que seria devorado, que
depois aconteceria o mesmo a Vinicius e ninguém jamais saberia o que aconteceu
a eles, seriam apenas um monte de estrume de uma criatura horrenda jogados
naquela mata. Sua mente estava tão ativa nesse momento que pôde imaginar tudo
isso em milésimos de segundo. Quando deu por si novamente o medo tinha se
tornado ódio, e seus músculos antes imóveis estavam decididos a agir com força
total. A mandíbula enorme do animal já estava a poucos centímetros de sua
garganta, quando Alceu acertou-lhe uma pedrada no focinho com tanta violência
que o levou ao chão. Sem dar tempo à criatura que se afogava em seu próprio
sangue, partiu contra ela com sua faca em punho perfurando-a duas vezes na
costela e mais uma no estomago. A besta mesmo gravemente ferida e atordoada
ainda pôde mostrar sua força descomunal, enterrou-lhe suas garras afiadas
rasgando seu abdome e atirando-o ao ar. Alceu nada pode fazer, nem mesmo
conseguiu sentir o sangue que escorria por seu corpo, o golpe lhe fez rolar
pelas pedras da queda da cachoeira e enquanto despencava pelos mais de quinze
metros que a separava do nível do poço apenas sentia por Vinicius que
provavelmente teria um destino parecido.
Alceu
acordou com os primeiros raios de sol batendo em seu rosto, não sabia como, mas
estava vivo. Caído sobre uma pedra ao lado da cascata com sua camisa quase toda
rasgada, um enorme ferimento na barriga, alguns menores pelo resto do corpo e
sentia que havia quebrado pelo menos uma das costelas, mas inexplicavelmente
vivo. Levantou-se com dificuldade, mas ainda conseguia caminhar, pensando no
amigo mais uma vez cambaleou-se para o acampamento o mais rápido que pode,
encontrando tudo praticamente do mesmo modo que deixou. A fogueira não mais
crepitava, a barraca continuava entreaberta como quando saiu e pra sua imensa
alegria Vinicius ainda estava lá, dormindo pesadamente como há horas atrás.
Tentando se apressar para acordar-lo e ver se realmente estava bem, acabou se
desequilibrando e caindo sobre a barraca, seus ferimentos imediatamente
começaram a doer intensamente, como se tivessem acabado de surgir em seu corpo.
Vinicius acordou de súbito, extremamente assustado e viu o amigo jogado como
alguém que acabara de voltar da guerra.
– Puta que
pariu! O que aconteceu com você?
– E-eu não
sei. – respondeu ainda em duvida se tudo aquilo que lembrava realmente veio a
acontecer.
– Como
assim você não sabe?! Você está destruído... como vamos voltar? ___________________________________________________________________________________________________
– Não
sei... volte sozinho e me traga ajuda.
– Você está
bem? Não vai morr...
– Shhhhhh!
– Interrompeu-lhe se levantando lentamente – Você ouviu um barulho vindo de lá?
– perguntou apontando para trilha que percorrera na noite anterior.
– Não...
foi alguém que te fez isso? – indagou quase que não querendo ouvir a resposta.
– Talvez – Respondeu,
voltando a caminhar em direção a trilha.
A dor
novamente desapareceu enquanto a fúria reaparecia, sentia agora um forte cheiro
estranho e isso o agitava e enfurecia cada vez mais à medida que se aproximava.
– Aqui está
o culpado – disse controlando sua ira.
Vinicius
quase congelou o sangue ao ouvir essa frase, mas lentamente caminhou para junto
do amigo e o que viu novamente fez com que um arrepio passasse por todo o seu
corpo. A visão era aterradora, caído ao chão estava um homem nu, de cabelos e
barba gigantescos e emaranhados. Além de estar imundo, cheirava a carniça e
tinha três ferimentos que ainda sangravam na altura do tronco, mas o pior de
tudo é que se encontrava consciente.
– Não
parece mais tão feroz – riu-se Alceu – Tentou descer aqui e terminar o serviço,
mas parece que eu levei a melhor na nossa contenda de ontem a noite.
– Você pode
me dizer o que aconteceu? – perguntou Vinicius transtornado – Quem é e-esse...
essa coisa?
– Você não
vai acreditar, mas acho que esse é o famoso lobisomem de Joanópolis.
– Como?!
– Isso
mesmo que você ouviu, eu o escutei uivando ontem à noite – explicou – Saí da
barraca para checar e segui o barulho por essa trilha até o topo da cachoeira. Esse
desgraçado me atacou assim que bati os olhos nele, nós lutamos, eu o esfaqueei
e ele me atirou de lá cima.
– Mas como
assim? Tem certeza que ele era um lobiso... ele está se levantado!!! – gritou
apontando para o homem nu que se apoiava em uma arvore tentando se por de pé.
– Vá buscar
a sua faca! – ordenou Alceu ao mesmo tempo em que chutou o pobre desgraçado bem
em cima da ferida com toda a força que ainda lhe restava – Eu é que vou
terminar o que comecei ontem.
Vinicius já
corria desesperado para encontrar sua faca quando o homem finalmente resolveu
falar:
– Vosmicê
nem imagina o que o aguarda, desejarás ter morrido assim que a próxima lua
cheia pairar ao céu.
– Não fique
aí parado, pegue a merda da faca – disse Alceu apenas confirmando o que já
imaginava.
– Deixe que
seu amigo parta só, a maldição já corre em vossas veias – disse enquanto
voltava a se levantar – não há mais lugar para vosmicê perante a sociedade.
Alceu
tentou chutá-lo novamente, mas desta vez o homem segurou sua perna e o jogou ao
chão com uma força inferior a que demonstrara na noite anterior, mas ainda
assim bem superior a de uma pessoa comum.
– Tire as
mãos dele! – berrou Vinicius agora com a faca em punho, mas ainda apavorado.
– Junte
vossas coisas, despeça-se de vosso amigo e esqueça-se de tudo – falou o homem à
Vinicius e finalmente pondo-se de pé – Pois ele só sairá daqui por cima de meu
cadáver.
Alceu
levantou-se o mais rápido que conseguiu e pôs-se de frente ao homem. A menos de
dois metros um do outro os dois começaram a se entreolhar com imensa fúria nos
olhos, como animais preparados para o ataque.
– Então eu
vou mesmo me transformar em lobisomem?
– Sim.
– Quem foi
que fez isso a você? ___________________________________________________________________________________________________
– Não sei
dizer-lhe, matei a criatura que transformou-se em homem após a morte em uma
caçada que empenhei ao norte da Grécia.
– Há quanto
tempo vive aqui?
– Já não
conto mais os anos de minha desgraça, mas me chamo José de Alvarenga Tavares
Filho, nascido em três de Março de 1839 e vivo nesta selva desde meus 38 anos.
– Por que
me atacou ontem a noite?
– Não
possuo total controle de meus atos quando me encontro naquela monstruosa forma
bestial, mas não ataco ninguém a muito tempo, vosmicê é quem foi atrás do que
não devias.
– Não irá
mesmo me deixar sair daqui?
– Sobre
nenhuma hipótese.
Neste
momento a tensão que parecia pairar no ar em volta deles se tornou ainda mais
densa, não sofreram nenhuma mudança física, mas o olhar que lançavam um para o
outro claramente não era humano. O instinto animal parecia falar mais alto
dentro deles, qualquer um que pudesse vislumbrar a cena saberia que estavam
prestes a se atacar, e foi isso que fez com que Vinicius atirasse a faca que
segurava, fincando-a no chão bem ao lado de Alceu. O jovem arrancou-a do solo e
numa velocidade incrível partiram um contra o outro, mas não houve o que se
possa chamar de luta, em menos de um segundo o homem nu encontrava-se caído
novamente, desta vez com uma faca de dez centímetros atravessada em sua cabeça
logo acima da orelha.
Voltaram
para casa na mesma manhã quando os ferimentos de Alceu já se encontravam quase
completamente curados, o que concluíram ser causado pela licantropia. Por mais
incrível que possa parecer os dois não comentaram sobre o acontecido com mais
ninguém, mas o assunto se tornou o tópico principal de suas conversas daquele
mês, pois a transformação eminente era algo preocupante e se reuniam no pequeno
quarto de Vinicius todos os dias para discuti-lo:
– Preciso
saber mais sobre isso, o problema é que não posso simplesmente ir ao médico e
mesmo mostrar uma amostra de sangue minha pra qualquer um levantaria suspeitas.
– Não
encontrou nada parecido com o que estava no seu sangue ainda?
– Não, mas
nem consigo identificar o “vírus” em todas as amostras – respondeu Alceu
enquanto refletia – Eu estou no segundo período, nem tenho certeza de que é
mesmo um vírus e quase não me dão oportunidade de usar o laboratório sozinho.
– Nesse
caso, já conseguiu os tranqüilizantes? Falta apenas uma semana pra lua cheia.
– Vou
roubá-los amanhã depois da aula – disse ainda perdido em seus pensamentos.
– Você nem
deveria estar tão preocupado, se os tranqüilizantes funcionarem bem ninguém
precisará saber.
– São sete
noites a menos na minha vida todo mês e com o tempo os tranqüilizantes vão
parar de fazer efeito.
– Na minha
também – riu-se Vinicius – Vou ter que velar o seu sono e nem ganhei poderes de
lobo por isso.
– É, ter
“habilidades” mesmo não estando transformado têm sido tr00¹, já estou
levantando mais de 120 kg, torça pra que funcionem mesmo.
– Sem falar
no faro, audição, vigor, e velocidade aumentados também – disse Vinicius
enumerando a lista de vantagens de ser um lobisomem, fazendo o caso parecer uma
dádiva.
– Você se
esqueceu do fator-de-cura e de que eu me tornei praticamente o líder de
qualquer matilha de cães do mundo – completou enquanto ria do otimismo do
amigo.
– É... até
isso, aquele velho do Yoda não respeitava mais ninguém – disse Vinicius
referindo-se ao seu cão de estimação.
– Por fala r
nisso estava pensando em isolar o vírus do meu sangue e injetar em algum
cachorro – comentou Alceu, revelando os pensamentos que o distraíam minutos
atrás – Aí poderia mostrar pra algum professor. (1) Tr00 é uma gíria para "legal" ___________________________________________________________________________________________________
– No Yoda
não, né?! Eu não quero um cachorrozomem!
– Claro que
não! Tem um Mastim Napolitano¹ velhaço que um professor encontrou na rua e está
cuidando dele lá na universidade.
– Você não
era contra experimento em animais? Vai fazer o que com ele depois se ele se
transformar também?
– Se eu
fizer isso nem vai estar em minhas mãos o que vai acontecer com ele, esse é o
problema. Vou pensar mais no assunto.
– Toma
cuidado, se alguém desconfiar de onde veio a “doença” do cão você está fudido.
– Eu sei,
não esquenta – disse com ar mais preocupado do que gostaria – Vou indo nessa,
tenho que acordar cedo amanhã e ver se consigo um tempo sozinho no laboratório
antes da aula.
– Vai lá,
está aberto o portão. Falou!
– Falou! –
despediu-se enquanto já abria a porta do quarto.
Alceu se
dirigiu ao ponto de ônibus em passos largos, estava muito ansioso para chegar a
seu dormitório no campus da faculdade. Deixara de morar com sua mãe no mesmo
bairro do amigo Vinicius desde o início do primeiro período e isso agora se
tornara uma vantagem ainda maior, pois conseguiria acesso ao laboratório e tudo
mais que precisaria facilmente.
Chegou ao
campus por volta de meia noite, cumprimentou o porteiro como de costume e se
apressou para seu dormitório que por sorte havia se tornado individual, graças
à desistência do aluno que o dividira com ele até meados do primeiro semestre. Porém
assim que chegou a sua porta, antes mesmo que pudesse destrancá-la sentiu uma
presença estranha que o observava, tão logo seu faro e audição aguçados
começaram a agir constatou que não era uma pessoa, mas sim um grande animal e
com certeza macho. Lembrou-se imediatamente do confronto com a fera a menos de
um mês atrás e quase entrou em pânico por isso, quando de repente viu uma
silhueta quadrúpede passando por umas das ruelas escuras que separavam as
construções dos dormitórios. Não pode ter certeza sobre o que vira, mas sabia
que fosse o que fosse também estava tão atordoado e amedrontado quanto ele,
pois agora podia captar no ar esse tipo de sensação. Tomou coragem, destrancou
a porta e pegou a faca que Vinicius lhe dera para matar o lobisomem de
Joanópolis e quando corria para a porta novamente deu cara com o velho cão
Mastim ao qual tinha comentado com o amigo mais cedo. Tomou um grande susto a
principio, mas teve um imenso alivio logo a seguir ao ver que tudo não passou
de um mal entendido, o cão que também estava um tanto quanto ressabiado logo se
desarmou também ao ver a nova expressão no rosto de Alceu e caminhou com seus
passos pesados e rabo abanando em direção a ele como quem quer demonstrar um
gesto de paz.
– Você me
assustou em Thor! – disse acariciando a cabeça do enorme cão, de maneira comum
como um dono faz com seu animal de estimação – É Thor seu nome, não é grandão?
– Vem, vou
te levar de volta pro canil – chamou-o com estalar de dedos, rapidamente
obedecido.
Alceu saiu
então com o cão caminhando obedientemente ao seu lado em direção ao prédio do
campus para levá-lo de volta ao pequeno canil do laboratório de Cinologia².
Chegou até portaria do prédio que também possuía um vigia noturno caso
acontecesse alguma emergência durante a noite fora o período de aulas.
– O que
está fazendo aqui há essa hora com esse cachorro garoto? – indagou o vigia.
– Esse
cachorro é o que o professor Fernando estava mantendo no laboratório –
respondeu, percebendo só agora a oportunidade que tinha nas mãos – Parece que
ele fugiu, estava rodando na área dos dormitórios.
– Ah, sim –
disse o vigia se levantando da cadeira onde estava sentado para verificar
melhor o animal – Bem que estranhei o silencio de hoje, quase todas as noites
ele faz um escândalo.
(1) Imagem (2) Estudo científico dos cães ___________________________________________________________________________________________________
– Foi uma
sorte eu tê-lo encontrado – maliciou Alceu – Ele pode ser agressivo, mas já
está acostumado comigo, se fosse outro a encontrá-lo por aí...
– Ele é bem
grande não?! – impressionou-se o vigia – Eu não vou levá-lo pra dentro sem
coleira e focinheira.
– Se você quiser,
eu o levo – falou acariciando o cão novamente – Ele está um tanto inquieto,
acho que está com fome também.
– Eu não
deveria fazer isso, mas se você não contar nada pra ninguém não terá problema –
disse o homem parecendo mais aliviado do que preocupado.
– Pode
ficar tranqüilo quanto a isso – Alceu ria-se por dentro nesse momento – Vou
demorar um pouco para alimentá-lo, ele está participando de um experimento só
está comendo uma ração especial.
– Sem
problema – disse entregando-lhe a chave do laboratório e abrindo a portaria –
Obrigado viu garoto.
– Não é
nada, que isso – falou quase pelo canto da boca, tendo que se segurar pra não
rir dessa vez – Eu adoro o Thor.
Levou o cão
o mais rápido que pode para o laboratório, deu-lhe um pouco de ração que de
especial não tinha nada a não ser por ser feita para cães idosos, mas de uma
marca totalmente comum. Aproveitou o tempo para roubar os tranqüilizantes que
precisaria para as noites de transformação e depois disso passou a fitar Thor
enquanto esse continuava a comer.
– Me
desculpe amigão – disse ele sentindo-se um monstro pelo o que estava prestes a
fazer – Mas eu prometo que vou fazer o que puder pra te manter a salvo.
Após esses
segundos de reflexão, voltou-se para o laboratório e começou a trabalhar, pois
precisava ser rápido. Retirou algumas novas amostras de sangue e começou a
analisá-las a procura do suposto vírus novamente. Tinha decidido em sua mente
que uma oportunidade como essa não se desperdiça e iria aplicar o material no
cão. Levou pouco menos de uma hora pra completar o processo de isolamento do vírus
e aplicá-lo em Thor que estava dormindo no canil e mal sentira a picada da
agulha, retirou antes uma amostra de sangue do cão onde o aplicou diretamente e
guardou-o na geladeira de amostras. Caminhou de volta para a saída do prédio e
não estava mais tão satisfeito com o que fez como quando percebeu a
oportunidade de enganar o vigia, mas decidira que se algo de mal acontecesse ao
animal ele também se acusaria como portador do vírus e sofreria as mesmas
conseqüências. Encontrou o homem dormindo e com passos muito leves colocou a
chave no lugar e saiu sem lhe incomodar, voltou ao seu dormitório para
finalmente se deitar, mas sua consciência pesada só o deixou pegar no sono
horas depois.
Acordou no
dia seguinte um pouco atrasado para primeira aula, devido as poucas horas mal
dormidas que tivera. Mesmo já tendo feito tudo que planejara na noite anterior,
ainda assim apressou-se em se vestir e correr para o campus, pois o primeiro horário
do dia era justamente de Cinologia com o professor Fernando. Entrou na sala de
aula cerca de dez minutos atrasado, mas por sorte a maioria dos alunos se
concentrava em algum exercício teórico qualquer enquanto o professor passava
seu tempo corrigindo alguns trabalhos entregues na semana retrasada, então
Alceu não perdeu tempo e logo o interrompeu.
– Professor...
– Bom dia
Alceu, vá se sentar e faça o exercício do final do capitulo doze – respondendo
sem sequer tirar os olhos dos papeis nos quais estava focado – São matéria de
prova.
Dr.
Fernando tinha um ar um pouco carrancudo principalmente devido ao aspecto sério
que sua barba e cabelos negros e alinhados passavam, mas na verdade era um
sujeito muito agradável e o professor favorito de Alceu. Tinha pouco mais de
quarenta anos e um bom porte físico, pois também costumava fazer muitas
expedições de camping e era um exímio treinador de agility¹. Fora
ele que encontrara Thor vagando sozinho próximo ao campus a cerca de um mês
atrás. (1) Agility é um esporte para cães onde ele percorre uma pista com obstáculos. ___________________________________________________________________________________________________
– Bom dia
também professor – falou um pouco constrangido – Mas é que eu preciso conversar
com o Sr. Em particular, será que tem um minuto?
– Sobre o
que? – Estranhou o professor, dessa vez voltando-se para ele enquanto retirava
seus redondos óculos de leitura.
– Sobre o
Thor.
– Nossa, é
mesmo! Eu pedi para Elis dar um banho nele ontem e prende-lo no estacionamento
por alguns minutos até se secar...
– Fique
tranqüilo professor, ele está bem – interrompeu-o – Eu o encontrei ontem.
– Que
alivio! Você sabe, ele não está doente, mas está muito velho – respondeu
realmente aliviado – Eu me esqueci completamente de ir buscá-lo, ele poderia
ter morrido por ficar a tarde toda de baixo de sol e sem água.
Alceu nem
sequer havia parado para pensar sobre como Thor poderia ter ido parar na ala
dos dormitórios, mas mais uma vez viu uma oportunidade de tirar vantagem sobre
isso. Presumiu que o cão conseguira se soltar sozinho da coleira, mas ninguém
precisaria saber disso.
– Pois é,
eu o encontrei lá “amarrado” – mentiu ele esperando conseguir uma maior
gratidão e boa vontade do professor – Foi realmente uma sorte.
– Mas ele
está bem mesmo? – indagou ainda um pouco preocupado – Onde ele está?
–
Exatamente sobre isso que eu quero lhe falar, mas em particular, por favor.
– Claro! –
disse o professor leventando-se rapidamente – Vamos até o laboratório, mas o
que seria exatamente?
– O
laboratório é perfeito – riu-se, pensando na imensa sorte que aquele pobre cão
lhe trouxera – É melhor que conversemos tudo lá.
– Você está
me assustando garoto – respondeu com um olhar claramente desconfiado – Mas tudo
bem, vamos.
Alceu nada
respondeu e caminharam em completo silêncio pelos corredores da universidade
até chegarem, pois ele mesmo não sabia o estado do animal nesse momento. Pensou
que foi realmente uma sorte o professor chamá-lo para conversar no laboratório,
pois assim poderia averiguar a situação antes de dizer qualquer coisa, mas
assim que o professor destrancou a porta ouviu uma exclamação que lhe gelou o
sangue:
– Não
acredito!
Sentiu uma
profunda vontade de sair correndo de lá e nunca mais voltar, até que ouviu
outro som que lhe aliviou imediatamente:
– AUU!!!
Nunca tinha
o ouvido antes, pois Mastins Napolitanos raramente latem, ainda mais um tão
velho, mas esse fora um tímido, porém forte latido de Thor. Imediatamente
identificou o forte cheiro do cão, sentiu-se idiota por isso, estava tão
nervoso que se esqueceu que podia tê-lo feito muito antes de o professor abrir
a porta.
– Como você
o trouxe aqui? – perguntou Fernando correndo para soltar Thor que animava-se
muito ao vê-los – Te deixaram entrar sozinho?
– Sim –
respondeu finalmente entrando no laboratório – Esse foi um dos motivos para eu
lhe falar em particular, sei que é proibido.
– Não se
preocupe com isso – disse o professor parecendo um pouco distraído com o cão –
Eu estou muito grato de verdade, não vou contar a ninguém.
– Eu disse
que esse é um dos motivos – completou.
– Ah,
sim... – disse voltando-se para ele com um ar claramente curioso.
Alceu
virou-se para o cão por alguns segundos antes de começar a falar, parecia-se
que Thor estava incrivelmente mais jovial o que só podia ser associado a uma
coisa: o vírus.
– Quando eu
encontrei o Thor, ele me pareceu um tanto diferente – expressou-se finalmente.
– Diferente
como? – interrompeu-o o professor. ___________________________________________________________________________________________________
– Eu
desconfiei que não fosse ele, pois parecia muito mais jovem – respondeu – Então
mesmo encontrando o canil vazio eu resolvi fazer um exame de DNA usando as
primeiras amostras que o senhor tirou.
– Não era
necessário – riu-se o professor – O Thor possui uma pequena cicatriz aqui
abaixo do queixo. E ele mesmo com toda certeza, e você ainda não está apto pra
determinar um exame assim.
– Eu sei –
disse fingindo constrangimento – Mas eu acabei encontrando algo muito estranho
no seu sangue.
– Deve ser
apenas uma bactéria comum Alceu – disse rindo novamente – Você está no segundo
período, ainda é muito cedo para exames detalhados.
– Tem uma
amostra do sangue dele na geladeira – insistiu – Acho melhor você analisar, mas
tenho quase certeza que seja um vírus de contagio sanguíneo e não uma bactéria.
– Deve
estar enganado – continuou Fernando – Mas vou checar por via das duvidas, volte
pra sala e diga a todos que eu tirarei qualquer duvida na próxima aula.
– Mas...
– Sem mais
– interrompeu-o com um tom de voz bastante sério – Meu horário já está quase
acabando e você tem de ir pra próxima aula.
– Okay
então, mas me mantém informado? – falou decidindo não abusar tanto a sorte.
– Claro,
mais tarde eu te procuro.
– Até então
– disse saindo do recinto
Passou o
resto do dia inquieto pensando no que daria a avaliação do professor. Assistiu
a todas as aulas do dia, mas estava apenas de corpo presente, sua mente não
parava de pensar sobre o assunto. Já se passavam das 17h quando terminou o
ultimo tempo e o professor ainda não o havia procurado, juntou seu material
apressadamente e já se preparava para correr até o laboratório novamente quando
ao passar pela porta se deparou com Fernando.
– Garoto! –
exclamou Fernando parecendo animadíssimo – Você não faz ideia do que descobriu!
Ah, você é que não faz – pensou
– É
realmente um vírus, mas um que tenho quase certeza que não está catalogado –
continuou o professor.
– Foi o que
eu disse – respondeu com ar narcisista como se tivesse acabado de ouvir “você é
o melhor aluno do segundo período” – Mas e então?
– Ainda
temos muito o que pesquisar, mas parece que você estava certo em outro ponto
também.
– O vírus
está rejuvenescendo o Thor – afirmou Alceu ainda mais cheio de si dessa vez.
–
Exatamente! – disse Fernando parecendo tão impressionado quanto Alceu estava
imodesto – O vírus é aparentemente benigno e está acelerando o processo de
rejuvenescimento das células do Thor de maneira incrível!
– Eu...
– Não se
preocupe, eu já informei à reitoria que você vai participar das pesquisas
comigo – falou Fernando já prevendo o que rapaz iria perguntar – Estou
realmente impressionado com você rapaz, não é comum para um aluno do segundo
período todo esse conhecimento.
– Obrigado
– riu Alceu agora não se agüentando mais de tanta vaidade – Quando começamos
então?
– Faltam
alguns processos burocráticos ainda, mas eu te aviso – respondeu o empolgado
mestre – Vão participar também a professora Elis de Parasitologia e uma aluna
do quinto período, a Anita conhece?
– Não –
respondeu empolgado, praticamente esquecendo-se do principal objetivo de seu
plano – Espero que ela seja bonita. ___________________________________________________________________________________________________
– Ela é
sim, mas melhor, ela é inteligente – respondeu rindo da espontaneidade de Alceu
– Ah, já ia me esquecendo... Mandei um e-mail para o professor Ingmar Bergman da Universidade de
Estocolmo convidando-o para participar também.
– E quem
seria esse?
– Esse meu
caro aluno é um dos mais renomados especialistas em Cinologia do mundo – respondeu
Fernando quase que indignado pela pergunta feita – E digo mais, se ele aceitar
tenho certeza que terminaremos as pesquisas na metade do tempo.
– De onde
ele é? – perguntou agora animando-se quase tanto quanto o professor.
– Ele é
sueco. Como eu disse, ele leciona em Estocolmo – respondeu afavelmente para não
parecer ter chamado o aluno de ignorante – Ele tem uma viagem marcada pro
semestre que vem aqui no Brasil, não passaria em Belo-Horizonte, mas estou
confiante de que mudará de ideia.
–
Professor! – disse Alceu apertando a mão do mestre – Muito obrigado, estou
ansioso pra começarmos!
– Eu
também, essa descoberta pode revolucionar o mundo – comentou empolgadíssimo –
Mas não me agradeça, a descoberta é sua.
Alceu
passou o resto da semana revezado entre a universidade e a casa de Vinicius,
pois mesmo com todas as boas novidades ainda seriam inevitáveis as suas
primeiras transformações. A primeira noite de lua cheia desde que foi mordido
seria no próximo sábado e os dois faziam os preparativos na garagem da casa de
Vinicius que já possuía isolamento acústico devido à época em que eles e mais
dois amigos haviam formado uma banda e ensaiavam sempre no local. Já era quinta-feira
e estava tudo preparado, compraram cordas e correntes para amarrá-lo e até uma
pistola de dardos para que Vinicius pudesse lhe aplicar mais tranqüilizantes
sem chegar muito perto caso fosse necessário. O que lhes restava a fazer era
apenas esperar e torcer para que o isolamento da garagem abafasse seus uivos e
urros, pois Vinicius morava com a mãe e o irmão mais velho. Na universidade
recebeu poucas noticias durante toda a semana até na sexta-feira de manhã
(véspera da transformação), quando assistia a uma aula de Bioquímica que foi
interrompida pelo professor Fernando para lhe dar as boas novas:
– Desculpe
Michael – disse Fernando dando três batidinhas na porta que estava aberta – Eu
posso roubar o Alceu por hoje?
– Eu estou
explicando matéria de prova agora – disse o relativamente jovem professor
Michael, que tinha a aparência de um garoto nerd apesar dos seus vinte e sete
anos – É importante?
– É sim,
ele vai iniciar uma pesquisa comigo – disse sorrindo para Alceu – No almoço eu
passo pra você e os outros professores o novo horário dele e o documento de
autorização.
– Se é
assim – falou Michael passando a mão no seu emaranhando cabelo castanho – Não é
comum dar pesquisas para alunos do segundo período, mas pode ir então.
– Obrigado
professor – referiu-se Alceu a Michael, enquanto já corria para fora da sala –
Depois eu pego a matéria com alguém.
– Tenho
ótimas novidades – contou Fernando dando-lhe tapinhas ao ombro quando passava
pela porta – Não te disse nada antes, pois queria que fosse surpresa.
– O que é?!
– perguntou animado.
– O Dr. Ingmar Bergman não só aceitou o meu convite, como já está aqui na
universidade – contou sorrindo – Nós só vamos iniciar as pesquisas
segunda-feira, mas ele quis te conhecer hoje.
– Agora?!
– É claro –
respondeu abrindo ainda mais o sorriso – Ele e o restante da equipe estão no
laboratório agora.
– Mas ele
fala português? – perguntou bastante intrigado se poderia interagir com o Dr.
da maneira que gostaria. ___________________________________________________________________________________________________
– Tem o
sotaque carregado, mas fala sim – disse dobrando o corredor do laboratório –
Você verá, vamos!
Assim que
chegaram e Fernando abriu a porta Alceu pôde ver que estavam todos entretidos
em alguma conversa, mas calaram-se assim que viram-no entrando.
– Deixe eu
te apresentar – anunciou Fernando antes que o silencio se tornasse
constrangedor.
– A
professora Elis você já conhece, não é?
– Tudo bem Alceu? – indagou a
Dra. Ajeitando seu pequeno óculos, ela assim como Fernando aparentava ter por
volta dos quarenta anos e tinha cabelos negros na altura dos ombros.
– Anita – falou novamente o
professor dessa vez apontando para uma linda jovem de cabelos castanhos formando
uma trança e provocantes olhos muito verdes – Aluna do quinto período.
– E
finalmente o Dr. Ingmar Bergman – esse por sua vez um
sujeito bastante exótico para um professor, tinha no mínimo 1,90 de altura, um
porte bastante robusto, possuía cabelos e barba bem loiros dando-lhe um aspecto
de um viking asseado.
– Bom dia a
todos – disse Alceu cumprimentando-os apenas com aceno de mão um tanto
acanhado.
– Não
precisa ficar constrangido garoto – falou o Dr. com seu forte sotaque sueco,
apertando-lhe a mão – Você é que é a estrela por aqui.
– Que isso
– falou em tom cabisbaixo agora lembrando-se mais da licantropia e de como
conseguira tudo aquilo – Cedo ou tarde o professor Fernando teria feito algum
exame no Thor e descobriria.
– O Thor
nem estaria vivo se fosse por mim Alceu – respondeu prontamente o professor –
Você não me parece muito bem hoje, aconteceu alguma coisa?
– Só alguns
problemas pessoais – disse Alceu desconversando e tentando parecer mais animado
– Não se importem com isso.
– Se você
estiver precisando espairecer eu aluguei um sitio na região pra passar minha
estadia aqui – manifestou-se o Dr. Ingmar – Trouxe comigo meus quatro cães, não
consigo ficar sem eles por muito tempo.
– Estão
todos convidados para passarem o fim de semana conosco – continuou o Dr. – São
quatro belíssimos Wolfdogs¹, vocês vão adorá-los.
– Bom, eu e
a Elis temos reunião pedagógica aqui na universidade amanhã – falou Fernando
respondendo pelos dois – Mas os garotos podem ir.
– Eu não
sei – pronunciou-se Anita pela primeira vez – Acho um pouco estranho ir
sozinha, você vai Alceu?
– Eu tenho
um compromisso amanhã a noite – um inadiável encontro com a lua cheia, pensou –
Não vou poder, sorry².
– Eu posso
mandar um carro buscá-los e levá-los se quiserem – prontificou-se o Dr. – Por
favor, não precisam de cerimônia comigo.
A garota
virou-se imediatamente para Alceu como quem espera por uma resposta. Ele percebeu
de imediato que cometera o erro de dizer que só estaria ocupado a noite e
ficara praticamente sem saída. A verdade, no entanto, era que no fundo gostaria
de aceitar e o fato de Anita desejar sua presença só o fez querer ainda mais.
– Tá certo
então – concordou tolamente, como os homens sempre fazem manipulados por um
doce olhar feminino – Posso sair a qualquer hora da manhã, mas preciso estar na
casa de um amigo até as 16h.
– Tão cedo?
– indagou o Dr. abrindo um sorriso – Seu compromisso não era a noite? Você não
está com medo do escuro, está?
– Claro que
não – respondeu lembrando-se da noite em que fora “infectado” – Eu acampo em
quase todas as férias Dr.
– Que bom –
prosseguiu sorridente – Onde passou as férias do mês passado?
(1)Imagem (2) "Sorry" ao pé da letra é "Me desculpe" em inglês ___________________________________________________________________________________________________
– Em Joanópolis, você não deve
conhecer – disse um pouco alheio.
– Conheço
sim – gargalhou Ingmar – Já estive na Serra da Mantiqueira em uma pesquisa com
lobos guará.
– Não sabia
que já conhecia o Brasil Dr. – manifestou-se Elis.
– Já fazem
anos, foi na ocasião que aprendi o português – respondeu rapidamente – Bom, eu
já tenho que ir, mando pegar vocês as 7h?
– Pode ser
– Falaram Anita e Alceu ao mesmo tempo.
– Foi um
prazer conhecê-los – despediu-se o Dr. apertando a mão de cada um.
–
Principalmente você Alceu – o rapaz estendeu a mão para cumprimentá-lo mais uma
vez, mas quando o Dr. virava-se para ele acabou por esbarrar num pequeno
bisturi que se encontrava em cima da bancada.
– Ai! –
exclamou Alceu ao sentir o bisturi que caiu sobre sua mão.
– Me perdoe!
– desculpou-se instintivamente o Dr. – Isso estava esterilizado, não?
– Claro que
sim – acalmou-o Fernando.
– Tome –
disse Ingmar entregando um lenço a Alceu – Estanque com isso.
– Não foi
nada – falou Alceu rispidamente, pensando no vírus que corria em suas veias.
– Deixe-me
limpar isso – precipitou-se o Dr. pegando um segundo lenço de papel e secando
algumas gotinhas vermelhas no chão.
Alceu
sentiu-se imensamente incomodado, ainda não havia se dado conta de que seu
sangue era basicamente um veneno perigosíssimo. Seguiu com os olhos o Dr. que
caminhou até a lixeira e jogou fora aquele pequeno pedaço de papel sem nem
imaginar o que realmente continha nele. Sabia que não poderia fazer nada a
respeito se quisesse manter intacto seu segredo e além do mais aquilo não era
nenhuma tragédia, mas deveria tomar mais cuidado a partir de agora.
– Até mais
novamente – repetiu-se Ingmar dessa vez sem aperto de mãos – E me desculpe
mesmo rapaz.
– Não foi
nada – mentiu Alceu.
Todos se
despediram e seguiram seus rumos separadamente enquanto Fernando trancava o
laboratório. Alceu decidiu não assistir o restante das aulas do dia, já que
estava muito alheio pensando em coisas mais importantes do que Bioquímica ou
seja lá que matéria tivesse. Passou o
resto do dia em seu dormitório já que os preparativos para sua transformação já
estavam prontos e não precisava ir à casa de Vinicius até a próxima noite.
Demorou-se bastante a dormir imaginando como seria o sítio em que o estranho
sueco com cara de viking estava hospedado, não conseguia parar de pensar no
sujeito trajando roupas nórdicas ao lado de seus quatro cães-lobo em uma
planície coberta de neve. Pregou os olhos já bem tarde da noite apenas depois
dos milhares de devaneios que tivera saírem de sua cabeça, mas acabou acordando
bem cedo no dia seguinte, pois ainda se encontrava bastante preocupado. Sentia
uma angustia enorme crescer dentro do seu peito, às vezes até imaginava que
estava se transformando antes da hora tamanha era sua preocupação, mas tudo não
passava de um sentimento de medo tão grande que ele nem mesmo não o reconhecia
com tal. Pensou em desistir de ir para o tal sítio várias vezes – e se algo der errado e eu tiver que passar a
noite lá? – mas às 7h em ponto alguém bateu a sua porta:
– Bom dia
Alceu – era o porteiro do campus – Tem um motorista esperando você lá na
portaria.
– Obrigado
Élcio – disse lembrando o nome do sujeito – Peça pra ele esperar um pouco,
estou acabando de me vestir.
Apressou-se
em colocar uma roupa mais apresentável e correu até portaria o mais rápido
possível. Apenas cumprimentou cordialmente o motorista ao entrar no carro, mas
passara todo o percurso da viagem calado. Continuava a pensar em todo o tipo de
tragédia que poderia acontecer por ele estar indo ao tal sítio, sua mente
estava tão ocupada que se manteve entretido por todo o percurso sem nem se dar
conta de que passara pouco mais de uma hora quando finalmente chegaram. ___________________________________________________________________________________________________
– É aqui
senhor – disse o motorista parando em frente a um grande portão de grades
situado na estrada de terra que percorriam no momento – O Dr. disse que você
pode subir.
– Pensei
que fosse o motorista particular dele – estranhou Alceu, pois o motorista
também apresentava um sotaque estranho – Não vai subir?
– Não
senhor – respondeu – Sou motorista dele, mas tenho outros afazeres imediatos.
Alceu não
disse mais nada, apenas desceu do carro e subiu a rampa que dava acesso ao
sítio, que por sinal era lindíssimo. Havia um grande chalé de madeira ao fundo
de um verde gramado ao qual estava situada a piscina e vários pomares, dava pra
se ver também outro pequeno portão de grade mais adiante que dava acesso a uma
área com árvores maiores e não tão bem cuidadas quanto às da entrada. Percorreu
o campo por uma pequena estradinha de pedra que passava ao lado da piscina e
não viu nenhum sinal do Dr. Ingmar, resolvendo então prosseguir até a casa.
Subiu os poucos degraus que davam ao hall e viu pelo vidro da porta o rosto do
Dr. que o encarava, mas antes que pudesse virar a maçaneta ouviu um forte
estrondo e foi atirado para trás caindo de costas no chão.
– Bom dia
garoto lobo – cumprimentou-o sarcasticamente o Dr., que abriu a porta enquanto
recarregava uma escopeta calibre 12 que trazia na mão – Não se preocupe foi
apenas um tiro de sal.
– Seu
bastardo – retrucou Alceu percebendo agora seu abdome baleado – Por que você
fez isso?
– Não se
finja de bobo – o imenso homem agora começava a arrastá-lo pelos pés com imensa
facilidade – Eu fiz um pequeno exame no seu sangue.
– O lenço!
– a angustia de minutos atrás tinha sumido, os instintos falavam mais alto
nesse momento e tudo o que desejava era estraçalhar aquele maldito sueco com
cara de viking.
– Você deve
estar curios... – dizia o Dr. quando foi interrompido por um bote inesperado de
Alceu que o puxou pelo braço subitamente e atirou-o porta fora com uma força
descomunal.
– Eu estou
muito curioso sim – retrucou levantando-se quase completamente recuperado do
tiro – Mas acho que vou deixar pra saber na outra vida quando a gente se
reencontrar.
– Eu não
previ que você pudesse se curar sem estar transformado – riu-se Ingmar – Mas a
escopeta não foi a única coisa que preparei pra você hoje.
– Fenrir!!!
– gritou ele com seu sotaque sueco que fez com que Alceu não compreendesse a
palavra, mesmo conhecendo-a bem.
Um
monstruoso Wolfdog pulou por cima do pequeno portão ao lado do chalé e passou
para trás do Dr. encarando Alceu.
– Fenrir? –
disse Alceu confiante de que o animal não o atacaria – O lobo gigante nórdico,
muito apropriado.
Ele partiu
contra Ingmar com uma fúria selvagem digna de um animal, mas ao contrario do
que previu o imenso animal atacou-o de imediato atirando-o ao chão mais uma
vez. O enorme cão mordeu-lhe no braço com uma força incrível que triturou seus
ossos e estava agora a chacoalhá-lo, fazendo movimentos bruscos com cabeça
típico dos lobos. O Dr. levantou-se rapidamente e correu para o chalé em busca
de sua escopeta, teve tempo suficiente ainda para trocar sua munição antes de
dar a ordem para que o Wolfdog soltasse Alceu.
– Frigöra¹! –
bravejou em sueco para que o cão o soltasse – Não é tão durão assim eim menino
lobo.
Quando
Fenrir soltou Alceu, este já estava desacordado, certamente desmaiou devido a
dor de ter os ossos prençados pelos enormes dentes do cão. Deu por si novamente
dentro de uma especie de porão, estava trancado em uma jaula de groças barras
de ferro e acorrentado a parede pelos braços e pernas. Ainda estava um pouco atordoado
e viu que seu braço
não estava mais em carne viva, mas seus ossos ainda estavam quebrados e doiam
de maneira desmedida. (1) "Frigöra" significa "Solte" em Sueco. ___________________________________________________________________________________________________
– Acordou
menino lobo? – Dr. Ingmar estava a sua frente sentado em uma cadeira com seu
enorme cão ao seu lado e a escopeta ao colo – Quer saber agora como eu descobri
seu segredinho, ou ainda prefere deixar para a outra vida?
– O que
você quer comigo? – perguntou Alceu recobrando os sentidos lentamente.
– Matá-lo é
claro – respondeu o Dr. dando batidinhas na arma em seu colo – Você é um perigo
para a sociedade, o que estava pensando quando contaminou aquele cão?
– Não sei –
disse sorrindo, agora pensando em todas as idiotices que fez – Me curar talvez.
– E se o
Thor se transformasse dentro daquela universidade cheia de alunos?! –
exasperou-se – Você não pensou nisso não é seu idiota?!
– Que se
dane! O cachorro só ficava preso mesmo!
– Na
verdade que se dane mesmo – explicou o Dr. – O vírus é proveniente de uma raça
extinta de lobo que viveu na Europa durante a idade antiga. Cães e lobos têm
cerca de 98% de genes em comum o que faz com que também sejam imunes aos
efeitos colaterais do vírus.
– Então por
que está me aborrecendo por isso?
– O
problema é que você não sabia disso – atentou Ingmar – Assim como não sabe de
mais nada.
– Então por
que não me mata logo de uma vez? – perguntou agora muito calmo, pensando que
morrer não seria tão mal, visto que seria o fim de suas preocupações.
– Pretendo
ver sua transformação antes de fazê-lo – respondeu parecendo um pouco
consternado – Mas não me julgue mal, faço isso apenas para ter a prova cabal
antes de cometer um assassinato.
– Nós dois
sabemos que eu vou me transformar, não seja ridículo – riu-se Alceu – Quer me
dar outra oportunidade para matá-lo?
– Na
verdade o risco de que isso aconteça é basicamente zero – esclareceu o Dr. que
agora também ria de toda a presunção do rapaz que estava acorrentado – Eu o
subestimei destransformado, realmente não previ que já tivesse algumas
características lupinas¹ , mas o caso agora é outro.
–
Provavelmente o vírus adaptou-se melhor em seu organismo devido a sua
descendência grega – continuou – Há muito mais entre o céu e a terra do que
você imagina garoto.
– O que uma
coisa tem a ver com a outra? – intrigou-se Alceu, agora realmente curioso para
saber exatamente o que era tudo aquilo que causaria sua ruína.
–
Interessou-se enfim em me ouvir – disse rindo novamente – Bom ainda temos tempo
suficiente antes que você se transforme. Você nem deve ter se dado conta, mas
já passam de 17h.
– Prossiga,
por favor – interrompeu-o secamente fazendo com que o sorriso logo desaparece
de seu rosto.
– Tudo bem
– começou – Existe uma lenda da mitologia grega que remete a mais de 1100a.c e
essa lenda é a primeira sobre licantropia de todo o mundo.
– Nela se
conta que o primeiro Rei da Arcádia, Licaon filho de Pelasgo ousou servir carne
humana em um banquete oferecido em seu palácio.
–
Entretanto o que Licaon não sabia era que Zeus estava presente neste banquete,
e muito ofendido acabou transformando-o em um Licantropo como castigo, mas isso
é apenas uma lenda, apesar te ter seu fundo de verdade.
– O que
pouquíssimas pessoas sabem é que os antigos possuíam uma imensa sabedoria e que
boa parte dos mitos e religiões que existem hoje têm como única finalidade
mascarar fatos verdadeiros aos quais as pessoas não estão “preparadas” para
saber. (1) "Lupino" é relativo à lobo ___________________________________________________________________________________________________
– Licaon na
verdade nunca serviu carne humana a ninguém, muito menos a Zeus, mas o primeiro
rei da Arcádia era sim um magnífico cientista com conhecimentos maiores,
acredite, do que os que a ciência convencional nos proporciona hoje.
– O que
realmente aconteceu foi que ele conseguiu isolar um vírus característico que
existia nos tais lobos que eu lhe falei e percebeu que poderia encontrar grande
vantagens introduzindo-o em seu próprio organismo.
– Licaon
tinha inimigos muito poderosos, uma organização que existia muito antes dele
ter nascido e existe até hoje.
– Essas
“pessoas” podem até mesmo ter influenciado na moldagem do DNA humano atrofiando
uma glândula existente no nosso cérebro a qual se acredita ser responsável pela
nossa consciência espiritual e imaginação.
– Esse
atrofiamento é dado por uma espécie de onda que é emitido para toda a população
mundial através da lua, essa onda é captada pela glândula e diminuí sua
capacidade tornando o ser humano mais submisso e tolo.
– O vírus
que você “encontrou” aloja-se principalmente nessa glândula, chamada glândula
pineal e tem o poder de anular os reveses da onda lunar.
– Ele porém
não é totalmente compatível conosco como é com os cães e lobos, sendo que pode
vir a causar a morte dos menos compatíveis e a insanidade feral em praticamente
qualquer um.
– A causa
disso é que em nosso organismo ele não apenas anula os efeitos lunares, mas os
inverte deixando a glândula pineal sobrecarregada alterando nossa consciência e
remetendo a memória do vírus que junto ao estado mental avançado em que
estaríamos, acaba por ser capaz até mesmo de alterar o DNA do portador.
– Licaon e
os Arcádios no entanto eram o povo mais compatível com o vírus a que se tem
noticia, sendo que é provável que o Rei tenha dominado até mesmo a
transformação mantendo sua consciência inclusive na lua cheia.
– E você
menino lobo, pelo que investiguei tem forte descendência grega, provavelmente
Arcádia, por isso consegue as vantagens do vírus mesmo não transformado.
– Uma coisa
que eu não entendi – pronunciou-se Alceu após ouvir meticulosamente toda a
explicação – Eu tinha adquirido uma espécie de empatia com os cães, por que
então seu vira-lata me atacou?
– É
provável que você tenha apenas encontrado uma maneira instintiva de se
comunicar perfeitamente com eles, como os animais que você teve essa
experiência provavelmente já o conhecia você acabou tendo errônea impressão.
– Com
certeza esse cães viam em você um macho alfa e liderante – prosseguiu – O que
não foi o caso de Fenrir que já tem sua própria matilha e é muito provavelmente
o maior cão do mundo.
– Ele é
enorme mesmo – disse Alceu olhando para o wolfdog deitado ao lado do dono – O
que você fez pra ele crescer tanto?
– Wolfdogs
são híbridos – respondeu – Híbridos de várias espécies já possuem a característica
de possuírem genes que condicionem a produção dos hormônios inibidores do crescimento.
– O Fenrir
também foi modificado geneticamente por mim, aumentando ainda mais essa característica
– continuou orgulhoso do próprio trabalho – Ele tem 1,30m de cernelha e 189kg,
sendo mais forte que um menino lobo.
– Então foi
isso – disse Alceu processando os fatos.
– Bom –
falou o professor apontando-lhe a arma nesse momento – Seu tempo está quase
esgotado garoto, mas alguns minutos e teremos a lua pairando no céu.
Alceu não disse nada, apenas sentiu-se preparado
para morrer. Não teve pena de si mesmo, nem passou por sua cabeça implorar pela
vida, nesse instante a única coisa que queria era estraçalhar o Dr. e seu
maldito wolfdog. Ele que a pouco estava muito calmo percebeu que encontrava-se
novamente influenciado pelo vírus. Faltavam poucos segundos para a
transformação,
mas o que o irritava nesse momento era apenas a arma apontada para sua face de
maneira que ele como qualquer outro animal sabia que era uma ameaça. Começou a
sentir um intenso formigamento passar pelo seu corpo, seu “terceiro olho”
estava se abrindo e ele pode ver com clareza que não havia o que fazer, mas a
vontade de viver voltava a crescer em seu peito. Viu seus pelos começarem a
crescer, suas unhas tornarem-se garras, o medo começar a crescer dentro do
homem e do cão que a pouco o desafiaram. Completou sua transformação emitindo
um sonoro uivo, era agora um enorme Licantropo de pelos negros como a noite e
era uma visão muito mais aterradora do que fora o esganiçado lobisomem de
Joanópolis. Tentou investir contra o não mais tão gigantesco Dr. Ingmar que
ainda lhe apontava a arma, mas as correntes o detiveram. Forçava-as com toda a
força, imaginando o gosto do sangue em sua boca e bramindo de ódio para o homem
que ainda hesitava em alvejá-lo, quando uma espécie de explosão jogou o teto
sobre suas cabeças. Três homens trajados inteiramente de negro e mascarados
invadiram o recinto alvejando diversos dardos no Dr. e em seu cão que antes que
pudessem ter qualquer reação caíram desacordados. Voltaram-se pra ele enfim,
encarando-o por alguns segundos até que um deles se manifestou:
– Vai ficar
tudo bem, não se preocupe – disse em uma voz calma antes de atirar um dardo
contra seu peito.



como eu te disse, você escreve sensacionalmente bem :)
ResponderExcluirBom texto. A pesquisa feita deu veracidade ao conto sem atrapalhar a trama primcipal em cima dos personagens que também estão bem montados. Fiquei realmente curioso para saber mais e consegui até reconhecer alguns personagens, me perguntei se vais surgir algum com meu perfil.
ResponderExcluirO blog é legal, sucesso!
MOAR
ResponderExcluirFicou muito bacana, apesar de eu ter enrolado um pouco pra ler , achei muito prazeroso de ler e naum ficou cansativo, espero que continue! parabens ai!
ResponderExcluirFicou legal fi.
ResponderExcluirparabéns
Oi Filipe,
ResponderExcluirParabéns pela história, você escreve bem, e a temática tem tudo para fazer sucesso nos dias de hoje!
Forte Abraço, e muito Sucesso!