15/02/2012

Linhagem Lupina


Para que lado vamos agora? – Indagou Alceu quando a trilha que seguiam abriu-se em duas logo a sua frente – Eu disse para você imprimir o mapa.
– Fica tranqüilo, quando foi que a gente deixou de achar uma cachoeira por causa de mapa? – perguntou Vinícius em tom debochado – É claro que é para esquerda, ou nordeste se preferir.
Vinicius era um jovem de 19 anos, um tanto magrelo e de cabelos castanhos claros, enquanto seu colega Alceu era um pouco mais velho, 22 anos, de maior constituição e cabelos negros. Os dois amigos que moravam em Belo-Horizonte eram “caçadores” de cachoeiras e faziam agora sua primeira expedição a Serra da Mantiqueira, nas proximidades da cidade de Joanópolis – SP.
– Vamos rápido antes que a gente dê de cara com o Ermitão Judeu ou com o lobisomem – Brincou Vinícius enquanto tomava o caminho da esquerda.
– Cidadezinha de povo mentiroso essa, capital mundial do lobisomem – retrucou Alceu parecendo ligeiramente indignado - E como se não bastasse isso, ainda tem esse tal de Judeu Errante.
– É Ermitão Judeu, não? – perguntou Vinicius.
            – Não, mas tanto faz, é a mesma porcaria.
– Veja meu caro amigo, Cachoeira dos Pretos a noroeste – Falou Vinicius apontando para a primeira visão do filete de água escorrendo pela encosta e mostrando a exata direção em sua bussola. – A noroeste, eu te disse que mapa é para fracos.
– Espero nunca ter que te dizer “eu avisei”.
– Não terá!
Continuaram a trilha que adentrava uma mata ao pé da encosta e seguia em frente por cerca de 2 km fazendo-se obrigatória a passagem por ela. Chegaram a Cachoeira dos Pretos bem no inicio da tarde, o sol estava escaldante, mas a copa das arvores havia protegido-os no trajeto final. Foram seis horas de caminhada sendo duas delas sob a proteção da mata fazendo da cachoeira um lugar de difícil acesso e pouco visitada.
– Você percebeu que a trilha dentro da mata ia ficando cada vez mais fácil à medida que nos aproximávamos da cachoeira? – perguntou Vinicius parecendo um tanto quanto preocupado.
– Percebi, e daí? – disse Alceu com desprezo – Não me diga que...
– Parece que vive alguém aqui – interrompeu-o – E que só usa a trilha até certo ponto, sem nunca sair da floresta.
– Por favor, animais também fazem trilhas naturais por passarem sempre no mesmo lugar durante os anos – explicou Alceu, incrédulo – não vai me dizer que está realmente com medo de lobisomens ou desse tal Judeu Errante?
– Toda história tem seu fundo de verdade, mal acabou um período de veterinária e já está querendo dar aula?
– Aprendi isso com Bear Grylls¹, não na faculdade – contou rindo da situação enquanto se lembrava das tardes assistindo ao Discovery Channel – Tudo tem uma explicação plausível, o único modo de essa explicação chegar ao ponto de “lobisomens” é por meio de provas concretas e não por relatos de um bando de analfabetos pastoreados por um bando de mentirosos.
– Ok, tá certo – Vinicius agora ria também por causa da explicação do amigo – Só espero que quanto a isso eu que não tenha que te dizer “eu avisei”.
– Não terá. A Cachoeira está logo ali, vamos montar a barraca.
– Esse lugar está realmente ótimo, uma boa clareira com espaço suficiente pra barraca, uma fogueira e longe suficiente do curso.
– Eu percebi – respondeu Alceu com seu jeito seco de sempre.
Os  dois  montaram  a  barraca  e juntaram uma boa quantidade de lenha para noite em apenas poucos  minutos,  uma  habilidade  adquirida  já  há  algum  tempo  devido  as várias empreitadas em lugares praticamente isolados de qualquer conforto da vida moderna.
                                                                                                                                                                                                                    (1) Bear  Grylls  é  um  aventureiro  mundialmente  conhecido  por  apresentar  o  programa  "À prova de tudo"  pela Discovery Channel. ___________________________________________________________________________________________________



Após deixar tudo devidamente preparado os dois amigos aproveitaram tudo o que a natureza do local tinha a oferecer, principalmente a Cachoeira dos Pretos com seu poço relativamente raso, mas que deslumbrava qualquer um pela gigantesca queda de água caudalosa rodeada pela vegetação de mata atlântica, predominante na região.
– Muito linda a cocheira! – Exclamou Vinicius após se banhar um pouco – É pena não dar para mergulhar.
– Estou ficando com frio. – Disse Alceu saindo da água logo atrás do amigo – Vamos acender a fogueira, já estou morrendo de fome também.
– Boa ideia, uma sopa cai bem hoje.
Alceu acendeu o fogo usando um dos seus muitos isqueiros que levara por garantia, pois já lhes ocorrera em outro acampamento de ficarem sem fogo quando o único isqueiro que levara quebrou-se no seu bolso por conta de um esbarrão em uma pedra próxima a Cachoeira da Capivara, na Serra do Cipó em Minas Gerais. Enquanto isso Vinicius cortava algumas batatas e cenouras que trouxeram para encorpar um pouco as sopas desidratadas que sempre os acompanhava nos acampamentos.
– O fogo está aceso sir. – Brincou Alceu, em tom altivo – Vou nos servir um trago de rum enquanto preparo um magnífico traçado¹ de manga para degustarmos esta noite.
– Sapeca aí! – Riu Vinicius estendendo a mão para pegar uma das canecas de plástico onde o amigo serviu o rum.
Após a leve refeição voltaram a beber o então preparado traçado de manga e fumaram o cachimbo de Alceu que como fã de Sherlock Holmes sempre o acendia para apreciar uma boa conversa, principalmente no campo a luz das estrelas onde não se restava muito mais o que fazer.
– Ainda com medo de lobisomens? – Perguntou Alceu apontando para lua que estava cheia esta noite.
– Sempre, essa lua está sinistra.
– Aqui no meio do nada o medo sempre aumenta, admito que essa lua cheia me deixou tenso também – Confessou esboçando um sorriso encavacado pronto para se transformar em uma gargalhada.
– Viu?! Eu sabia que você tava pagando de machão. – A essa altura os dois já estavam completamente bêbados e choravam de rir da situação em que se viam.
– É só um medo inconsciente. É claro que eu continuo não acreditando nesta besteira – explicou Alceu enquanto começava a se recompor – É como quando você se levanta de madrugada para ir ao banheiro e acende todas as luzes da casa para se certificar que não tem nenhum monstro lá, mesmo sabendo que é uma total idiotice.
– Na verdade eu procuro são ladrões quando vou ao banheiro, não existem monstros na cidade – Disse Vinicius enquanto se debruçavam de tanto rir novamente.
– Acho melhor irmos dormir, antes que essa estória de lobisomens tire o nosso sono – Falou Alceu bebendo o ultimo gole da garrafa.
– Concordo. Ainda mais agora que acabou a bebida, não há mais porque ficar acordado.
Ambos se acomodaram na barraca debaixo de seus respectivos cobertores, pois as noites na Serra eram muito frias, mesmo estando no final do verão e ambos extremamente bêbados os dois amigos ainda podiam sentir calafrios que acreditaram ser causados pela umidade devido a estarem bem próximos ao curso d’água. Poucos minutos depois, Vinicius que era de menor constituição e por isso mais fraco para bebida já se encontrava adormecido, enquanto Alceu ainda se perdia em pensamentos triviais como sempre fizera antes de dormir. A noite estava silenciosa quando de repente foi interrompida por um bramido que parecia vir de não muito longe do acampamento. O som que parecia ser produzido por um animal de grande porte aterrorizou-o profundamente, seus batimentos aceleraram e cada pêlo de seu corpo se eriçava como os de um animal amedrontado.

(1) Mistura de suco com qualquer bebida alcoólica. ___________________________________________________________________________________________________ 


 –Acorda, você ouviu isso? – Cochichou ele  por medo  de  ser  ouvido –  Acorda desgraça!
Seus esforços para acordar o amigo foram totalmente em vão, mas após algumas tentativas acabou dando por si pensando na idiotice que era aquilo tudo – Só pode ser um engraçadinho zuando com a minha cara – Pensou ele.
Tomado agora pela raiva de ser feito de idiota e a coragem imprudente proporcionada pelo álcool ele abriu a barraca, pegou sua faca, uma pedra do tamanho de um punho que encontrou ao chão e partiu correndo em direção ao som que antes o aterrorizara. O bramido disforme agora parecia se transformar em uivos quase perfeitos, mas Alceu não raciocinava mais, tomado pela adrenalina não se deu conta de que estava agora numa trilha íngreme em meio à vegetação e nem sequer trazia consigo uma lanterna, mas apesar disso, suas pupilas dilatadas (devido ao susto) captavam melhor a luz do luar de uma noite praticamente sem nuvens no céu. Correu sem parar até chegar ao fim da trilha que dava na parte superior da cachoeira e novamente se viu paralisado pelo pânico, a poucos metros de si se encontrava alguém, ou alguma coisa de aparência suja e esganiçada levemente encurvado e que não mais produzia nenhum som, mas lhe encarava de maneira ameaçadora olhando-lhe direto nos olhos e perfurando-lhe a alma. A criatura tinha o corpo coberto de pelos acastanhados, focinho e orelhas alongados como as de um cão, seus olhos quase dourados inspiravam medo e ódio e não passaram mais do que um segundo fitando Alceu, como se o analisasse antes de investir contra ele.
Ainda imóvel Alceu viu a fera investindo contra si, sentiu um arrepio dos pés a cabeça e um imenso vazio na boca do estomago causado pelo pavor. Tudo que pensava é que iria morrer naquele momento. Pensou que seria devorado, que depois aconteceria o mesmo a Vinicius e ninguém jamais saberia o que aconteceu a eles, seriam apenas um monte de estrume de uma criatura horrenda jogados naquela mata. Sua mente estava tão ativa nesse momento que pôde imaginar tudo isso em milésimos de segundo. Quando deu por si novamente o medo tinha se tornado ódio, e seus músculos antes imóveis estavam decididos a agir com força total. A mandíbula enorme do animal já estava a poucos centímetros de sua garganta, quando Alceu acertou-lhe uma pedrada no focinho com tanta violência que o levou ao chão. Sem dar tempo à criatura que se afogava em seu próprio sangue, partiu contra ela com sua faca em punho perfurando-a duas vezes na costela e mais uma no estomago. A besta mesmo gravemente ferida e atordoada ainda pôde mostrar sua força descomunal, enterrou-lhe suas garras afiadas rasgando seu abdome e atirando-o ao ar. Alceu nada pode fazer, nem mesmo conseguiu sentir o sangue que escorria por seu corpo, o golpe lhe fez rolar pelas pedras da queda da cachoeira e enquanto despencava pelos mais de quinze metros que a separava do nível do poço apenas sentia por Vinicius que provavelmente teria um destino parecido.
Alceu acordou com os primeiros raios de sol batendo em seu rosto, não sabia como, mas estava vivo. Caído sobre uma pedra ao lado da cascata com sua camisa quase toda rasgada, um enorme ferimento na barriga, alguns menores pelo resto do corpo e sentia que havia quebrado pelo menos uma das costelas, mas inexplicavelmente vivo. Levantou-se com dificuldade, mas ainda conseguia caminhar, pensando no amigo mais uma vez cambaleou-se para o acampamento o mais rápido que pode, encontrando tudo praticamente do mesmo modo que deixou. A fogueira não mais crepitava, a barraca continuava entreaberta como quando saiu e pra sua imensa alegria Vinicius ainda estava lá, dormindo pesadamente como há horas atrás. Tentando se apressar para acordar-lo e ver se realmente estava bem, acabou se desequilibrando e caindo sobre a barraca, seus ferimentos imediatamente começaram a doer intensamente, como se tivessem acabado de surgir em seu corpo. Vinicius acordou de súbito, extremamente assustado e viu o amigo jogado como alguém que acabara de voltar da guerra.
– Puta que pariu! O que aconteceu com você?
– E-eu não sei. – respondeu ainda em duvida se tudo aquilo que lembrava realmente veio a acontecer.
– Como assim você não sabe?! Você está destruído... como vamos voltar? ___________________________________________________________________________________________________


Não sei... volte sozinho e me traga ajuda.
– Você está bem? Não vai morr...
– Shhhhhh! – Interrompeu-lhe se levantando lentamente – Você ouviu um barulho vindo de lá? – perguntou apontando para trilha que percorrera na noite anterior.
– Não... foi alguém que te fez isso? – indagou quase que não querendo ouvir a resposta.
– Talvez – Respondeu, voltando a caminhar em direção a trilha.
A dor novamente desapareceu enquanto a fúria reaparecia, sentia agora um forte cheiro estranho e isso o agitava e enfurecia cada vez mais à medida que se aproximava.
– Aqui está o culpado – disse controlando sua ira.
Vinicius quase congelou o sangue ao ouvir essa frase, mas lentamente caminhou para junto do amigo e o que viu novamente fez com que um arrepio passasse por todo o seu corpo. A visão era aterradora, caído ao chão estava um homem nu, de cabelos e barba gigantescos e emaranhados. Além de estar imundo, cheirava a carniça e tinha três ferimentos que ainda sangravam na altura do tronco, mas o pior de tudo é que se encontrava consciente.
– Não parece mais tão feroz – riu-se Alceu – Tentou descer aqui e terminar o serviço, mas parece que eu levei a melhor na nossa contenda de ontem a noite.
– Você pode me dizer o que aconteceu? – perguntou Vinicius transtornado – Quem é e-esse... essa coisa?
– Você não vai acreditar, mas acho que esse é o famoso lobisomem de Joanópolis.
– Como?!
– Isso mesmo que você ouviu, eu o escutei uivando ontem à noite – explicou – Saí da barraca para checar e segui o barulho por essa trilha até o topo da cachoeira. Esse desgraçado me atacou assim que bati os olhos nele, nós lutamos, eu o esfaqueei e ele me atirou de lá cima.
– Mas como assim? Tem certeza que ele era um lobiso... ele está se levantado!!! – gritou apontando para o homem nu que se apoiava em uma arvore tentando se por de pé.
– Vá buscar a sua faca! – ordenou Alceu ao mesmo tempo em que chutou o pobre desgraçado bem em cima da ferida com toda a força que ainda lhe restava – Eu é que vou terminar o que comecei ontem.
Vinicius já corria desesperado para encontrar sua faca quando o homem finalmente resolveu falar:
– Vosmicê nem imagina o que o aguarda, desejarás ter morrido assim que a próxima lua cheia pairar ao céu.
– Não fique aí parado, pegue a merda da faca – disse Alceu apenas confirmando o que já imaginava.
– Deixe que seu amigo parta só, a maldição já corre em vossas veias – disse enquanto voltava a se levantar – não há mais lugar para vosmicê perante a sociedade.
Alceu tentou chutá-lo novamente, mas desta vez o homem segurou sua perna e o jogou ao chão com uma força inferior a que demonstrara na noite anterior, mas ainda assim bem superior a de uma pessoa comum.
– Tire as mãos dele! – berrou Vinicius agora com a faca em punho, mas ainda apavorado.
– Junte vossas coisas, despeça-se de vosso amigo e esqueça-se de tudo – falou o homem à Vinicius e finalmente pondo-se de pé – Pois ele só sairá daqui por cima de meu cadáver.
Alceu levantou-se o mais rápido que conseguiu e pôs-se de frente ao homem. A menos de dois metros um do outro os dois começaram a se entreolhar com imensa fúria nos olhos, como animais preparados para o ataque.
– Então eu vou mesmo me transformar em lobisomem?
– Sim.
– Quem foi que fez isso a você?           ___________________________________________________________________________________________________


Não sei dizer-lhe, matei a criatura que transformou-se em homem após a morte em uma caçada que empenhei ao norte da Grécia.
– Há quanto tempo vive aqui?
– Já não conto mais os anos de minha desgraça, mas me chamo José de Alvarenga Tavares Filho, nascido em três de Março de 1839 e vivo nesta selva desde meus 38 anos.
– Por que me atacou ontem a noite?
– Não possuo total controle de meus atos quando me encontro naquela monstruosa forma bestial, mas não ataco ninguém a muito tempo, vosmicê é quem foi atrás do que não devias.
– Não irá mesmo me deixar sair daqui?
– Sobre nenhuma hipótese.
Neste momento a tensão que parecia pairar no ar em volta deles se tornou ainda mais densa, não sofreram nenhuma mudança física, mas o olhar que lançavam um para o outro claramente não era humano. O instinto animal parecia falar mais alto dentro deles, qualquer um que pudesse vislumbrar a cena saberia que estavam prestes a se atacar, e foi isso que fez com que Vinicius atirasse a faca que segurava, fincando-a no chão bem ao lado de Alceu. O jovem arrancou-a do solo e numa velocidade incrível partiram um contra o outro, mas não houve o que se possa chamar de luta, em menos de um segundo o homem nu encontrava-se caído novamente, desta vez com uma faca de dez centímetros atravessada em sua cabeça logo acima da orelha.
Voltaram para casa na mesma manhã quando os ferimentos de Alceu já se encontravam quase completamente curados, o que concluíram ser causado pela licantropia. Por mais incrível que possa parecer os dois não comentaram sobre o acontecido com mais ninguém, mas o assunto se tornou o tópico principal de suas conversas daquele mês, pois a transformação eminente era algo preocupante e se reuniam no pequeno quarto de Vinicius todos os dias para discuti-lo:
– Preciso saber mais sobre isso, o problema é que não posso simplesmente ir ao médico e mesmo mostrar uma amostra de sangue minha pra qualquer um levantaria suspeitas.
– Não encontrou nada parecido com o que estava no seu sangue ainda?
– Não, mas nem consigo identificar o “vírus” em todas as amostras – respondeu Alceu enquanto refletia – Eu estou no segundo período, nem tenho certeza de que é mesmo um vírus e quase não me dão oportunidade de usar o laboratório sozinho.
– Nesse caso, já conseguiu os tranqüilizantes? Falta apenas uma semana pra lua cheia.
– Vou roubá-los amanhã depois da aula – disse ainda perdido em seus pensamentos.
– Você nem deveria estar tão preocupado, se os tranqüilizantes funcionarem bem ninguém precisará saber.
– São sete noites a menos na minha vida todo mês e com o tempo os tranqüilizantes vão parar de fazer efeito.
– Na minha também – riu-se Vinicius – Vou ter que velar o seu sono e nem ganhei poderes de lobo por isso.
– É, ter “habilidades” mesmo não estando transformado têm sido tr00¹, já estou levantando mais de 120 kg, torça pra que funcionem mesmo.
– Sem falar no faro, audição, vigor, e velocidade aumentados também – disse Vinicius enumerando a lista de vantagens de ser um lobisomem, fazendo o caso parecer uma dádiva.
– Você se esqueceu do fator-de-cura e de que eu me tornei praticamente o líder de qualquer matilha de cães do mundo – completou enquanto ria do otimismo do amigo.
– É... até isso, aquele velho do Yoda não respeitava mais ninguém – disse Vinicius referindo-se ao seu cão de estimação.
– Por  fala r nisso  estava  pensando  em  isolar  o  vírus  do  meu  sangue  e  injetar  em algum cachorro –  comentou  Alceu,  revelando  os  pensamentos que o distraíam minutos atrás – Aí poderia mostrar pra algum professor.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (1) Tr00 é uma gíria para "legal" ___________________________________________________________________________________________________


No Yoda não, né?! Eu não quero um cachorrozomem!
– Claro que não! Tem um Mastim Napolitano¹ velhaço que um professor encontrou na rua e está cuidando dele lá na universidade.
– Você não era contra experimento em animais? Vai fazer o que com ele depois se ele se transformar também?
– Se eu fizer isso nem vai estar em minhas mãos o que vai acontecer com ele, esse é o problema. Vou pensar mais no assunto.
– Toma cuidado, se alguém desconfiar de onde veio a “doença” do cão você está fudido.
– Eu sei, não esquenta – disse com ar mais preocupado do que gostaria – Vou indo nessa, tenho que acordar cedo amanhã e ver se consigo um tempo sozinho no laboratório antes da aula.
– Vai lá, está aberto o portão. Falou!
– Falou! – despediu-se enquanto já abria a porta do quarto.
Alceu se dirigiu ao ponto de ônibus em passos largos, estava muito ansioso para chegar a seu dormitório no campus da faculdade. Deixara de morar com sua mãe no mesmo bairro do amigo Vinicius desde o início do primeiro período e isso agora se tornara uma vantagem ainda maior, pois conseguiria acesso ao laboratório e tudo mais que precisaria facilmente.
Chegou ao campus por volta de meia noite, cumprimentou o porteiro como de costume e se apressou para seu dormitório que por sorte havia se tornado individual, graças à desistência do aluno que o dividira com ele até meados do primeiro semestre. Porém assim que chegou a sua porta, antes mesmo que pudesse destrancá-la sentiu uma presença estranha que o observava, tão logo seu faro e audição aguçados começaram a agir constatou que não era uma pessoa, mas sim um grande animal e com certeza macho. Lembrou-se imediatamente do confronto com a fera a menos de um mês atrás e quase entrou em pânico por isso, quando de repente viu uma silhueta quadrúpede passando por umas das ruelas escuras que separavam as construções dos dormitórios. Não pode ter certeza sobre o que vira, mas sabia que fosse o que fosse também estava tão atordoado e amedrontado quanto ele, pois agora podia captar no ar esse tipo de sensação. Tomou coragem, destrancou a porta e pegou a faca que Vinicius lhe dera para matar o lobisomem de Joanópolis e quando corria para a porta novamente deu cara com o velho cão Mastim ao qual tinha comentado com o amigo mais cedo. Tomou um grande susto a principio, mas teve um imenso alivio logo a seguir ao ver que tudo não passou de um mal entendido, o cão que também estava um tanto quanto ressabiado logo se desarmou também ao ver a nova expressão no rosto de Alceu e caminhou com seus passos pesados e rabo abanando em direção a ele como quem quer demonstrar um gesto de paz.
– Você me assustou em Thor! – disse acariciando a cabeça do enorme cão, de maneira comum como um dono faz com seu animal de estimação – É Thor seu nome, não é grandão?
– Vem, vou te levar de volta pro canil – chamou-o com estalar de dedos, rapidamente obedecido.
Alceu saiu então com o cão caminhando obedientemente ao seu lado em direção ao prédio do campus para levá-lo de volta ao pequeno canil do laboratório de Cinologia². Chegou até portaria do prédio que também possuía um vigia noturno caso acontecesse alguma emergência durante a noite fora o período de aulas.
– O que está fazendo aqui há essa hora com esse cachorro garoto? – indagou o vigia.
– Esse cachorro é o que o professor Fernando estava mantendo no laboratório – respondeu, percebendo só agora a oportunidade que tinha nas mãos – Parece que ele fugiu, estava rodando na área dos dormitórios.
– Ah, sim – disse o vigia se levantando da cadeira onde estava sentado para verificar melhor o animal – Bem que estranhei o silencio de hoje, quase todas as noites ele faz um escândalo.
                                                                                                                                                                                                                     (1) Imagem                                                                                                                                                                                                                      (2) Estudo científico dos cães ___________________________________________________________________________________________________


Foi uma sorte eu tê-lo encontrado – maliciou Alceu – Ele pode ser agressivo, mas já está acostumado comigo, se fosse outro a encontrá-lo por aí...
– Ele é bem grande não?! – impressionou-se o vigia – Eu não vou levá-lo pra dentro sem coleira e focinheira.
– Se você quiser, eu o levo – falou acariciando o cão novamente – Ele está um tanto inquieto, acho que está com fome também.
– Eu não deveria fazer isso, mas se você não contar nada pra ninguém não terá problema – disse o homem parecendo mais aliviado do que preocupado.
– Pode ficar tranqüilo quanto a isso – Alceu ria-se por dentro nesse momento – Vou demorar um pouco para alimentá-lo, ele está participando de um experimento só está comendo uma ração especial.
– Sem problema – disse entregando-lhe a chave do laboratório e abrindo a portaria – Obrigado viu garoto.
– Não é nada, que isso – falou quase pelo canto da boca, tendo que se segurar pra não rir dessa vez – Eu adoro o Thor.
Levou o cão o mais rápido que pode para o laboratório, deu-lhe um pouco de ração que de especial não tinha nada a não ser por ser feita para cães idosos, mas de uma marca totalmente comum. Aproveitou o tempo para roubar os tranqüilizantes que precisaria para as noites de transformação e depois disso passou a fitar Thor enquanto esse continuava a comer.
– Me desculpe amigão – disse ele sentindo-se um monstro pelo o que estava prestes a fazer – Mas eu prometo que vou fazer o que puder pra te manter a salvo.
Após esses segundos de reflexão, voltou-se para o laboratório e começou a trabalhar, pois precisava ser rápido. Retirou algumas novas amostras de sangue e começou a analisá-las a procura do suposto vírus novamente. Tinha decidido em sua mente que uma oportunidade como essa não se desperdiça e iria aplicar o material no cão. Levou pouco menos de uma hora pra completar o processo de isolamento do vírus e aplicá-lo em Thor que estava dormindo no canil e mal sentira a picada da agulha, retirou antes uma amostra de sangue do cão onde o aplicou diretamente e guardou-o na geladeira de amostras. Caminhou de volta para a saída do prédio e não estava mais tão satisfeito com o que fez como quando percebeu a oportunidade de enganar o vigia, mas decidira que se algo de mal acontecesse ao animal ele também se acusaria como portador do vírus e sofreria as mesmas conseqüências. Encontrou o homem dormindo e com passos muito leves colocou a chave no lugar e saiu sem lhe incomodar, voltou ao seu dormitório para finalmente se deitar, mas sua consciência pesada só o deixou pegar no sono horas depois.
Acordou no dia seguinte um pouco atrasado para primeira aula, devido as poucas horas mal dormidas que tivera. Mesmo já tendo feito tudo que planejara na noite anterior, ainda assim apressou-se em se vestir e correr para o campus, pois o primeiro horário do dia era justamente de Cinologia com o professor Fernando. Entrou na sala de aula cerca de dez minutos atrasado, mas por sorte a maioria dos alunos se concentrava em algum exercício teórico qualquer enquanto o professor passava seu tempo corrigindo alguns trabalhos entregues na semana retrasada, então Alceu não perdeu tempo e logo o interrompeu.
– Professor...
– Bom dia Alceu, vá se sentar e faça o exercício do final do capitulo doze – respondendo sem sequer tirar os olhos dos papeis nos quais estava focado – São matéria de prova.
Dr. Fernando tinha um ar um pouco carrancudo principalmente devido ao aspecto sério que sua barba e cabelos negros e alinhados passavam, mas na verdade era um sujeito muito agradável e o professor favorito de Alceu. Tinha pouco mais de quarenta anos e um bom porte físico, pois também costumava fazer muitas expedições de camping e era um exímio treinador de agility¹. Fora ele que encontrara Thor vagando sozinho próximo ao campus a cerca de um mês atrás.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   (1) Agility é um esporte para cães onde ele percorre uma pista com obstáculos.  ___________________________________________________________________________________________________


Bom dia também professor – falou um pouco constrangido – Mas é que eu preciso conversar com o Sr. Em particular, será que tem um minuto?
– Sobre o que? – Estranhou o professor, dessa vez voltando-se para ele enquanto retirava seus redondos óculos de leitura.
– Sobre o Thor.
– Nossa, é mesmo! Eu pedi para Elis dar um banho nele ontem e prende-lo no estacionamento por alguns minutos até se secar...
– Fique tranqüilo professor, ele está bem – interrompeu-o – Eu o encontrei ontem.
– Que alivio! Você sabe, ele não está doente, mas está muito velho – respondeu realmente aliviado – Eu me esqueci completamente de ir buscá-lo, ele poderia ter morrido por ficar a tarde toda de baixo de sol e sem água.
Alceu nem sequer havia parado para pensar sobre como Thor poderia ter ido parar na ala dos dormitórios, mas mais uma vez viu uma oportunidade de tirar vantagem sobre isso. Presumiu que o cão conseguira se soltar sozinho da coleira, mas ninguém precisaria saber disso.
– Pois é, eu o encontrei lá “amarrado” – mentiu ele esperando conseguir uma maior gratidão e boa vontade do professor – Foi realmente uma sorte.
– Mas ele está bem mesmo? – indagou ainda um pouco preocupado – Onde ele está?
– Exatamente sobre isso que eu quero lhe falar, mas em particular, por favor.
– Claro! – disse o professor leventando-se rapidamente – Vamos até o laboratório, mas o que seria exatamente?
– O laboratório é perfeito – riu-se, pensando na imensa sorte que aquele pobre cão lhe trouxera – É melhor que conversemos tudo lá.
– Você está me assustando garoto – respondeu com um olhar claramente desconfiado – Mas tudo bem, vamos.
Alceu nada respondeu e caminharam em completo silêncio pelos corredores da universidade até chegarem, pois ele mesmo não sabia o estado do animal nesse momento. Pensou que foi realmente uma sorte o professor chamá-lo para conversar no laboratório, pois assim poderia averiguar a situação antes de dizer qualquer coisa, mas assim que o professor destrancou a porta ouviu uma exclamação que lhe gelou o sangue:
– Não acredito!
Sentiu uma profunda vontade de sair correndo de lá e nunca mais voltar, até que ouviu outro som que lhe aliviou imediatamente:
– AUU!!!
Nunca tinha o ouvido antes, pois Mastins Napolitanos raramente latem, ainda mais um tão velho, mas esse fora um tímido, porém forte latido de Thor. Imediatamente identificou o forte cheiro do cão, sentiu-se idiota por isso, estava tão nervoso que se esqueceu que podia tê-lo feito muito antes de o professor abrir a porta.
– Como você o trouxe aqui? – perguntou Fernando correndo para soltar Thor que animava-se muito ao vê-los – Te deixaram entrar sozinho?
– Sim – respondeu finalmente entrando no laboratório – Esse foi um dos motivos para eu lhe falar em particular, sei que é proibido.
– Não se preocupe com isso – disse o professor parecendo um pouco distraído com o cão – Eu estou muito grato de verdade, não vou contar a ninguém.
– Eu disse que esse é um dos motivos – completou.
– Ah, sim... – disse voltando-se para ele com um ar claramente curioso.
Alceu virou-se para o cão por alguns segundos antes de começar a falar, parecia-se que Thor estava incrivelmente mais jovial o que só podia ser associado a uma coisa: o vírus.
– Quando  eu  encontrei  o Thor, ele me pareceu um tanto diferente – expressou-se finalmente.
– Diferente como? – interrompeu-o o professor. ___________________________________________________________________________________________________


 
Eu desconfiei que não fosse ele, pois parecia muito mais jovem – respondeu – Então mesmo encontrando o canil vazio eu resolvi fazer um exame de DNA usando as primeiras amostras que o senhor tirou.
– Não era necessário – riu-se o professor – O Thor possui uma pequena cicatriz aqui abaixo do queixo. E ele mesmo com toda certeza, e você ainda não está apto pra determinar um exame assim.
– Eu sei – disse fingindo constrangimento – Mas eu acabei encontrando algo muito estranho no seu sangue.
– Deve ser apenas uma bactéria comum Alceu – disse rindo novamente – Você está no segundo período, ainda é muito cedo para exames detalhados.
– Tem uma amostra do sangue dele na geladeira – insistiu – Acho melhor você analisar, mas tenho quase certeza que seja um vírus de contagio sanguíneo e não uma bactéria.
– Deve estar enganado – continuou Fernando – Mas vou checar por via das duvidas, volte pra sala e diga a todos que eu tirarei qualquer duvida na próxima aula.
– Mas...
– Sem mais – interrompeu-o com um tom de voz bastante sério – Meu horário já está quase acabando e você tem de ir pra próxima aula.
– Okay então, mas me mantém informado? – falou decidindo não abusar tanto a sorte.
– Claro, mais tarde eu te procuro.
– Até então – disse saindo do recinto
Passou o resto do dia inquieto pensando no que daria a avaliação do professor. Assistiu a todas as aulas do dia, mas estava apenas de corpo presente, sua mente não parava de pensar sobre o assunto. Já se passavam das 17h quando terminou o ultimo tempo e o professor ainda não o havia procurado, juntou seu material apressadamente e já se preparava para correr até o laboratório novamente quando ao passar pela porta se deparou com Fernando.
– Garoto! – exclamou Fernando parecendo animadíssimo – Você não faz ideia do que descobriu!
Ah, você é que não faz – pensou
– É realmente um vírus, mas um que tenho quase certeza que não está catalogado – continuou o professor.
– Foi o que eu disse – respondeu com ar narcisista como se tivesse acabado de ouvir “você é o melhor aluno do segundo período” – Mas e então?
– Ainda temos muito o que pesquisar, mas parece que você estava certo em outro ponto também.
– O vírus está rejuvenescendo o Thor – afirmou Alceu ainda mais cheio de si dessa vez.
– Exatamente! – disse Fernando parecendo tão impressionado quanto Alceu estava imodesto – O vírus é aparentemente benigno e está acelerando o processo de rejuvenescimento das células do Thor de maneira incrível!
– Eu...
– Não se preocupe, eu já informei à reitoria que você vai participar das pesquisas comigo – falou Fernando já prevendo o que rapaz iria perguntar – Estou realmente impressionado com você rapaz, não é comum para um aluno do segundo período todo esse conhecimento.
– Obrigado – riu Alceu agora não se agüentando mais de tanta vaidade – Quando começamos então?
– Faltam alguns processos burocráticos ainda, mas eu te aviso – respondeu o empolgado mestre – Vão participar também a professora Elis de Parasitologia e uma aluna do quinto período, a Anita conhece?
– Não – respondeu empolgado, praticamente esquecendo-se do principal objetivo de seu plano – Espero que ela seja bonita. ___________________________________________________________________________________________________


Ela é sim, mas melhor, ela é inteligente – respondeu rindo da espontaneidade de Alceu – Ah, já ia me esquecendo... Mandei um e-mail para o professor Ingmar Bergman da Universidade de Estocolmo convidando-o para participar também.
– E quem seria esse?
– Esse meu caro aluno é um dos mais renomados especialistas em Cinologia do mundo – respondeu Fernando quase que indignado pela pergunta feita – E digo mais, se ele aceitar tenho certeza que terminaremos as pesquisas na metade do tempo.
– De onde ele é? – perguntou agora animando-se quase tanto quanto o professor.
– Ele é sueco. Como eu disse, ele leciona em Estocolmo – respondeu afavelmente para não parecer ter chamado o aluno de ignorante – Ele tem uma viagem marcada pro semestre que vem aqui no Brasil, não passaria em Belo-Horizonte, mas estou confiante de que mudará de ideia.
– Professor! – disse Alceu apertando a mão do mestre – Muito obrigado, estou ansioso pra começarmos!
– Eu também, essa descoberta pode revolucionar o mundo – comentou empolgadíssimo – Mas não me agradeça, a descoberta é sua.

Alceu passou o resto da semana revezado entre a universidade e a casa de Vinicius, pois mesmo com todas as boas novidades ainda seriam inevitáveis as suas primeiras transformações. A primeira noite de lua cheia desde que foi mordido seria no próximo sábado e os dois faziam os preparativos na garagem da casa de Vinicius que já possuía isolamento acústico devido à época em que eles e mais dois amigos haviam formado uma banda e ensaiavam sempre no local. Já era quinta-feira e estava tudo preparado, compraram cordas e correntes para amarrá-lo e até uma pistola de dardos para que Vinicius pudesse lhe aplicar mais tranqüilizantes sem chegar muito perto caso fosse necessário. O que lhes restava a fazer era apenas esperar e torcer para que o isolamento da garagem abafasse seus uivos e urros, pois Vinicius morava com a mãe e o irmão mais velho. Na universidade recebeu poucas noticias durante toda a semana até na sexta-feira de manhã (véspera da transformação), quando assistia a uma aula de Bioquímica que foi interrompida pelo professor Fernando para lhe dar as boas novas:
– Desculpe Michael – disse Fernando dando três batidinhas na porta que estava aberta – Eu posso roubar o Alceu por hoje?
– Eu estou explicando matéria de prova agora – disse o relativamente jovem professor Michael, que tinha a aparência de um garoto nerd apesar dos seus vinte e sete anos – É importante?
– É sim, ele vai iniciar uma pesquisa comigo – disse sorrindo para Alceu – No almoço eu passo pra você e os outros professores o novo horário dele e o documento de autorização.
– Se é assim – falou Michael passando a mão no seu emaranhando cabelo castanho – Não é comum dar pesquisas para alunos do segundo período, mas pode ir então.
– Obrigado professor – referiu-se Alceu a Michael, enquanto já corria para fora da sala – Depois eu pego a matéria com alguém.
– Tenho ótimas novidades – contou Fernando dando-lhe tapinhas ao ombro quando passava pela porta – Não te disse nada antes, pois queria que fosse surpresa.
– O que é?! – perguntou animado.
– O Dr. Ingmar Bergman não só aceitou o meu convite, como já está aqui na universidade – contou sorrindo – Nós só vamos iniciar as pesquisas segunda-feira, mas ele quis te conhecer hoje.
– Agora?!
– É claro – respondeu abrindo ainda mais o sorriso – Ele e o restante da equipe estão no laboratório agora.
– Mas ele fala português? – perguntou  bastante  intrigado  se  poderia  interagir  com  o Dr. da maneira que gostaria. ___________________________________________________________________________________________________


Tem o sotaque carregado,  mas fala sim – disse  dobrando o corredor do laboratório – Você verá, vamos!
Assim que chegaram e Fernando abriu a porta Alceu pôde ver que estavam todos entretidos em alguma conversa, mas calaram-se assim que viram-no entrando.
– Deixe eu te apresentar – anunciou Fernando antes que o silencio se tornasse constrangedor.
– A professora Elis você já conhece, não é?
– Tudo bem Alceu? – indagou a Dra. Ajeitando seu pequeno óculos, ela assim como Fernando aparentava ter por volta dos quarenta anos e tinha cabelos negros na altura dos ombros.
– Anita – falou novamente o professor dessa vez apontando para uma linda jovem de cabelos castanhos formando uma trança e provocantes olhos muito verdes – Aluna do quinto período.
– E finalmente o Dr. Ingmar Bergman – esse por sua vez um sujeito bastante exótico para um professor, tinha no mínimo 1,90 de altura, um porte bastante robusto, possuía cabelos e barba bem loiros dando-lhe um aspecto de um viking asseado.
– Bom dia a todos – disse Alceu cumprimentando-os apenas com aceno de mão um tanto acanhado.
– Não precisa ficar constrangido garoto – falou o Dr. com seu forte sotaque sueco, apertando-lhe a mão – Você é que é a estrela por aqui.
– Que isso – falou em tom cabisbaixo agora lembrando-se mais da licantropia e de como conseguira tudo aquilo – Cedo ou tarde o professor Fernando teria feito algum exame no Thor e descobriria.
– O Thor nem estaria vivo se fosse por mim Alceu – respondeu prontamente o professor – Você não me parece muito bem hoje, aconteceu alguma coisa?
– Só alguns problemas pessoais – disse Alceu desconversando e tentando parecer mais animado – Não se importem com isso.
– Se você estiver precisando espairecer eu aluguei um sitio na região pra passar minha estadia aqui – manifestou-se o Dr. Ingmar – Trouxe comigo meus quatro cães, não consigo ficar sem eles por muito tempo.
– Estão todos convidados para passarem o fim de semana conosco – continuou o Dr. – São quatro belíssimos Wolfdogs¹, vocês vão adorá-los.
– Bom, eu e a Elis temos reunião pedagógica aqui na universidade amanhã – falou Fernando respondendo pelos dois – Mas os garotos podem ir.
– Eu não sei – pronunciou-se Anita pela primeira vez – Acho um pouco estranho ir sozinha, você vai Alceu?
– Eu tenho um compromisso amanhã a noite – um inadiável encontro com a lua cheia, pensou – Não vou poder, sorry².
– Eu posso mandar um carro buscá-los e levá-los se quiserem – prontificou-se o Dr. – Por favor, não precisam de cerimônia comigo.
A garota virou-se imediatamente para Alceu como quem espera por uma resposta. Ele percebeu de imediato que cometera o erro de dizer que só estaria ocupado a noite e ficara praticamente sem saída. A verdade, no entanto, era que no fundo gostaria de aceitar e o fato de Anita desejar sua presença só o fez querer ainda mais.
– Tá certo então – concordou tolamente, como os homens sempre fazem manipulados por um doce olhar feminino – Posso sair a qualquer hora da manhã, mas preciso estar na casa de um amigo até as 16h.
– Tão cedo? – indagou o Dr. abrindo um sorriso – Seu compromisso não era a noite? Você não está com medo do escuro, está?
– Claro que não – respondeu lembrando-se da noite em que fora “infectado” – Eu acampo em quase todas as férias Dr.
– Que bom – prosseguiu sorridente – Onde passou as férias do mês passado?
                                                                                                                                                                              (1)Imagem                                                                                                                                                                                                                      (2) "Sorry" ao pé da letra é "Me desculpe" em inglês ___________________________________________________________________________________________________


 
            – Em Joanópolis, você não deve conhecer – disse um pouco alheio.
– Conheço sim – gargalhou Ingmar – Já estive na Serra da Mantiqueira em uma pesquisa com lobos guará.
– Não sabia que já conhecia o Brasil Dr. – manifestou-se Elis.
– Já fazem anos, foi na ocasião que aprendi o português – respondeu rapidamente – Bom, eu já tenho que ir, mando pegar vocês as 7h?
– Pode ser – Falaram Anita e Alceu ao mesmo tempo.
– Foi um prazer conhecê-los – despediu-se o Dr. apertando a mão de cada um.
– Principalmente você Alceu – o rapaz estendeu a mão para cumprimentá-lo mais uma vez, mas quando o Dr. virava-se para ele acabou por esbarrar num pequeno bisturi que se encontrava em cima da bancada.
– Ai! – exclamou Alceu ao sentir o bisturi que caiu sobre sua mão.
– Me perdoe! – desculpou-se instintivamente o Dr. – Isso estava esterilizado, não?
– Claro que sim – acalmou-o Fernando.
– Tome – disse Ingmar entregando um lenço a Alceu – Estanque com isso.
– Não foi nada – falou Alceu rispidamente, pensando no vírus que corria em suas veias.
– Deixe-me limpar isso – precipitou-se o Dr. pegando um segundo lenço de papel e secando algumas gotinhas vermelhas no chão.
Alceu sentiu-se imensamente incomodado, ainda não havia se dado conta de que seu sangue era basicamente um veneno perigosíssimo. Seguiu com os olhos o Dr. que caminhou até a lixeira e jogou fora aquele pequeno pedaço de papel sem nem imaginar o que realmente continha nele. Sabia que não poderia fazer nada a respeito se quisesse manter intacto seu segredo e além do mais aquilo não era nenhuma tragédia, mas deveria tomar mais cuidado a partir de agora.
– Até mais novamente – repetiu-se Ingmar dessa vez sem aperto de mãos – E me desculpe mesmo rapaz.
– Não foi nada – mentiu Alceu.
Todos se despediram e seguiram seus rumos separadamente enquanto Fernando trancava o laboratório. Alceu decidiu não assistir o restante das aulas do dia, já que estava muito alheio pensando em coisas mais importantes do que Bioquímica ou seja lá  que matéria tivesse. Passou o resto do dia em seu dormitório já que os preparativos para sua transformação já estavam prontos e não precisava ir à casa de Vinicius até a próxima noite. Demorou-se bastante a dormir imaginando como seria o sítio em que o estranho sueco com cara de viking estava hospedado, não conseguia parar de pensar no sujeito trajando roupas nórdicas ao lado de seus quatro cães-lobo em uma planície coberta de neve. Pregou os olhos já bem tarde da noite apenas depois dos milhares de devaneios que tivera saírem de sua cabeça, mas acabou acordando bem cedo no dia seguinte, pois ainda se encontrava bastante preocupado. Sentia uma angustia enorme crescer dentro do seu peito, às vezes até imaginava que estava se transformando antes da hora tamanha era sua preocupação, mas tudo não passava de um sentimento de medo tão grande que ele nem mesmo não o reconhecia com tal. Pensou em desistir de ir para o tal sítio várias vezes – e se algo der errado e eu tiver que passar a noite lá? – mas às 7h em ponto alguém bateu a sua porta:
– Bom dia Alceu – era o porteiro do campus – Tem um motorista esperando você lá na portaria.
– Obrigado Élcio – disse lembrando o nome do sujeito – Peça pra ele esperar um pouco, estou acabando de me vestir.
Apressou-se em colocar uma roupa mais apresentável e correu até portaria o mais rápido possível. Apenas cumprimentou cordialmente o motorista ao entrar no carro, mas passara todo o percurso da viagem calado. Continuava a pensar em todo o tipo de tragédia que poderia acontecer por ele estar indo ao tal sítio, sua mente estava tão ocupada que se manteve entretido por todo o percurso sem nem se dar conta de que passara pouco mais de uma hora quando finalmente chegaram. ___________________________________________________________________________________________________


É aqui senhor – disse o motorista parando em frente a um grande portão de grades situado na estrada de terra que percorriam no momento – O Dr. disse que você pode subir.
– Pensei que fosse o motorista particular dele – estranhou Alceu, pois o motorista também apresentava um sotaque estranho – Não vai subir?
– Não senhor – respondeu – Sou motorista dele, mas tenho outros afazeres imediatos.
Alceu não disse mais nada, apenas desceu do carro e subiu a rampa que dava acesso ao sítio, que por sinal era lindíssimo. Havia um grande chalé de madeira ao fundo de um verde gramado ao qual estava situada a piscina e vários pomares, dava pra se ver também outro pequeno portão de grade mais adiante que dava acesso a uma área com árvores maiores e não tão bem cuidadas quanto às da entrada. Percorreu o campo por uma pequena estradinha de pedra que passava ao lado da piscina e não viu nenhum sinal do Dr. Ingmar, resolvendo então prosseguir até a casa. Subiu os poucos degraus que davam ao hall e viu pelo vidro da porta o rosto do Dr. que o encarava, mas antes que pudesse virar a maçaneta ouviu um forte estrondo e foi atirado para trás caindo de costas no chão.
– Bom dia garoto lobo – cumprimentou-o sarcasticamente o Dr., que abriu a porta enquanto recarregava uma escopeta calibre 12 que trazia na mão – Não se preocupe foi apenas um tiro de sal.
– Seu bastardo – retrucou Alceu percebendo agora seu abdome baleado – Por que você fez isso?
– Não se finja de bobo – o imenso homem agora começava a arrastá-lo pelos pés com imensa facilidade – Eu fiz um pequeno exame no seu sangue.
– O lenço! – a angustia de minutos atrás tinha sumido, os instintos falavam mais alto nesse momento e tudo o que desejava era estraçalhar aquele maldito sueco com cara de viking.
– Você deve estar curios... – dizia o Dr. quando foi interrompido por um bote inesperado de Alceu que o puxou pelo braço subitamente e atirou-o porta fora com uma força descomunal.
– Eu estou muito curioso sim – retrucou levantando-se quase completamente recuperado do tiro – Mas acho que vou deixar pra saber na outra vida quando a gente se reencontrar.
– Eu não previ que você pudesse se curar sem estar transformado – riu-se Ingmar – Mas a escopeta não foi a única coisa que preparei pra você hoje.
– Fenrir!!! – gritou ele com seu sotaque sueco que fez com que Alceu não compreendesse a palavra, mesmo conhecendo-a bem.
Um monstruoso Wolfdog pulou por cima do pequeno portão ao lado do chalé e passou para trás do Dr. encarando Alceu.
– Fenrir? – disse Alceu confiante de que o animal não o atacaria – O lobo gigante nórdico, muito apropriado.
Ele partiu contra Ingmar com uma fúria selvagem digna de um animal, mas ao contrario do que previu o imenso animal atacou-o de imediato atirando-o ao chão mais uma vez. O enorme cão mordeu-lhe no braço com uma força incrível que triturou seus ossos e estava agora a chacoalhá-lo, fazendo movimentos bruscos com cabeça típico dos lobos. O Dr. levantou-se rapidamente e correu para o chalé em busca de sua escopeta, teve tempo suficiente ainda para trocar sua munição antes de dar a ordem para que o Wolfdog soltasse Alceu.
Frigöra¹! – bravejou em sueco para que o cão o soltasse – Não é tão durão assim eim menino lobo.
          Quando Fenrir soltou Alceu, este já estava desacordado, certamente desmaiou devido a dor de ter os ossos prençados pelos enormes dentes do cão. Deu por si novamente dentro de uma especie de porão, estava trancado em uma jaula de groças barras de ferro e acorrentado a parede pelos braços e pernas. Ainda estava um pouco atordoado e viu que seu braço não estava mais em carne viva, mas seus ossos ainda estavam quebrados e doiam de maneira desmedida.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   (1) "Frigöra" significa "Solte" em Sueco. ___________________________________________________________________________________________________ 


Acordou menino lobo? – Dr. Ingmar estava a sua frente sentado em uma cadeira com seu enorme cão ao seu lado e a escopeta ao colo – Quer saber agora como eu descobri seu segredinho, ou ainda prefere deixar para a outra vida?
– O que você quer comigo? – perguntou Alceu recobrando os sentidos lentamente.
– Matá-lo é claro – respondeu o Dr. dando batidinhas na arma em seu colo – Você é um perigo para a sociedade, o que estava pensando quando contaminou aquele cão?
– Não sei – disse sorrindo, agora pensando em todas as idiotices que fez – Me curar talvez.
– E se o Thor se transformasse dentro daquela universidade cheia de alunos?! – exasperou-se – Você não pensou nisso não é seu idiota?!
– Que se dane! O cachorro só ficava preso mesmo!
– Na verdade que se dane mesmo – explicou o Dr. – O vírus é proveniente de uma raça extinta de lobo que viveu na Europa durante a idade antiga. Cães e lobos têm cerca de 98% de genes em comum o que faz com que também sejam imunes aos efeitos colaterais do vírus.
– Então por que está me aborrecendo por isso?
– O problema é que você não sabia disso – atentou Ingmar – Assim como não sabe de mais nada.
– Então por que não me mata logo de uma vez? – perguntou agora muito calmo, pensando que morrer não seria tão mal, visto que seria o fim de suas preocupações.
– Pretendo ver sua transformação antes de fazê-lo – respondeu parecendo um pouco consternado – Mas não me julgue mal, faço isso apenas para ter a prova cabal antes de cometer um assassinato.
– Nós dois sabemos que eu vou me transformar, não seja ridículo – riu-se Alceu – Quer me dar outra oportunidade para matá-lo?
– Na verdade o risco de que isso aconteça é basicamente zero – esclareceu o Dr. que agora também ria de toda a presunção do rapaz que estava acorrentado – Eu o subestimei destransformado, realmente não previ que já tivesse algumas características lupinas¹ , mas o caso agora é outro.
– Provavelmente o vírus adaptou-se melhor em seu organismo devido a sua descendência grega – continuou – Há muito mais entre o céu e a terra do que você imagina garoto.
– O que uma coisa tem a ver com a outra? – intrigou-se Alceu, agora realmente curioso para saber exatamente o que era tudo aquilo que causaria sua ruína.
– Interessou-se enfim em me ouvir – disse rindo novamente – Bom ainda temos tempo suficiente antes que você se transforme. Você nem deve ter se dado conta, mas já passam de 17h.
– Prossiga, por favor – interrompeu-o secamente fazendo com que o sorriso logo desaparece de seu rosto.
– Tudo bem – começou – Existe uma lenda da mitologia grega que remete a mais de 1100a.c e essa lenda é a primeira sobre licantropia de todo o mundo.
– Nela se conta que o primeiro Rei da Arcádia, Licaon filho de Pelasgo ousou servir carne humana em um banquete oferecido em seu palácio.
– Entretanto o que Licaon não sabia era que Zeus estava presente neste banquete, e muito ofendido acabou transformando-o em um Licantropo como castigo, mas isso é apenas uma lenda, apesar te ter seu fundo de verdade.
– O que pouquíssimas pessoas sabem é que os antigos possuíam uma imensa sabedoria e que boa parte dos mitos e religiões que existem hoje têm como única finalidade mascarar fatos verdadeiros aos quais as pessoas não estão “preparadas” para saber.                                                                                                                                                                                                                                                                                                           (1) "Lupino" é relativo à lobo                                                                                                                                              ___________________________________________________________________________________________________


Licaon na verdade nunca serviu carne humana a ninguém, muito menos a Zeus, mas o primeiro rei da Arcádia era sim um magnífico cientista com conhecimentos maiores, acredite, do que os que a ciência convencional nos proporciona hoje.
– O que realmente aconteceu foi que ele conseguiu isolar um vírus característico que existia nos tais lobos que eu lhe falei e percebeu que poderia encontrar grande vantagens introduzindo-o em seu próprio organismo.
– Licaon tinha inimigos muito poderosos, uma organização que existia muito antes dele ter nascido e existe até hoje.
– Essas “pessoas” podem até mesmo ter influenciado na moldagem do DNA humano atrofiando uma glândula existente no nosso cérebro a qual se acredita ser responsável pela nossa consciência espiritual e imaginação.
– Esse atrofiamento é dado por uma espécie de onda que é emitido para toda a população mundial através da lua, essa onda é captada pela glândula e diminuí sua capacidade tornando o ser humano mais submisso e tolo.
– O vírus que você “encontrou” aloja-se principalmente nessa glândula, chamada glândula pineal e tem o poder de anular os reveses da onda lunar.
– Ele porém não é totalmente compatível conosco como é com os cães e lobos, sendo que pode vir a causar a morte dos menos compatíveis e a insanidade feral em praticamente qualquer um.
– A causa disso é que em nosso organismo ele não apenas anula os efeitos lunares, mas os inverte deixando a glândula pineal sobrecarregada alterando nossa consciência e remetendo a memória do vírus que junto ao estado mental avançado em que estaríamos, acaba por ser capaz até mesmo de alterar o DNA do portador.
– Licaon e os Arcádios no entanto eram o povo mais compatível com o vírus a que se tem noticia, sendo que é provável que o Rei tenha dominado até mesmo a transformação mantendo sua consciência inclusive na lua cheia.
– E você menino lobo, pelo que investiguei tem forte descendência grega, provavelmente Arcádia, por isso consegue as vantagens do vírus mesmo não transformado.
– Uma coisa que eu não entendi – pronunciou-se Alceu após ouvir meticulosamente toda a explicação – Eu tinha adquirido uma espécie de empatia com os cães, por que então seu vira-lata me atacou?
– É provável que você tenha apenas encontrado uma maneira instintiva de se comunicar perfeitamente com eles, como os animais que você teve essa experiência provavelmente já o conhecia você acabou tendo errônea impressão.
– Com certeza esse cães viam em você um macho alfa e liderante – prosseguiu – O que não foi o caso de Fenrir que já tem sua própria matilha e é muito provavelmente o maior cão do mundo.
– Ele é enorme mesmo – disse Alceu olhando para o wolfdog deitado ao lado do dono – O que você fez pra ele crescer tanto?
– Wolfdogs são híbridos – respondeu – Híbridos de várias espécies já possuem a característica de possuírem genes que condicionem a produção dos hormônios inibidores do crescimento.
– O Fenrir também foi modificado geneticamente por mim, aumentando ainda mais essa característica – continuou orgulhoso do próprio trabalho – Ele tem 1,30m de cernelha e 189kg, sendo mais forte que um menino lobo.
– Então foi isso – disse Alceu processando os fatos.
– Bom – falou o professor apontando-lhe a arma nesse momento – Seu tempo está quase esgotado garoto, mas alguns minutos e teremos a lua pairando no céu.
Alceu não disse nada, apenas sentiu-se preparado para morrer. Não teve pena de si mesmo, nem passou por sua cabeça implorar pela vida, nesse instante a única coisa que queria era estraçalhar o Dr. e seu maldito wolfdog. Ele que a pouco estava muito calmo percebeu que encontrava-se novamente influenciado pelo vírus. Faltavam poucos segundos para a
transformação, mas o que o irritava nesse momento era apenas a arma apontada para sua face de maneira que ele como qualquer outro animal sabia que era uma ameaça. Começou a sentir um intenso formigamento passar pelo seu corpo, seu “terceiro olho” estava se abrindo e ele pode ver com clareza que não havia o que fazer, mas a vontade de viver voltava a crescer em seu peito. Viu seus pelos começarem a crescer, suas unhas tornarem-se garras, o medo começar a crescer dentro do homem e do cão que a pouco o desafiaram. Completou sua transformação emitindo um sonoro uivo, era agora um enorme Licantropo de pelos negros como a noite e era uma visão muito mais aterradora do que fora o esganiçado lobisomem de Joanópolis. Tentou investir contra o não mais tão gigantesco Dr. Ingmar que ainda lhe apontava a arma, mas as correntes o detiveram. Forçava-as com toda a força, imaginando o gosto do sangue em sua boca e bramindo de ódio para o homem que ainda hesitava em alvejá-lo, quando uma espécie de explosão jogou o teto sobre suas cabeças. Três homens trajados inteiramente de negro e mascarados invadiram o recinto alvejando diversos dardos no Dr. e em seu cão que antes que pudessem ter qualquer reação caíram desacordados. Voltaram-se pra ele enfim, encarando-o por alguns segundos até que um deles se manifestou:
– Vai ficar tudo bem, não se preocupe – disse em uma voz calma antes de atirar um dardo contra seu peito.

6 comentários:

  1. como eu te disse, você escreve sensacionalmente bem :)

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  2. Bom texto. A pesquisa feita deu veracidade ao conto sem atrapalhar a trama primcipal em cima dos personagens que também estão bem montados. Fiquei realmente curioso para saber mais e consegui até reconhecer alguns personagens, me perguntei se vais surgir algum com meu perfil.
    O blog é legal, sucesso!

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  3. Ficou muito bacana, apesar de eu ter enrolado um pouco pra ler , achei muito prazeroso de ler e naum ficou cansativo, espero que continue! parabens ai!

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  4. Ficou legal fi.
    parabéns

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  5. Oi Filipe,
    Parabéns pela história, você escreve bem, e a temática tem tudo para fazer sucesso nos dias de hoje!
    Forte Abraço, e muito Sucesso!

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